Com 54 anos de história, a escola de samba Império Serrano contará a história de Guaíba e de sua comunidade no carnaval de 2026. A diretoria da agremiação anunciou o tema-enredo da próxima edição do carnaval na noite de sábado (28), na quadra da escola, sobre o bairro mais antigo e que concentra a maior população negra da cidade.
"Eu sempre pensei que o Império podia trabalhar e falar sobre nós, mas nunca pensei que isso pudesse se tornar realidade. Hoje é um dia de pura emoção", disse, emocionada, a integrante Cristiane Machado.
O título é: "NO IMPÉRIO É TUDO NEGO! GUAÍBA, 100 ANOS DE RESISTÊNCIA: DO MEU MORRO, DO MEU ERMO, A MINHA PAIXÃO!". "No Império é tudo nego" surge a partir de um episódio sofrido pela comunidade: um ato de racismo recreativo veiculado nas redes sociais durante o ciclo carnavalesco de 2025. Para o historiador Ricardo Cruz, essa manifestação de preconceito, embora disfarçada de brincadeira, gerou dor e indignação, mas também mobilizou a comunidade a transformar essa ofensa em uma potente afirmação de identidade, orgulho e resistência negra.
"Estamos lidando com um racismo estrutural, que é o racismo recreativo. Mas isso já não cabe mais. A nossa forma é garantir que esse episódio não seja esquecido. Nós trazemos essa frase para marcar, sendo um motor de resistência e uma construção de identidade. É uma ideia de mostrar o orgulho de quem somos, por isso trazemos esse enredo sobre a paixão que temos por nossa escola, por nossa comunidade, que é o que nos faz colocar o nosso carnaval na avenida", disse.
A escola abordará a história do Matadouro São Geraldo, surgido por ali em 1927, que representou o sustento de diversos moradores da comunidade e de famílias que se reuniam próximo às antigas ruas dos Escravos e da Rapadura — hoje, ruas Avelino Py e Breno Guimarães.
"Nós vamos mostrar a história de Guaíba olhando aqui para o nosso bairro, que tem um povo que luta, que trabalha, que faz festa e que também movimenta a nossa economia. Então vamos olhar Guaíba através de outra lente", completou.
O presidente Edson Garcia destacou que será o primeiro carnaval sem o carnavalesco Alvino Machado, de Porto Alegre, que dedicou cerca de 40 anos desenhando e fazendo os desfiles do Império. "É isso. Tivemos, por 40 anos, ele desenhando e fazendo o nosso carnaval. Mas acabou. Nós temos que dar as mãos e nos reunir, porque esse cara experiente não está mais ao nosso lado. Então, somos nós que temos que montar nosso carnaval e colocá-lo na rua", destacou.
Para ele, esse enredo vai doer, mexer em feridas históricas e algumas portas devem se fechar, mas mostrará a força de um bairro que historicamente sofre discriminação.
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