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Segunda-feira, 11 de Maio de 2026

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A chibata diante da justiça

Entre privilégios e violência: o retrato da elite escravagista

A chibata diante da justiça
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O caso da empresária do Piauí, acusada de torturar uma empregada doméstica grávida e depois ser acobertada por um policial militar próximo dela, causa revolta porque ultrapassa qualquer limite de humanidade. Mas o episódio também revela algo muito maior: a permanência de uma lógica social em que parte da elite ainda acredita ocupar um lugar superior na sociedade.

Quando uma trabalhadora grávida é humilhada torturada dentro de uma relação de trabalho, não estamos diante apenas de uma agressão física. Existe ali um sentimento histórico de posse e superioridade. Como se a empregada não fosse uma cidadã com direitos, dignidade e sonhos, mas alguém que deveria apenas apanhar calada.

E essa violência não começa no tapa.

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Ela começa quando chamam pobre de "preguiçoso", quando atacam políticas sociais, quando ridicularizam cotas e quando se incomodam ao ver filhos da periferia ocupando espaços antes reservados apenas aos mais ricos.

Nesse cenário surge o discurso da meritocracia, frequentemente usado para mascarar desigualdades profundas. Porque não existe mérito em disputar uma corrida largando quilômetros atrás. Enquanto alguns nascem cercados de educação de qualidade, segurança, patrimônio e oportunidades, milhões crescem enfrentando fome, abandono e exclusão. Depois, tentam convencer o pobre de que sua dificuldade é apenas falta de esforço.

Isso não é meritocracia. É perpetuação da desigualdade.

O papel do PM acusado de proteger a agressora também simboliza algo maior: a sensação de que o Estado muitas vezes age de forma diferente dependendo da classe social envolvida. Quando o acusado é pobre, a punição costuma ser rápida e violenta. Quando existe dinheiro e influência, surgem proteções, cautela e privilégios.

A hipocrisia aparece inclusive no discurso do “bandido bom é bandido morto”, que quase sempre encontra endereço certo: o corpo preto, pobre e periférico. Para esses, parte da sociedade pede violência sem julgamento. Mas quando o acusado pertence à elite, os direitos humanos passam a ser tratados como fundamentais. A seletividade escancara a desfaçatez de quem não combate apenas o crime, mas escolhe quais pessoas merecem ser vistas como criminosas.

O Brasil ainda carrega marcas profundas de uma sociedade construída sobre desigualdade. O fato de uma trabalhadora grávida sendo violentada dentro da casa de uma pessoa rica faz o país revisitar fantasmas históricos que nunca desapareceram completamente.

A chibata mudou de forma ao longo do tempo. Hoje ela pode surgir na humilhação, na exclusão, na fome, na violência física ou na negação de direitos. Mas continua atingindo quase sempre os mesmos corpos: os corpos pobres e invisibilizados.

Mas o que nos dá um pouquinho de esperança é o fato desta mesma criminosa confessa, ter sido algemada e levada a justiça, algo impensável no passado, mas que no presente é um claro recado: de que a sociedade não tolerará que as relações de trabalho reproduzam um regime que nos transporte ao flagelo social da escravidão!

Porque toda vez que a violência da casa-grande encontra o corpo vulnerável do trabalhador, o Brasil revive silenciosamente uma ferida que nunca cicatrizou por completo.

FONTE/CRÉDITOS: Daniel Ferreira Lima
Comentários:
Daniel Ferreira Lima

Publicado por:

Daniel Ferreira Lima

Casado com Fabiane, pai do Cauã, cristão e inquieto com as injustiças!

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