Repórter Guaibense

Terça-feira, 20 de Janeiro de 2026

Notícias/Cultura

“Prometemos sentir saudades” é o novo livro do músico e escritor guaibense Guilherme Lessa Bica

Aos 40 anos, Bica decidiu publicar a obra após revisitar os contos que já havia escrito

“Prometemos sentir saudades” é o novo livro do músico e escritor guaibense Guilherme Lessa Bica
IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

“Prometemos sentir saudades” é o novo livro do músico e escritor guaibense Guilherme Lessa Bica, de 40 anos. Dezenas de amigos e familiares prestigiaram o lançamento da obra literária na noite da última quinta-feira (18), no Califa Skate Bar, com apoio do edital PROArte Guaíba, promovido pela Secretaria Municipal de Cultura.

Bica decidiu publicar a obra após revisitar 29 contos que já havia escrito e perceber que todos tinham algo em comum: uma relação com a saudade. O primeiro é de 2006, enquanto o mais recente foi produzido no período pós-pandemia.

"A saudade não é apenas essa ideia de falta, de acesso a uma memória de alguém que está distante da gente ou que partiu, ou ainda de situações que vivemos no passado e gostaríamos de reviver. Ela também é uma espécie de intuição que temos no presente, em situações marcantes da nossa vida. Isso vai se transformar numa memória querida, numa saudade, e, ao mesmo tempo, surge uma sensação de frustração por não conseguirmos reter aquilo com a gente. O máximo que podemos fazer é voltar ao passado por meio da memória e revisitar essas situações”, afirma o autor.

Leia Também:

A obra é dividida em quatro seções: “A saudade é a cicatriz da memória”, centrada em histórias que evocam narradores e vivências infantis; “A promessa impossível do que poderíamos ser”, que investiga os desajustes e as impossibilidades nas relações amorosas; “O teu coração é um muro riscado de poemas”, contos que perseguem paisagens internas e externas de beleza e consolação; e “Verde escuro”, quando as narrativas se afastam do ambiente urbano e encontram camadas em que a memória se associa ou ao menos almeja se associar ao sobrenatural, ao fantástico. 
 
Na apresentação do livro, o músico Enio Cambará revela suas impressões como leitor e ao mesmo tempo e conceitua, a seu modo, o espírito dos contos: “Somos todos promessas de sentir, do sentir, por que não?! (...) uma obra que revira a gente por dentro, muda os móveis da casa, deixa a leiteira derramar no fogão, e mostra aquela sujeira encrostada que vai ficando atrás da geladeira enquanto a gente limpa somente ‘onde anda a procissão’”.

Entre os contos, está sobre as linhas da mão do avô, o retrato na parede visto como um quadro de museu, o primeiro tombo sofrido e a vontade de passar a vida inteira correndo atrás de uma bola de futebol, numa quadra de cimento da escola.

 

Trecho do conto A linha da mão do avô:

(...) e eu reencontrava a linha da mão do avô num instante adiante, quando algum interlocutor lhe demandava atenção, e aí voltava a linha da mão do avô a deitar-se lentamente na direção do pulso, sinuosa, esquiva, na eternidade de uma linha de uma mão de um avô que já viveu muito mais do que viverá, e eu olhava mais uma vez para a nascente da linha, lá no alto, depois regressava para seu final, num terreno onde nada mais era claro, onde havia cicatrizes que forjavam novas linhas e tumultuariam qualquer leitura de cigana experiente, e lá mesmo nesse final, nessa confusão, na união de linhas que nasceram com o avô e de linhas que fundaram pequenas mortes de fendas de sangue de dor, lá nesse final alargava-se um carretel de linhas da mão, uma costura deformada, complexa e tenaz, onde sempre enxerguei o traço definitivo de uma raiz de árvore gigantesca (...)

 

Enquanto Bica autografava e falava sobre os livros para os futuros leitores, uma pessoa se emocionava entre lágrimas: sua avó, Mary Lessa, de 90 anos, orgulhosa do neto que se tornou escritor, músico e cancionista. Também é professor de língua portuguesa. Ele publicou seu primeiro livro, “Guaíba Labirinto”, em 2017, e em seguida participou da coletânea "Entre Amarras & Nós", em 2019. Nos últimos anos, também lançou canções pela banda Pequena Serenata.

Comentários:

Veja também