Rever o mar
Reencontrar o mar é como rever um velho amigo. Os primeiros contatos exigem a quebra de um gelo inevitável, eu não sou mais o mesmo, ele também já vagou um bocado desde a última vez que nos vimos, mas a memória que construímos juntos logo nos envolve, nos faz enxurrada, reensina a ele como me abraçar, reensina a mim como aceitar este abraço.
Gosto de ficar um tempo olhando para aquele horizonte todo quando regresso à beira da praia. É como se olhando para aquela imensidão toda de água e céus, eu olhasse pras minhas próprias imensidões, as colocasse frente a frente, irmãs que habitam dois mundos, espelhos de infinitos opostos, e algum aprendizado sempre nasce disso.
Neste ano, foi um reencontro especial. Fazia muito tempo que não nos víamos. Estava ao lado da Vivian e de minha mãe, Ângela, pessoas que tanto amo. Olhei em volta, famílias reunidas, é verdade que em número reduzido e providencial distanciamento, mas ainda assim era possível observar uma alegria que certamente nascia de um lugar muito parecido da minha: rever o mar e estar junto de quem amamos, essas coisas simples e imensas, aparentemente ordinárias mas tão importantes, metáfora adequada para este 2022 que começou com a grande responsabilidade de guardar em si uma multidão de renascimentos.
Ironias celulares
Ando pela rua especulando contas sobre negacionistas. Eles estão a nossa volta, pode acreditar, às vezes muito mais perto do que pensamos. Vou cruzando com pessoas desconhecidas pelas ruas de Guaíba e me pergunto se esta tomou vacina, se aquela irá vacinar seu filho, se aquele outro acredita que as seringas utilizadas pelos trabalhadores da saúde realmente carregam dentro de si um chip que irá alterar o dna daqueles que receberam a imunização ou até mesmo instalar uma base de 5G dentro de si.
Penso isso andando pela São José, pela Sete, pela Vinte, cruzando com meus irmãos guaibenses, essas mesmas São José, Sete, Vinte sobre as quais ando há tantos anos, desde um tempo em que todos se vacinavam porque acreditavam na ciência, vacinavam seus filhos porque acreditavam na ciência e jamais contestavam, por exemplo, o fato de a terra ser redonda. O tempo passa, e parece que muitas coisas vão piorando.
Imagino que as células desses negacionistas, inclusive, devem gargalhar nas aglomerações corpóreas que promovem pelos órgãos que habitam, nas assembleias que realizam na superfície dos tecidos, nos encontros casuais que organizam pelo sangue em seu interminável circuito, enquanto lembram que tantas doenças foram impedidas de ingressar no sagrado território deste corpo que ajudam a manter justamente por conta das vacinas que agora o dono negacionsta rechaça.
É bem verdade que, quando a gargalhada da célula cessa, imagino, repousa um denso silêncio comumente associado aos piores lugares de sombra, melancolia e medo.
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