Em 28 de abril de 1982 o então presidente da República estava em Guaíba para inaugurar o maior núcleo habitacional do Rio Grande do Sul. A cidade parou para receber o general João Figueiredo, ultimo chefe de poder do período da ditadura militar, na instalação de 15 mil residência para mais de 3 mil famílias em vulnerabilidade social na então Companhia de Habitação Popular (COHAB) - Ruy Coelho Gonçalves.
Um dos maiores bairros populacionais e colégios eleitorais da cidade completa, nesta quinta-feira (28), 40 anos de história. De lá para cá, os moradores conviveram com o surgimento de escolas, centros de tradições gaúchas, associações de bairro, igrejas, casas de religião, postos de saúde e outros acontecimentos que deixaram sua marca na história da comunidade da zona norte da cidade.
Por exemplo, a microexplosão que destelhou centenas de residências em janeiro deste ano; a chuva de granizo que demoliu outras casas no início da década de 80; a série de protestos e ataques aos ônibus da Expresso Rio Guaíba em 2004; a fundação da escola Carmen Alice Lavieguerre nos anos 90; e os desfiles da invernada do CTG Caudilho Guaibense.
Parte desta história está resgatada na página do facebook do documentário de preservação da memória da Cohab e Santa Rita, dirigido pelo publicitário e antigo morador Lucas Pedruzzi. O curta-metragem "As memórias, as histórias e as vidas: o bairro na boca de seus moradores", de 2012, apresenta histórias interpretadas pelos moradores mais antigos com produção dos então estudantes da escola de ensino médio Aglae Kehl.
A ideia começou a partir de um sonho quando era um simples adolescente de um dos bairros mais periféricos da cidade. "É verdade, na adolescência tive um sonho que voltava ao tempo e visitava as casas dos meus pais e tios no bairro. E via como era o bairro quando ele era inaugurado. Eu sonhei com isto. E, quando eu tinha pelos 19 anos, surgiu esta oportunidade do governo federal que beneficiava projetos de zonas de vulnerabilidade e em risco social", conta Petruzzi.
Segundo ele, moradores de certo modo sofria discriminação pelos de outros bairros de Guaíba, havendo ainda relatos escritos de jovens que sofria preconceito por simplesmente morar em um bairro considerado periférico.
"Devemos também entender que em uma certa época Guaíba era uma cidade muito provinciana, habitada por famílias tradicionais até o fim dos anos 1970. E todos esses imigrantes que cercavam nossa região começaram a trazer pessoas que não pertenciam a essas famílias tradicionais. Houve todo um choque cultural e um preconceito muito grande destas famílias. Até hoje os mais velhos referem-se quando vai ao centro de Guaíba de "Guaíba", não sendo considerado parte da vida cotidiana do município.", relata o publicitário.
A página no facebook nasceu há 12 anos com objetivo de divulgar o documentário para própria comunidade e, até agora, com mais de 6 mil seguidores, é alimentada com os registros históricos da comunidade.
Os conteúdos tornou-se interativos que relembram, por exemplo, como eram os projetos habitacionais do governo federal, os primeiros vendedores do bairros, os antigos estabelecimentos, os ensaios das bandas marciais das escolas para o desfile de 7 de setembro e lendas do lobisomem da BR, a Maria Degolada do Aglae, a noiva da figueira e a noiva dos pinheiros.
"Tudo tem uma memória afetiva. E não são acontecimentos e locais que somente eu, indivíduo, vivia isoladamente. São coisas que estão na cabeça de todo mundo. E no momento que trouxemos esses tipos de recordações criamos a ideia de valor que não existia antes. Eu acho que o que mais me motiva nesse trabalho é de criar valor e pertencimento daqueles lugares bons que deixaram sua história. Trazer tudo isto é entender que todo mundo faz parte de uma comunidade, que a gente tinha as vidas muito parecidas e o que mudava era somente as nossas famílias", conclui o publicitário.
A família Boeira

Em 1983, um ano após a inauguração do então presidente Figueiredo, o pedreiro Urano Boeira e sua esposa deixaram sua singela casa na Vila Nova para viver em uma das residências habitacionais que ajudou a construir desde o década de 70. O casal que recentemente tinha vindo do interior de Tapes, distância de 84km de Guaiba, comprou a residência para morar com seus seis filhos em compras parceladas e posteriormente quitou em negociação.
A casa nesse tempo passou por muitas reformas, ainda mais com a contrução de um segundo piso para abrigar a família que foi crescendo: os filhos Jane, Janice, Jayme, Gilson, Janete e José, netos e bisnetos que até hoje vivem na comunidade da zona norte.
Jane recorda o tempo que tudo era de chão batido, residências ainda não tinham água e iluminação e os ônibus somente circulavam nas margens da BR-16. Não tinha lotérica, não tinha supermercados, farmácias e muito menos postos de gasolina.
"Eu vim primeiro na frente para capinar os pátios. Era somente as casas e os capins. Depois começou a chegar meus irmãos e daqui não saímos mais. Faz quase 40 anos, desde lá estamos aqui e foi progredindo bastante", diz ela.
Seu Urano, como era conhecido, faleceu em 2011 e deixou uma herança para os seis filhos que posteriormente compraram outras residências próximo desta casa, também na Cohab.
O beco da Adriana

O único beco hoje que divide o Cohab e Santa Rita, que na época chamava Jardim Santa Rita, é entre a rua 42 e a travessa Natal. Na esquina em quase 20 anos tinha o minimercado e açougue Rodrigues, da Adriana Ghedini, que vive até hoje lá e relembra cada momento da história do estabelecimento que era muito conhecido pelos moradores.
Fez sucesso enquanto durou. Tinham sorteios de brindes, de aparelhos de som e de até televisão que eram divulgados através de panfletos que eram produzidos pela gráfica ao lado. Adriana admite que o maior erro era de vender muito fiado:
"Eu fechei as portas com 500 clientes me devendo. Depois comecei a trabalhar em Porto Alegre durante dez anos e voltava para cá somente para dormir. Nesse tempo a gente conheceu muita gente, pessoas boas e pessoas ruins, muita gente honesta. Muita gente me paga até hoje, 15 anos depois".
O beco também rendeu muitas histórias. Adriana conta que na época, meados dos anos 90, a vizinha queria fechar porque nos fundos da sua residência tinha uma montanha de lixo. "Era muita briga, porque nós precisávamos que os clientes passassem pelo beco para comprar de mim. Tanto que quando eu construí o segundo andar construí dentro do meu terreno porque, caso fechasse o beco, eu teria que abrir meu pátio para as pessoas passarem", conta.
Até hoje o local ainda é um atalho de acessos entre as duas ruas para os pedestres passarem. Hoje está melhor. O beco coleciona em sua história diversas ocorrências de assassinatos, uso de drogas e sexo em ar livre.
A vizinha Helena Costa da Silva, de 52 anos, que começou morar na casa em 1984, revela que naquele tempo havia outros becos na região e que em um determinado ano todos os outros foram fechados, menos o dela. "Quando eu tive a oportunidade de fechar com todo mundo, deixei aberto. E quando fui tentar fechar a vizinha [Adriana] não deixou", conta ela [dando risada].
Ela também lembra que havia muitas lugares e vizinhos bons nesta comunidade. "A única coisa que não gostava era de comer pó, devido as estradas de chão. Mas nós éramos adolescentes. Era legal. A Cohab não deixa de mim, a Cohab era família. Nos tempos atrás todos moradores eram família, amigos, todos unidos, fechavam as ruas, tinha as festas. Todo mundo se respeitava. Eu queria voltar para aquela Cohab de antigamente".
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