A professora Claudete Oliveira completou um ano à frente da 12ª Coordenadora Regional de Educação (CRE), que atende todas escolas estaduais de Guaíba e mais 18 cidades das regiões Costa Doce e Carbonífera.
Claudete até então era diretora da escola Sergipe, em Eldorado do Sul, há mais de dez anos, e no seu extenso currículo voltado a educação está que é graduada em História, mestre em Educação Básica e doutora em Gestão Educacional, foi vice-diretora da escola Ruy Coelho Gonçalves, em Guaíba, e entre 2007 e 2009 assumiu a coordenadoria-adjunta da 12ª CRE.
Ela concedeu uma entrevista exclusiva para o Repórter Guaibense sobre o trabalho realizado à frente da coordenadoria desde 1ª de novembro do ano passado. Destacou a demanda das vagas de ensino médio, municipalização de cinco escolas, educação no campo e cursos técnicos de ensino profissionalizante. Confira:
Pedro Molnar - As escolas estaduais enfrentam problemas de abertura de turmas para o ensino médio, certo?
Há uma preocupação na educação sobre a demanda de estudantes. Nós atendemos quase 4 mil alunos no ensino fundamental, e a nossa obrigatoriedade é o médio. Nós temos de alguma forma ao longo dos anos negligenciado esse ensino médio aqui em Guaíba. Por exemplo: a escola Otero Paiva Guimarães, no bairro São Francisco, é de ensino médio e não oferta o ensino médio diurno porque o diurno é todo de ensino fundamental, inclusive de anos inicias, que já foi um determinação de política pública estadual e do Plano Nacional de Educação para passar a responsabilidade para os municípios.
O que acontece: o aluno termina o 9º ano na escola Otero, na São Francisco, e os pais não tem dinheiro para pagar passagem para cursar o ensino médio aqui. E aí não vem. Parece louco. Sendo que você tem uma escola de ensino médio no bairro, e você tem de pagar a passagem para o seu filho ir para Centro cursar o ensino médio porque a escola não dá conta do ensino fundamental que é prorrogativa da Secretaria Municipal de Educação.
Esses ajustes temos que fazer. Essa parceria de nós Estado estarmos atendendo também os anos iniciais do Município está nos prejudicando porque não estamos dar conseguindo dar conta daquilo que é a nossa função: o ensino médio. Isso me causa uma preocupação muito grande.
Pedro Molnar - Há mais projeto de municipalização das escolas?

Vamos dar como exemplo o bairro Santa Rita-Cohab. Tem quatro escolas. Temos a escola municipal Santa Rita de Cássia com número excedente de alunos, temos para o ano que vem dez salas cedidas no Ciep para apoiar essa demanda. E oferecemos mais vagas, tanto no Ruy Coelho Gonçalves e no Aglae Kehl para o ensino fundamental. Ok. Teria problema de municipalização do Ciep? Não. Mas pensa comigo: as pessoas que moram naqueles recentes apartamentos, não vem de fora, mas onde eles vão cursar o ensino médio? É nas escolas dali, nas escolas do bairro.
Se nós não aproveitarmos esses prédios que são do Estado, daqui três ou quatro anos nós vamos estar pedindo cedência de uso para o município para dar conta do ensino médio. Todos alunos que estão no Santa Rita vão vir para as escolas do ensino médio. E tu precisa dar conta.
Hoje estamos com processo de municipalização da escola Frederico Link. Então quais escolas que foram municipalizadas nos últimos anos? Itororó, Gastão Leão, Evaristo da Veiga e Albino Hackmann. Vamos para cinco escolas municipalizadas.
Temos que pensar a educação no olhar do horizonte, hoje o problema está no município nessa demanda de não haver espaço físico, até porque não houve investimentos nos últimos governos de prédios. Não foram construídas escolas para ensino fundamental. A previsão que temos, com estudo que fizemos com técnicos daqui a CRE, é que daqui dois ou três anos não teremos vagas para o ensino médio. Daqui a pouco não teremos mais prédio para botar o médio.
Pedro - Há projeto de municipalização da escola Otaviano?
Não, estamos conversando com a comunidade para transformar em ensino médio. O que acontece: os alunos do Otaviano vão para onde? Um porcentual significativo para o Augusto Meyer e outro para o Gomes Jardim, que atende devido os cursos técnicos toda a região. Então o que faz que essas duas escolas nunca tenham vagas? Por causa dos alunos que saem do Otaviano.
Se transformarmos a escola Otaviano em ensino médio, além de dar conta dos alunos que começam ali e seguem, tu também desafoga o Augusto Meyer e o Gomes Jardim. Porque temos o Izaura Ibanez Paiva, lá na São Jorge, e depois somente vamos ter o Augusto Meyer de médio. E depois o Moura e Cunha. Se nós pegarmos o contingente de população que tem toda a zona sul e a Moradas da Colina, somente temos três escolas para ajudar.
Pedro - E a escola Ismael Chaves Barcellos, que oferece somente os anos iniciais?
Tem uma possibilidade, mas o interesse dos municípios de uma forma geral é muito naquelas escolas que oferecem espaços físicos. E o Ismael é entupido de alunos. Não sei se o munícipio teria interesse em assumir esses alunos do Estado, mas podemos conversar.
