Caça às Bruxas
Era uma noite fria de outono, e a cidade, envolta em neblina, parecia sussurrar segredos obscuros. As ruas, geralmente movimentadas, estavam desertas, como se os habitantes tivessem recebido um convite para se esconder. Na calada da noite, uma lufada de vento cortou os ângulos de algumas esquinas, trazendo com ela o perfume da morte, daquele tipo que lembra histórias e lendas antigas. Era uma invocação à caça, mas não de bruxas. Não mais.
As bruxas de hoje não usam chapéus pontudos nem se reúnem em círculos sob a luz da lua cheia. Elas são mães, filhas, irmãs, amigas. Mulheres que andam pelas ruas de cabeça erguida, carregando não só seus sonhos, mas também o peso de um mundo que, em várias frentes, decidiu que elas não deveriam existir. O feminicídio, enraizado nas sociedades como um monstro de mil cabeças, se revela em sorrisos disfarçados, em olhares enviesados e, por vezes, em silêncios ensurdecedores.
Enquanto a história avançava, a cidade parecia ignorar o que realmente estava em jogo. O olhar da sociedade, concentrado em bruxas do passado, não percebia que a caça ocorria a portas fechadas, em lares que deveriam ser seguros, em relacionamentos que prometiam amor, mas entregavam dor. E, assim, as mulheres tornaram-se alvos na torcida de um monstro invisível, vítima de uma cultura que frequentemente as silencia, que as julga e, por vezes, as condena.
Numa esquina esquecida, onde a luz mal penetrava, Silvia caminhava com pressa, o coração acelerado, uma sensação de perigo constante a acompanhava. A jornalista sabia da realidade ao seu redor. Não era uma mera estatística, mas uma portadora de histórias. Ela testemunhou mulheres que deixaram seus lares, encontrando eco em histórias de dor que se repetiam, como um ciclo vicioso. Cada relato uma brasa acesa, um grito preso na garganta que não encontrava ouvidos dispostos a escutá-lo.
As reportagens de Silvia escandalizavam algumas pessoas, mas muitas apenas viravam as costas, convencidas de que o problema não era o delas. Conversas nos cafés tornaram-se outros mundos, onde a tragédia parecia distante, até que a tragédia se tornasse realidade, uma chamada que não se pode ignorar. Uma irmã, uma amiga, uma conhecida. O feminicídio não escolhe raças ou classes; ele se infiltra como sombra, prestes a engolir quem cruzar seu caminho.
No entanto, na luta por justiça, surgiram vozes. Mulheres, jovens e velhas, se uniram sob a bandeira da resistência. Elas começaram a ocupar as ruas, a demandar segurança, a exigir espaços que lhe eram negados. E em cada marcha, cada grito, cada laço de cor vibrante, estavam decididas a transformar a caçada em liberdade. O que antes era um espectro do terror agora se tornava um exército de esperança, organizado e determinado a não desvincular as mulheres de sua humanidade.
Caçar bruxas não é uma luta contra feitiçarias; é um chamado à ação contra o desprezo à vida feminina. O feminicídio é lembrete sombrio de uma história que precisa ser reescrita. O combate não é mais às bruxas de conto de fadas, mas a um tipo de violência sofisticada que perpetua um ciclo de dor. Ao olhar para as páginas da história, somos chamados a reconhecer que cada mulher que não mais habitava este mundo era um grito silenciado.
A neblina começa a dissipar, mas a batalha está longe de acabar. Que a luz que vem se siga pelo caminho da educação, da empatia e do respeito. Que a caçada não seja mais uma perseguição, mas uma busca por justiça e igualdade. Pois a verdadeira bruxaria está na transformação de dor em força, na união de vozes e na determinação feroz de que nunca mais as folhas das árvores sejam cobertas por flores partidas.
Vera Salbego
Escritora/ Poetisa
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