Repórter Guaibense

Sexta-feira, 16 de Outubro de 2026

Colunas/Geral

Há dez anos ou mais

Um altar afetivo onde depositamos as histórias compartilhadas

Há dez anos ou mais
IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

Tenho alguns amigos

Que se sentem como eu e você

                                    Pública

Leia Também:

 

Chegamos ao bar e pedimos pro Arlindo a primeira cerveja. O rio do fim da tarde tem um aspecto de fogueira intensa, o sol batendo quase na horizontal em suas águas, ardendo em laranja e agravando a nossa sede. Logo o garçom aparece com a garrafa coberta por uma camada fina de gelo, uma película esbranquiçada que começa a nos aliviar o calor antes mesmo de derramarmos todo o seu conteúdo em nossos copos e brindarmos aquele encontro que ansiávamos desde o começo da semana.

Alguém acende o cigarro e resolve batucar na caixinha de fósforo um samba do Lupicínio, aparentemente não se lembra direito da letra, começa a soltar umas baforadas na cara de todos para que ajudemos a recordar, a mesa já parecendo uma espécie de chaminé invisível, uma nuvem a cobrindo, e a fumaça jogada em nossos rostos como se molestando uma memória coletiva.

“Em segunda pessoa, eu lembro de um trecho com verbo em segunda pessoa”, alguém arrisca, “Isso, exatamente, é bem gauchinho”, mais alguém colabora, e aos poucos recuperamos a letra em algum recanto da memória e cantamos todos juntos, como se o garçom ou algum outro cliente tivesse ativado a jukebox de nossas lembranças boêmias: “Voltaste, estás bem, estou contente, mas me encontraste muito diferente...”.

Já por essa época eu não acreditava em coincidências, tampouco em Deus, comungava de um ateísmo não praticante que geralmente me causava problemas graves quando me deparava com situações que remetiam a algum encantamento próprio, algo que brilha de luzes internas e sem vínculos declarados com a realidade. E isso acontecia com alguma regularidade.

Nesse caso, por exemplo, quando finalmente encerramos a canção do Lupicínio, cujo título é, veja só, Cadeira Vazia, justamente no momento do trecho final, “Eu não te darei carinho nem afeto / Mas pra te abrigar podes ocupar meu teto / Pra te alimentar, podes comer meu pão”, justo aí, nesse desfecho implacável, cheio daqueles ressentimentos mal resolvidos que habitam somente os grandes sambas e que nos doem mesmo quando não carregamos esses ressentimentos em nosso peito, chegou o amigo que faltava à mesa, a cadeira vazia que ainda nos pesava de ausência, o passo manso de sempre e os braços abertos, como todos nós, para dar conta saudades acumuladas da semana.

É claro que isso gerou uma comoção instantânea em todos, como se Lupicínio estivesse nos mandando algum recado desde o bar da eternidade onde deve estar sentado, em algum boteco onírico, rascunhando suas letras de dores e amores e molhando os lábios de alguma bebida forte. E a comoção nos conduziu a abraços apertados, olhares prolongados nos olhos dos outros, como se tentássemos capturar aquele instante na memória para levarmos conosco quando a noite terminasse.

A partir daí a nossa amizade despiu os constrangimentos de estar se mostrando em público e, como toda grande amizade, assumiu o ar exibicionista que entende merecer, uma espécie de altar afetivo onde vamos depositando as histórias compartilhadas por muitos anos como troféus e oferendas a esses laços que não cansamos de construir juntos. O bar transformado em nosso templo, o Arlindo uma espécie de sacerdote pagão, a mesa e as cadeiras envoltas em danças cuja lógica obedece, ao mesmo tempo, à passagem material e mundana de outros clientes, mas, especialmente, ao impalpável encantamento da síncope dos sambas.

Ocorre que as noites possuem essa curiosa e perversa característica de precisarem terminar, não havendo outra alternativa que a fatal despedida. Em algum momento, portanto, o Arlindo veio até a mesa e nos mostrou que a hora já havia passado, que era preciso cerrar as portas, que todas as outras mesas já estavam vazias, que amanhã era outro dia antecedendo outros tantos dias em que o bar estaria novamente aberto. E aí funciona quase como o contrário de uma epifania, o avesso de uma revelação, de repente a impossibilidade dos infinitos desaba sobre todos: aquela utopia de afeto fundada por algumas horas começa a encontrar seu fim.

A última cerveja foi então servida com a cerimônia que o momento pedia, os goles carregavam mais pesar do que euforia, esses sentimentos que costumam despertar quando nos deparamos com paisagens de alvoradas e crepúsculos e o mundo assume as cores definitivas de alguma extinção. 

Até que alguém finalmente falou a frase que tanto esperávamos: “Vamos lá pra casa”. Na verdade, falou mais do que esperávamos: “Eu tenho uns discos do Lupicínio”. Estávamos subitamente curados. A noite ganhara mais algumas horas. O encontro não acabava ali. A saideira podia assumir, então, a pressa de uma vida que renasce e que, assustada, atenta para a fragilidade dos laços que a sustentam.

Caminhamos abraçados pelo calçadão da Beira evocando em nossas vozes os sambas que logo mais ouviríamos nos vinis. E vitoriosos pela ilusão de imortalidade que naquele instante envolvia as nossas amizades.   

FONTE/CRÉDITOS: Elliott Blair/Unsplash
Comentários:
Guilherme Lessa Bica

Publicado por:

Guilherme Lessa Bica

Lorem Ipsum is simply dummy text of the printing and typesetting industry. Lorem Ipsum has been the industry's standard dummy text ever since the 1500s, when an unknown printer took a galley of type and scrambled it to make a type specimen book.

Saiba Mais

Veja também