Repórter Guaibense

Segunda-feira, 04 de Maio de 2026

Notícias/Cidadania

Maio Solidário: Ulbra Guaíba transforma o mês das enchentes em campanha de solidariedade

Inspirada na maior catástrofe climática recente do Rio Grande do Sul, campanha quer institucionalizar maio como mês nacional da solidariedade na rede ULBRA, mobilizando universidade, escola, poder público e entidades sociais de Guaíba

Maio Solidário: Ulbra Guaíba transforma o mês das enchentes em campanha de solidariedade
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A Universidade Luterana do Brasil (ULBRA) lançou na última quarta-feira (29), no campus de Guaíba, o projeto Maio Solidário. A proposta é transformar o mês de maio – marcado pelas enchentes que atingiram fortemente o Rio Grande do Sul e a região metropolitana – em um período permanente de mobilização social, arrecadação de donativos e ações comunitárias.

A iniciativa envolve todos os campus da ULBRA no país, colégios da rede e a comunidade externa, com duas grandes frentes: campanha de arrecadação de itens de higiene pessoal e alimentos; e ações de intervenção social e extensão, levando a expertise acadêmica dos cursos para instituições e comunidades que necessitam de apoio.

Em Guaíba, o Maio Solidário será desenvolvido de forma integrada entre o campus universitário e o Colégio ULBRA Martinho Lutero, buscando repetir – agora de forma planejada e continuada – o espírito de união que marcou a resposta à enchente de dois anos atrás.

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A lembrança da enchente foi o eixo central de praticamente todas as falas. A prefeita Cláudia Jardim lembrou que 12.500 famílias, somando mais de 42 mil pessoas, foram diretamente atingidas no município. Em seu depoimento, contou que, em sua própria casa, a água chegou a 1,90 metro, ressaltando que fala não apenas como gestora pública, mas também como vítima da tragédia.

Mesmo assim, destacou que outras cerca de 60 mil pessoas, não diretamente afetadas, se mobilizaram em um “espírito de união, voluntariado, força, solidariedade e resistência”, o que permitiu que a ajuda humanitária chegasse rapidamente e que o município retomasse o caminho da reconstrução. “Esse é o momento que vai além do discurso. A gente precisa de atitude, de prática, de promoção, de articulação, de multiplicação dessa campanha chegando em cada cantinho de Guaíba”, afirmou, convocando a comunidade a se engajar no Maio Solidário.

O ex-diretor do campus Guaíba e atual coordenador regional de educação, professor José Felipe de Quadros Nunes, relembrou a madrugada em que recebeu a ligação da prefeita, por volta das 4h do dia 4 de maio, pedindo que o campus fosse aberto para receber desabrigados. A estimativa inicial era de poucas pessoas, mas o local chegou a abrigar cerca de 3 mil em determinado momento, em situação descrita como “uma cena que ninguém gostaria de ver de novo”. “Ali a gente não tinha lado, não tinha partido, não interessava se era entidade municipal, estadual ou federal. As pessoas se uniram”, disse.

O capelão da ULBRA Guaíba, pastor Peterson Douglas Machado, também rememorou os primeiros instantes do abrigo. Segundo ele, em poucos minutos, dezenas e depois centenas de voluntários se apresentaram para ajudar, rapidamente identificados por jalecos da “ULBRA Solidária”. O campus acolheu aproximadamente 13 mil pessoas ao longo de todo o período, antes de se tornar base de operação dos Fuzileiros Navais e da Marinha, que permaneceram cerca de seis meses na estrutura.

O capelão-geral da ULBRA, pastor Maximiliano Wolfgang, apresentou os fundamentos do Maio Solidário em três grandes pilares: natureza educacional, formando profissionais conscientes de seu papel social; identidade confessional, sendo uma instituição baseada sua atuação em valores como serviço, cuidado e compaixão; e compromisso comunitário e territorial, dialogando com as demandas locais, construindo propostas conjuntas e contribuindo para o fortalecimento das comunidade.

Ele relembrou que, durante a crise, o campus Canoas se tornou o maior abrigo do tipo na América Latina, acolhendo cerca de 8 mil pessoas, enquanto o Colégio Cristo Redentor e outras unidades abrigaram mais de 800 pessoas. Doações chegaram de campi de todo o país, inclusive de Manaus, evidenciando a rede nacional de solidariedade instaurada em 2024.

Em Guaíba, o Maio Solidário será operacionalizado com a campanha de arrecadação de itens prioritários, como produtos de higiene pessoal e alimentos não perecíveis no campus da ULBRA Guaíba, no colégio ULBRA Martinho Lutero e parceiros institucionais e empresas que aceitarem receber as caixas da campanha. A estratégia é instalar caixas identificadas em diferentes espaços, mobilizar acadêmicos, professores, colaboradores, egressos, estudantes da educação básica e parceiros da comunidade, e estimular empresas ligadas a estudantes, professores e ex-alunos para que também participem.

