A escola estadual Frederico Link, no Centro, enfrenta um novo capítulo na sua história de 61 anos dedicados à educação. Diretores, professores, funcionários, pais e até estudantes buscam agora que a instituição retome os ensinos do 1º ao 5º ano, turmas que foram fechadas ano após ano devido o baixo número de matriculados.
Em dez anos, o número de crianças e adolescentes caiu de 308 para 186, que representa uma queda de 39,6%. E as turmas diminuíram pela metade: enquanto em 2013 eram 17 turmas do 1º ao 9º ano, em 2022 apenas oito estão sendo oferecidas do 6º ao 9º ano e da Educação de Jovens e Adultos (EJA) em apenas dois turnos (tarde e noite, sem atividades pela manhã).

A professora Cláudia Figueiró de Souza assumiu a direção da escola vinda de outra instituição do Estado há pouco mais de um ano na missão do Link retomar aos braços da comunidade que conquistou desde o início da década de 60, a maioria moradores próximos da Prefeitura Municipal e da Vila Nova. A escola ainda foi pintada, a frente revitalizada e os espaços de convivência estão de cara nova para receber novos estudantes.
- Queremos recuperar esse espaço protagonistas de educação em Guaíba durante muitos anos. São 61 anos que não podem serem jogados na lata do lixo por questões políticas e até mesmo de municipalização. Não queremos ver nossas turmas fechadas. E a gente fica aqui com a comunidade querendo participar e reerguer essa escola - expressa a diretora.
A instituição da cor verde e branca estava em ritmo crescente no ano passado, até comemorou quando chegou novamente na marca de 200 alunos e ainda conseguiu colocar mais turmas na EJA, mas agora ela enfrente outra barreira que é conseguir reativar os anos iniciais. O problema: a Secretaria Estadual de Educação argumenta que não há demanda suficiente para abertura de mais turmas e que os anos iniciais são de responsabilidade, agora, da rede municipal.
64 famílias procuraram a escola na busca de matrículas do 1º ao 5º ano entre janeiro e fevereiro e 38 permanecem aguardando solução do Estado para abrirem essas turmas no início do ano letivo que inicia no próximo dia 21.
- Se divulgarmos aqui em nossa comunidade que temos matrículas aqui vai virar um fervo. Não vamos ter essas crianças se não tiverem turmas, e propomos as melhores alternativas possíveis - diz a Claúdia.
Otávio Rodrigues (foto), de sete anos, é morador em uma casa simples bem próximo do Link mas somente consegue vaga para o segundo ano do ensino fundamental na São Francisco de Assis, na Moradas da Colina. Outros meninos e meninas também passam pela mesma dificuldade, que é a forma de locomoção para escola Inácio de Quadros, no bairro Coronel Nassuca, e até na Amadeu Bolognesi, também na Colina. Eles relatam que devido a longa distância as alternativas de ida e volta são o transporte escolar, o ônibus, o Uber, o taxi ou até mesmo de a pé.
- Minha filha está desesperada porque não tem condições para pagar transporte escolar para o Otávio. Moramos a duas quadras da escola e meu irmão mora na frente enfrentando a mesma dificuldade com seu filho no quarto ano. A escola é nossa, queremos somente o direito de nossos filhos e netos ocuparem essas salas que estão vazias - diz a técnica de nutrição e avó de Otávio, Vivian Ribeiro.
Ela ainda destaca que tentou vagas nas outras escolas mais próximas, mas que diretores e professores alegam que não há matrículas abertas. As turmas estão lotadas.

"A escola é nossa, queremos somente o direito de nossos filhos e netos ocuparem essas salas que estão vazias"
Técnica de nutrição e avó de Otávio, Vivian Ribeiro.
O que diz a Coordenaria Regional de Educação
A coordenadora Claudete Oliveira também argumenta que os anos iniciais são de responsabilidade das secretarias municipais de Educação, que a maioria das escolas estaduais de Guaíba não há mais oferecimento de vagas para essas turmas. Ou seja, os municípios ficam com a responsabilidade da educação infantil e anos iniciais e o Estado com a responsabilidade dos anos finais e o ensino médio para dar mais ou menos uma equilibrada nos trabalhos do serviço público.
Ela também destaca que a CRE ainda não recebeu informações desse número de 64 estudantes com pedido de matrícula na escola Frederico Link.
- Precisamos da demanda, se nós tivermos essa demanda de fato e comprovada podemos reforçar essa solicitação para Secretaria Estadual de Educação. A liberação de turmas não é nós que fizemos, é a Secretaria Estadual de Educação mediante a demanda de cada comunidade. Não podemos abrir turmas com quatro ou cinco alunos porque o município tem condições de absorver essa quantidade. E não é simplesmente abrir uma turma, é tudo que implica nessa abertura, como aumento de funcionários, professores, merenda escolar, merendeira e em caso de estudante com necessidade especiais um monitor - diz.
A coordenadora ainda destaca que a Secretaria Municipal de Educação não informou que não há vagas em escolas, como na Inácio de Quadros, e que caso não haja mesmo essas vagas a coordenadoria deve providenciar as melhores alternativas para o atendimento desses estudantes ainda não matriculados.
- Entendo perfeitamente a situação da escola, é legítimo trabalhar por isto e bato palma, é a identificação da comunidade com a escola. Mas a frente disso temos critérios e políticas de governo que infelizmente não estão na mão da coordenadoria para resolver - conclui.
Há e não há vagas no Inácio
A direção da escola Inácio de Quadros, na Coronel Nassuca, disse que há turmas de anos inicias ainda com vagas abertas e outras não.
Itororó municipalizado
Cresce as tentativas para que escola estadual Itororó, no Ermo, passe para fase de responsabilidade do município para atender as crianças de anos iniciais e anos finais. A vice-prefeita e secretária de Educação Claudinha Jardim (DEM) esteve em reunião com a coordenadora Claudete Oliveira para discutir esse tema na terça-feira (8).

"Entendo perfeitamente a situação da escola, é legítimo trabalhar por isto e bato palma, é a identificação da comunidade com a escola. Mas a frente disso temos critérios e políticas de governo que infelizmente não estão na mão da coordenadoria para resolver"
Coordenadora regional de Educação, Claudete Oliveira.
Comentários: