A Escola Estadual Augusto Meyer, conhecida carinhosamente como Preme, realizou a 20ª edição da Semana Literária (SELIT) entre os dias 17 e 24 de julho. O tradicional projeto da instituição localizada no bairro Ermo, movimentou todas as turmas com o tema "A Literatura nas Estrelinhas – Entre a Luz e a a Sombra", que propôs uma reflexão sobre os múltiplos sentidos presentes nas obras literárias.
Os alunos apresentaram adaptações teatrais de obras consagradas da literatura mundial e brasileira, como "A Metamorfose", de Franz Kafka; "Hilda Furacão", de Roberto Drummond; "Dom Quixote", de Miguel de Cervantes; "O Fantasma da Ópera", de Gaston Leroux; "O Estranho Mundo de Jack", de Tim Burton; e "Memórias Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis.
A professora Cíntia Cabral destacou que, ao longo das duas décadas da SELIT, o projeto sempre foi muito mais do que um evento escolar. "Cheguei ao colégio há 16 anos. Como foi no meio do ano letivo, não participei da organização da SELIT naquele primeiro ano. Apenas assisti às apresentações. E foi ali, sentada na plateia, que me encantei. Vi algo muito maior do que um evento escolar. Vi um projeto em que a literatura deixava de ser apenas páginas de um livro para ganhar voz, corpo e emoção. Um projeto que rompe os padrões da sala de aula tradicional e transforma conhecimento em experiência. Ali, os livros deixavam de ser apenas páginas impressas. Os personagens ganhavam voz. Os cenários despertavam a imaginação. Os alunos deixavam de apenas estudar literatura para vivê-la. Viver histórias de diferentes épocas, desenvolver a criatividade, ampliar o repertório, aprender a trabalhar em equipe e despertar o pensamento crítico", afirmou.
Ela acrescenta que durante esses anos aprendeu que a educação também se faz com emoção; que um figurino pode ensinar tanto quanto um livro; que um palco desenvolve coragem; que decorar um texto desenvolve disciplina; que construir um cenário ensina cooperação; e que interpretar um personagem faz um jovem compreender melhor o outro e também a si mesmo. "A SELIT sempre foi isso: uma sala de aula sem paredes", completou.
A turma 102 apresentou a peça "O Pequeno Príncipe", uma das obras mais conhecidas da literatura mundial, escrita por Antoine de Saint-Exupéry e publicada em 1943. Embora seja frequentemente considerada uma obra infantil, o livro traz profundas reflexões sobre a vida, o amor, a amizade e o sentido da existência. Já as turmas 202 e 203 apresentaram "Incidente em Antares", um dos romances mais importantes da literatura brasileira, escrito por Erico Verissimo e publicado em 1971. A obra mistura realismo, sátira política e elementos do realismo fantástico para fazer uma crítica à sociedade brasileira, especialmente durante o período da ditadura militar.
Para Cíntia, em Incidente em Antares descobrimos que, muitas vezes, os verdadeiros fantasmas não são aqueles que saem dos túmulos, mas aqueles que continuam vivos, protegidos pelo silêncio, pela mentira e pela impunidade.
A história se passa na cidade fictícia de Antares, no Rio Grande do Sul. A primeira parte do livro apresenta a formação da cidade, marcada pela rivalidade entre duas famílias poderosas e pelas disputas políticas e econômicas. Na segunda parte ocorre o fato que dá nome ao romance: durante uma greve dos coveiros, sete pessoas morrem, mas não podem ser enterradas. Como os corpos permanecem insepultos, os mortos "voltam" e passam a circular pela cidade, revelando segredos e denunciando corrupção, hipocrisia, traições, injustiças e abusos cometidos pelos vivos. A situação provoca escândalo e desestabiliza toda a comunidade.
"É uma história que nos faz rir, refletir e questionar até que ponto uma sociedade está disposta a enfrentar suas próprias verdades. A adaptação preserva a essência dessa grande obra: mostrar que a verdade pode ser incômoda, mas é indispensável para transformar o mundo. Porque, às vezes, é preciso que os mortos falem para que os vivos finalmente aprendam a escutar. E talvez seja justamente essa a grande mensagem desta obra: a coragem de enfrentar a verdade, o preço do silêncio e a esperança de que uma sociedade só se transforma quando tem coragem de olhar para si mesma", destacou a professora.
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