Em 2011, quando nossa organização fez 10 anos, gravamos um vídeo com desejos para os próximos tempos. Pedíamos o fim das agressões às pessoas LGBTI+, que travestis e transexuais pudessem acessar a escola sem discriminação, o fim do HIV/aids, o respeito ao direito de formar família, que a política fosse um espaço laico e o estímulo à diversidade no nosso país.
Este ano, a ONG Somos - Comunicação, Saúde e Sexualidade faz 20 anos e olhamos para trás com um sentimento agridoce. Por um lado, conquistamos muito. Por outro, nos vemos em um momento no qual precisamos nos unir para a defesa das liberdades democráticas e na luta contra o autoritarismo que se expressa pelo governo Bolsonaro, mas que está enraizado na nossa política.
Conquistamos o direito ao casamento, à adoção e à herança. Travestis e transexuais podem corrigir seus nomes e gênero em documentos e ter demandas específicas de saúde acompanhadas pelo SUS. A LGBTIfobia foi criminalizada. Podemos doar sangue. Só que muitos destes direitos são interpretações da Justiça, não leis, e, na prática, hoje estão apenas no papel. Dados sobre violência contra nós não são catalogados, milhares vivem na miséria que foi aprofundada pela pandemia de Covid-19 e vulnerabiliza ainda mais quem já é vítima da discriminação. O acesso à Educação e trabalho é dificultado para nós. Nas prisões, pessoas LGBTI+ são torturadas sem direito a expressar sua identidade, abusadas sexualmente e muitas vezes têm tratamento negado contra o HIV/aids, que ainda atinge nossa população de forma desproporcional pelo sucateamento de políticas públicas.
Hoje, nossas conquistas são vistas como ameaças à sociedade por grupos conservadores. Continuam nos combatendo, como sempre fizeram no Brasil, mas agora munidos de notícias falsas, dinheiro que cai dos céus e ainda mais violência. Estamos sempre dispostos ao diálogo, mas jamais abriremos mão dos nossos direitos humanos. E isso precisa ficar evidente não apenas para os conservadores, mas para todos aqueles que acreditam que o direito à dignidade pode ser negociado. 20 anos depois, reafirmamos que a luta não parou e que é hora de inaugurarmos um novo momento. É hora de dar a cara por quem somos.
Gabriel Galli
Jornalista e Diretor Operacional da Ong SOMOS
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Caio Klein
Advogado e Diretor Executivo da Ong SOMOS
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