O litoral catarinense é frequentemente descrito como cartão-postal. Águas claras, falésias, mata preservada e praias que atraem turistas de todo o país compõem a imagem de um território associado ao privilégio e à contemplação. A Praia Brava, em especial, carrega esse imaginário de beleza quase intacta. Mas foi nesse cenário que se revelou uma de suas faces mais tristes: a da desumanização.
Orelha, cão comunitário conhecido por moradores e comerciantes da região, fazia parte da paisagem cotidiana tanto quanto a areia e o mar. Não pertencia a ninguém e, justamente por isso, pertencia a todos. Sua presença silenciosa representava um pacto informal de cuidado coletivo. Um pacto que foi brutalmente rompido.
A violência praticada contra Orelha não foi um ato impulsivo nem resultado de medo ou defesa. Foi consciente, prolongada e cruel. Caracteriza tortura, conforme a legislação brasileira, e expõe uma face incômoda da sociedade: a de que a brutalidade não está restrita à marginalização ou à ausência de recursos, mas pode nascer em ambientes de conforto e privilégio.
O fato de os agressores serem jovens de classe média desmonta explicações simplistas e obriga a um debate mais profundo. Educação formal e acesso a bens não garantem valores éticos. A crueldade contra um animal indefeso revela falhas na formação moral e na responsabilização social.
Esse padrão não é inédito. A história recente do país registra episódios em que a violência partiu de jovens com acesso à educação, informação e conforto. Em 1997, em Brasília, um homem em situação de rua foi queimado vivo enquanto dormia. O cenário era diferente, mas a lógica era a mesma: a desumanização do vulnerável, praticada por quem se sentia protegido pela própria condição social.
Assim como aquele homem, Orelha não tinha meios de defesa nem voz para denunciar. Ambos foram alvos fáceis em contextos onde a desigualdade de poder se impôs de forma absoluta. O que une esses crimes não é apenas a crueldade, mas o senso de impunidade que costuma acompanhar determinados estratos sociais — a ideia tácita de que tudo pode ser relativizado, amenizado ou esquecido.
O litoral segue belo. O mar continua avançando e recuando, indiferente à barbárie humana. Mas a pergunta que permanece é incômoda: que valor tem uma paisagem exuberante quando a vida, humana ou animal, pode ser tratada com tamanha banalidade?
Desculpe, Orelha. Desculpe por termos falhado em proteger o que era frágil em meio a tanta beleza. Que a sua história force o olhar para além do cartão-postal e nos obrigue a encarar uma dura realidade dos verdadeiras animais irracionais que somos...
Comentários: