O acidente do menino Josué Gross da Silva, de 10 anos, que morreu atropelado enquanto andava de bicicleta na BR-116, entrou para as estatísticas de acidentes de trânsito em Guaíba. A cidade teve um aumento expressivo no número de mortes no trânsito nos últimos 12 anos, segundo dados do setor de estatística do DETRAN/RS. O levantamento revela que, entre 2013 e 2024, a cidade registrou 68 acidentes fatais na BR-116 e 77 em vias municipais. Apenas em 2024, 15 pessoas perderam a vida, que representa um aumento de 25% em comparação ao ano anterior.
A maioria dos acidentes ocorreram nas principais avenidas de Guaíba: Adão Foques (11,5%), Nestor de Moura Jardim (9%), estrada Santa Maria (6,4%) e na Castelo Branco (6,4%). Houve ainda ocorrências nas avenidas João Pessoa, Ismael Chaves Barcellos, Manuel Francisco das Neves, José Montaury, Nei Brito e na Vinte de Setembro. O especialista em Gestão e Planejamento em Trânsito, Fernando Maganha, avalia que o crescimento de acidentes dentro da cidade pode estar relacionado à adaptação dos motoristas às novas infraestruturas e à intensificação da circulação de veículos, acompanhada por um crescimento da frota.
As enchentes ocorridas em 2024 tiveram um impacto significativo na mobilidade urbana. Além dos danos materiais e estruturais, houve um aumento repentino da circulação de veículos e pedestres devido à migração de cerca de 10 a 15 mil pessoas de Eldorado do Sul para o município. Em 2007, a frota era de 28.259 veículos, enquanto em 2024, esse número saltou para 58.844, representando um crescimento de aproximadamente 108% em 17 anos, com um aumento médio anual de 1.800 veículos. "Esse aumento significativo impacta diretamente a segurança viária, pois há maior circulação e disputa por espaço nas vias municipais, elevando o risco de colisões e atropelamentos", analisa Maganha.
A predominância de automóveis e motocicletas no município reforça sua maior exposição ao risco de acidentes, mas a taxa de letalidade entre os diferentes tipos de veículos varia significativamente. Os motociclistas são responsáveis pela maior parte das mortes no trânsito de Guaíba, representando 26,1% do total. Este número é superior ao de condutores (22,9%), pedestres (19,1%), passageiros (14,1%) e ciclistas (11,5%).
"A vulnerabilidade dos motociclistas é um fator crítico para a segurança viária, uma vez que, ao contrário dos ocupantes de automóveis, eles não contam com estruturas de proteção como airbags, cintos de segurança e carroceria. O impacto de uma colisão tende a ser direto sobre o corpo do condutor, aumentando consideravelmente as chances de lesões graves e óbitos. Esse cenário reforça a necessidade de políticas voltadas à redução da acidentalidade entre motociclistas, como fiscalização mais rigorosa, campanhas educativas e melhorias na infraestrutura viária que favoreçam esse tipo de modal", pontua.

Outro ponto relevante é a participação de caminhões e ônibus nos acidentes fatais. Embora sua presença na frota seja relativamente baixa, representando 3,3% e 1%, respectivamente, os caminhões estão envolvidos em 11,1% das fatalidades, indicando que, quando esses veículos se envolvem em colisões, a gravidade do impacto tende a ser maior. O tamanho, o peso e a dificuldade de frenagem dos caminhões e ônibus tornam esses veículos mais propensos a gerar acidentes com desfechos severos, especialmente em vias urbanas com fluxo compartilhado entre diferentes modais.
Os dados de acidentes fatais por dia da semana revela que os finais de semana concentram a maior quantidade de mortes, com sábado e domingo representando cerca de 44,4% das fatalidades. O domingo é o dia mais letal, com 30 registros de mortes, seguido pelo sábado com 28. Em contrapartida, segunda e sexta-feira apresentam os menores números (13 e 12, respectivamente). Esse padrão pode estar relacionado a diversos fatores, segundo Maganha, como aumento do consumo de álcool aos finais de semana, muitas vezes associado a atividades de lazer e entretenimento, e maior circulação de motociclistas e motoristas em deslocamentos de lazer e viagens curtas, que envolvem percursos rodoviários e urbanos.
Os gráficos de vítimas fatais por turno e faixa horária confirmam que a noite e a madrugada são os períodos de maior risco. O período entre 18h e 21h representa o maior pico de ocorrências, com até 15 acidentes fatais concentrados nesse intervalo de tempo. Esse dado está alinhado com o fato de que esse é um horário de grande fluxo viário, marcado pelo retorno de trabalhadores para casa e deslocamentos para atividades noturnas. Após as 21h, o número de acidentes diminui gradativamente, mas a madrugada ainda concentra 18,4% das fatalidades. Essa estatística reforça que, mesmo com um fluxo reduzido de veículos, os acidentes nesse período tendem a ser mais severos e letais. Entre as possíveis explicações para essa realidade, destacam-se:
• Excesso de velocidade devido à sensação de vias livres.
• Sonolência e fadiga dos motoristas, reduzindo a capacidade de reação.
• Maior incidência de motoristas sob efeito de álcool, especialmente nos finais de semana.
A análise das vítimas fatais por faixa etária e gênero revela que homens jovens entre 21 e 34 anos são os mais afetados, representando a maior parte das vítimas fatais no trânsito. Essa faixa etária corresponde ao grupo que mais utiliza motocicletas e veículos leves para deslocamentos frequentes, tanto profissionais quanto recreativos, e que se encontra mais exposto a horários de alto risco. Pesquisas indicam que jovens adultos apresentam maior propensão a assumir riscos no trânsito, o que pode incluir comportamentos como ultrapassagens indevidas, direção em alta velocidade, desrespeito à sinalização, uso do celular ao volante e consumo de álcool.
As mulheres aparecem em menor número no total de vítimas, com maior concentração a partir dos 45 anos. Isso pode estar relacionado ao fato de que mulheres costumam adotar uma direção mais cautelosa e menos agressiva, reduzindo o risco de envolvimento em acidentes graves. No entanto, o número expressivo de vítimas femininas em idades mais avançadas sugere que as mulheres podem estar mais vulneráveis como passageiras ou pedestres em locais de alta circulação.

Maganha analisa que os dados revela que os desafios enfrentados por Guaíba refletem uma tendência regional, Porto Alegre e outros municípios da Região Metropolitana também registraram aumento no número de mortes de motociclistas e pedestres. Para ele, o déficit de fiscalização é um problema crítico. Atualmente, há apenas 14 agentes de trânsito aptos a realizar fiscalizações, mas esse número deve cair para menos de 10 em breve, devido a aposentadorias e redistribuições de servidores. Considerando a frota atual e as recomendações da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), Guaíba deveria contar com um efetivo entre 30 e 60 agentes, evidenciando um déficit significativo que impacta diretamente a segurança viária.
"A ampliação da fiscalização, a implementação de programas de gestão de velocidade, o fortalecimento das campanhas educativas e a melhoria da infraestrutura viária são medidas fundamentais para mitigar os riscos. O município deve priorizar políticas que protejam os usuários mais vulneráveis, como motociclistas e pedestres, promovendo um trânsito mais seguro para toda a população", conclui.
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