Pastor Peterson enfatizou o potencial da rede da ULBRA: são mais de 500 mil egressos espalhados pelo país, muitos deles ocupando posições estratégicas em empresas, serviços públicos e organizações civis, o que amplia o alcance da campanha.

A segunda frente prevê que cada curso do campus Guaíba organize, ao longo de maio, pelo menos uma ação de intervenção social, conectando sua área de conhecimento a uma demanda da comunidade local. Entre os exemplos mencionados estão atividades de orientação jurídica, ações de saúde, projetos de acolhimento psicológico, oficinas educativas em escolas e instituições sociais e ações em entidades assistenciais da cidade.

Um grupo de acadêmicas dos cursos de Psicologia e Direito foi apresentado como a comissão estudantil que irá “agitar” o campus e articular as iniciativas com a direção, coordenações e pastoral. O capelão fez questão de registrar que, até o momento, a equipe é majoritariamente feminina, convocando os colegas homens a também se engajarem.

A prefeita Cláudia Jardim ressaltou que o Maio Solidário ocorre em um ano simbólico para o município, que completa 100 anos. A música-tema do centenário “Guaíba Solar”, do casal Rafael Sonic e Victória Elsner, foi apresentada pelo coral do Colégio Martinho Lutero, sob regência de Heber Nascimento, emocionando a prefeita. "É uma música totalmente inédita, que capta muito a nossa essência do que nós passamos no passado para ser essa comunidade que somos hoje", disse.

A prefeita garantiu que a prefeitura mantém as portas abertas para a universidade para diálogo, construção conjunta e apoio a iniciativas sociais, reforçando que o Executivo é parceiro institucional do Maio Solidário.

Como parte do evento, a ULBRA entregou um certificado de reconhecimento público e institucional à prefeita Cláudia Jardim, pelo compromisso das lideranças com a promoção da solidariedade, da cidadania e do bem comum; a atuação direta durante a enchente e na reconstrução; e a inspiração para atitudes que “transformam realidades e fortalecem vínculos”.

Também foi citada, em tom de agradecimento, a atuação da então primeira-dama Deise Maranata, lembrada pela prefeita como “exemplo de força e dedicação” nas frentes de voluntariado. Cláudia referiu-se a Deise como “primeira irmã”, reforçando o laço humano construído naquele período.

Diversos momentos da cerimônia foram marcados por reflexões de cunho espiritual e relatos emocionais. O pastor Eli Miller relembrou o primeiro culto realizado após a enchente, numa igreja luterana repleta de doações e colchões, com pessoas deitadas entre caixas de alimentos. O culto de Pentecostes serviu para refletir sobre a presença de “anjos” ao longo da vida de Jesus e, por analogia, sobre o papel das pessoas que se mobilizaram em Guaíba. Segundo ele, a partir da ascensão de Cristo, a missão de agir no mundo passou aos seres humanos: “Agora não são mais os anjos, somos nós. Mas eu vi um monte de anjos há dois anos atrás. Alguns usavam touca e faziam comida, outros usavam farda e ajudavam, outros pilotavam jet ski, botes, helicópteros, outros lavavam as roupas. Esses anjos mostraram que, apesar de tudo, Deus ainda estava conosco.”

A professora Arlete Stahl compartilhou o relato da “vovó Vera”, cadeirante de 80 anos, moradora de Eldorado do Sul e abrigada em salão de igreja durante a enchente de 2024. Apesar de ter perdido praticamente tudo, ela cantava para “tentar esquecer um pouquinho, se alegrar e alegrar quem estava por perto”. A história foi usada para introduzir a apresentação musical do coral do Colégio Martinho Lutero, como símbolo de resistência e esperança.

Tanto o ex-diretor Felipe quanto a diretora atual, Juliana Kirsten Diniz, enfatizaram o vínculo entre a ULBRA e a cidade. Juliana reforçou que a universidade não pretende apenas formar profissionais tecnicamente competentes, mas cidadãos com responsabilidade social. Para ela, o Maio Solidário consolida essa vocação: “É um chamado institucional para a ação, mas, mais do que isso, é um chamado para cada um de nós. Não adianta ter só um discurso bonito. Precisamos ir além das palavras.”

A organização insistiu na ideia de que “juntos somos mais fortes”, mas com um adendo: essa frase só se torna verdadeira quando colocada em prática. O desafio lançado à comunidade acadêmica e à cidade de Guaíba é que, a cada mês de maio, a solidariedade vivida na crise seja relida, recriada e transformada em ações concretas que, ano após ano, ampliem o impacto social da ULBRA e consolidem Guaíba como uma cidade mais resiliente, acolhedora e comprometida com o próximo.

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