O Cônego Scherer não tem mais ensino fundamental. O Nestor de Moura Jardim à princípio já era para ter terminado com o fundamental, não terminamos porque o Ismael tem apenas até o sexto ano e, do sétimo ao nono, estudantes venham até o Nestor. Então toda essa complexibilidade de planejamento e de conhecer a comunidade é fundamental para o planejamento da educação.
Pedro - O curso de magistério da escola Gomes Jardim permanece em 2023?
Enquanto tiver demanda, sim. Porque entendemos que a formação pedagógica do curso normal é muito importante na formação de professores. Então quanto tivermos demanda no curso normal, se mantêm. E o curso é regional, possui estudantes de Eldorado do Sul, Barra do Ribeiro, Sertão de Santana, Guaíba, de toda a região.
Pedro - O Estado perdeu o curso de Celulose da CMPC.
Sim, foi uma opção da empresa. É que nem casamento, o momento que não dá mais não dá mais. A empresa optou pela formação mais dentro da fábrica, mais dentro da perspectiva deles, e para nós tranquilo. Foi um relacionamento bom que durou 40 anos. Encerramos a parceria, mas o curso continua e cidade não perdeu o curso de Celulose.
No lugar do curso estamos pensando em uma parceria com a universidade federal para um curso de formação de professores, com a UFRGS, para o Gomes Jardim. Estamos vendo as possibilidades com a comunidade escolar e diretor. Seria uma formação de terceiro grau dentro da escola Gomes Jardim, regionalizado.
Pedro - A CRE anunciou a mudança dos cursos técnicos da escola Solon Tavares para o prédio do Ciep. Porque?

O Solon é um prédio de cessão de uso do estado. Percebemos que a manutenção do prédio é muito caro, tu aplica muito dinheiro na manutenção do prédio. Tranquilo, aquele prédio foi pensado para uma fábrica, não para uma escola. É um lugar de pouco acesso, pouco de acesso de ônibus, que muitas pessoas não tem a mínima ideia de onde fica.
Com essa situação de haver a microexplosão de 17 de janeiro e a escola Aglae absorver todos os estudantes do Ciep, a gente viu a possibilidade então de trazer o Solon para o Ciep, que é um prédio pensado para uma escola e que tem todas as condições. E tu tá mais visibilidade também para uma escola profissional.
Pedro - A educação no campo é uma das suas principais bandeiras, o que pretende realizar para atender a demanda daqueles que estudantes que moram na zona rural?
Estamos pensando num curso de formação do campo, passando muito essa questão que voltou muito e acho muito importante que é a questão ambiental. E só a educação vira essa chave, fora isto não existe campanha, camiseta, movimento.
A minha bandeira é educação no campo, e estou dentro daqui da coordenadoria com a caneta na mão ou com projetos mais próximos, e não faço nada para educação no campo. E aí eu acho que isso é antagônico, muitas vezes tu defende uma bandeira e quando vocês tem a oportunidade de fazer pela aquela bandeira tu não faz porque os outros interesses perpassam.
Nós também temos um projeto regional, do centro tecnológico agrícola em Tapes, e a princípio estamos pensando num consórcio regionalizado também. Temos toda essa riqueza da Costa Doce que vamos ver através da Superintendência da Educação Profissional do Estado (SUEPRO) para trazer qualificação profissional, porque hoje tu não precisas mais sair do campo para acessar à educação.
O direito dos alunos do campo são os mesmos da cidade. Temos que fazer nosso papel para que as políticas públicas de educação no campo realmente se efetivam. Se efetivar para aquele que mais precisa, que é o pequeno agricultor.
Pedro - Continuando na educação no campo, há o projeto de ensino médio para alunos da escolas Santa Catarina, no Logradouro?
O problema é que é muito difícil implantar o ensino médio quando você está numa cedência de uso. Tem que ser muito bem argumentado e planejado para que o Conselho Estadual também de uma forma autorize isso. E a política pública da Secretaria Estadual de Educação também, é você abrir o ensino médio dando condições de acesso para manter essas turmas. Quando você está numa cessão de uso, você está sempre na corda bamba.
Naquela região a única solução que temos no primeiro momento é somente a escola Sergipe, sendo estadual, mas não tem prédio. O projeto de repente da escola Sergipe seria o médio, que daria conta tanto da escola Santa Catarina tanto da escola São Paulo.
Eu estou entregando minha tese de doutorado agora dia 1º, e meu estudo é as implicações da não ação do estado na implementação do ensino médio na comunidade do Bom Retiro. As implicações são enormes. Esse fato de não ser oferecido ensino médio nas comunidades rurais é uma violência simbólica que acontece com os moradores da zona rural, porque você os impede de serem o que quiserem. E você só vai conseguir isto através da educação.
É muito duro para um aluno da zona rural levantar cinco da manhã para estudar, às vezes caminha 30 ou 40 minutos até chegar na estrada para pegar o ônibus, para estudar. Depois sai meio-dia pouco e chega em casa às três da tarde. E também há a questão de as famílias enxergarem o valor do estudo.
A escola Sergipe está a 50 quilômetros da capital do Estado, tu não estás no cafundó do judas. São populações que não tem voz, e que produzem para nós comer. De onde vai toda aquela produção da Ceasa? Vem dessas pequenas propriedades do agronegócio, os quais são negados os direitos à educação.
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