Há um tempo atrás - meados dos anos 2010 - alguns gêneros foram febre nas discussões dos amantes de literatura. De criaturas sobrenaturais a tramas que passam em ambientes distópicos, os livros foram se adaptando conforme as tendências e hoje o que temos é um reflexo daquilo que foi pauta entre os bookstans.
Essas subdivisões de estilos de narrativa e motes de uma história também ficaram conhecidas como “tropes” - que nada mais é do que “tropos”, em inglês. Os tropos são figuras de linguagem ou recursos narrativos utilizados pelos autores para conduzir as tramas seguindo uma característica compartilhada em comum.
Como os enemies to lovers, por exemplo.
Conhecida por investir na afetividade de um casal que a princípio não se gosta, essa categoria é um tropo utilizado até hoje e que ainda faz muito sucesso. Porém, como mencionamos anteriormente, não é novidade, e lá na virada da década de 2000 para 2010 já dava as suas caras.
O enemies to lovers chegou aliado a um estilo de romance que, naquele período, ficou conhecido como “chick-lit” - termo que hoje não é mais utilizado por ser pejorativo às mulheres. Era um subgênero responsável por abordar questões relacionadas ao retrato da mulher contemporânea. E não era nada feminista.
Outros tropos também eram premissa dos chick-lits, como friends to lovers (quando um casal de amigos se apaixona), meet cute (amor à primeira vista, um clássico que percorre linguagens narrativas além da literatura), fake dating (uma dupla que se apaixona enquanto finge estar em um relacionamento em prol de um objetivo), entre muitos outros.
Um clássico é o “sick-lit”. Tratando de temas mais sensíveis, esse estilo é caracterizado por colocar o protagonista ou seu par tendo alguma doença, a fim de conduzir a narrativa com problemas mais realistas, e com o intuito de emocionar quem está lendo. A culpa é das estrelas, de John Green, talvez seja o exemplo mais evidente da categoria: dois jovens que lutam contra o câncer se apaixonam. Uma história fadada à ruína - poucos e ousados eram os autores que investiam nessas tramas com um final feliz.
Mas não é só de romance que a literatura sobrevive.
O sobrenatural também foi muito explorado nas obras do fim da década passada. Afinal, quem não se lembra do sucesso de Crepúsculo?
Muitos autores embarcaram no sucesso da saga dos vampiros e surgiram, assim, várias histórias sobre estes e outros seres fantasiosos. Anjos (vide as séries Fallen e Hush, Hush), sereias (a trilogia Sereia, de Tricia Rayburn), espíritos e fantasmas (as sagas Os Imortais e A Mediadora) são alguns exemplos.
Ainda, obras com uma carga política mais densa tiveram êxito à época, principalmente entre os adolescentes. Distopias como Jogos Vorazes, Divergente, Starters e Feios alcançaram um público fiel. Até mesmo histórias de espionagem tiveram o seu momento, como a série Sociedade Secreta, de Diana Peterfreund.
E o que tudo isso tem a ver com a literatura atual?
Tudo.
Além de introduzir a literatura à vida de inúmeros jovens, muitos desses subgêneros foram responsáveis por formar uma geração de leitores. Leitores que, hoje em dia, provavelmente não leiam mais esses tipos de obras, mas que trocam os chick-lits por livros que exploram o empoderamento feminino.
Que substituíram sick-lits por histórias com temas mais sensíveis, que retratam abusos familiares, a exclusão social ou a morte. Que optaram por deixar de lado os vampiros românticos de Stephenie Meyer e buscaram pela crua narrativa de Anne Rice, com personagens ambíguas e guiadas pelo instinto.
São essas pessoas que leram as distopias de 2010 e que foram atrás de quem ajudou a construir o subgênero. Anthony Burgess, Aldous Huxley, George Orwell, Margaret Atwood… Provavelmente estão nas estantes dos amantes de Jogos Vorazes.
E isso é o mais legal da evolução como leitor: descobrir novos mundos das mais variadas maneiras.
Falamos de literatura e cinema em nosso podcast semanal, o Clube da (Não) Cultura. Ouça em qualquer plataforma de áudio, disponível toda terça-feira - clique aqui.
Nos acompanhe: somos @clubedanaocultura no Instagram e no TikTok.
Comentários: