Vamos ingressando, poucos dias ali adiante, em mais um verão da pandemia, ainda que agora mais protegidos contra esse vírus que tirou a vida de tanta gente. As máscaras ainda escondem parte de nossos rostos, mas a coragem da imunização nos permite certas licenças de afeto: voltamos a entregar e a receber sorrisos sem fazê-lo distante alguns metros ou utilizando as telas virtuais – mesmo que esses sorrisos habitem reuniões pouco numerosas. Parecia que não ia passar nunca. Na verdade, ainda não passou completamente. Mas um sentimento de luz no fim do túnel invade nossos corações e nos autorizam novamente a ter esperança.
Lembro dos primeiros dias, quando uma ida cotidiana à venda do bairro se transformava em uma cena das mais aterradoras distopias pandêmicas: máscara pregada no rosto, o corpo esgueirando-se pelas ruas, afastando-se o possível de qualquer outra pessoa, a volta para a casa apressada e, assim que ingressava no primeiro cômodo, a operação imediata de retirar toda a roupa com que fora ao mercado, banhar compras e sacolas de álcool ou qualquer outra substância que higienizasse implacavelmente suas superfícies. Hoje sabemos que essa higienização não era realmente necessária. Mas certos hábitos talvez fiquem. Certas memórias se tatuam na gente, nos lembram, pelas suas sombras, sobre a fragilidade da vida.
Estamos reaprendendo a sorrir, a beijar, a abraçar. Todo um alfabeto tátil que enferrujamos nestes tantos meses de convívio mais restrito àqueles que moram conosco. Ainda ontem o medo nos fazia evitar os braços de nosso pais, aqueles que primeiro nos conduziram no mundo. Agora, a ciência nos autoriza a recuperar este gesto inaugural. E quando o fazemos, mesmo que ainda em desajeito pelo longo tempo afastados dele, é como se finalmente voltássemos para casa.
É bem verdade que aquela antiga casa, aquela existência anterior, se extinguiu. Ou pelo menos se comprovou falha, desigual, insuficiente. Temos diante de nós uma responsabilidade abraçada à condição de sobreviventes: buscar construir no nosso entorno mais imediato um lugar melhor para todos, não somente para as minorias historicamente privilegiadas.
Eu sei que a pandemia não veio para ensinar nada, uma tragédia dessa dimensão precisa ser assimilada da melhor forma possível, ser vivida em todo o seu luto, ser combatida da maneira mais ampla, um combate amparado naquilo que a ciência comprova, e, por fim, esperamos que em breve, restar como uma cicatriz dolorosa de nossa existência coletiva. Ainda assim, como seres humanos, temos uma vocação para o aprendizado, não sabemos viver sem ativá-lo. Transformamos em alguma pedagogia até mesmo o que tenta nos destruir, porque só assim conseguimos seguir. E é justamente essa equação que precisaremos resolver.
A parte ruim é que estamos longe de saber a resposta. No entanto, viver um dia de cada vez, estarmos atentos ao presente, aos outros que nos cercam, às fortalezas e injustiças que envolvem o lugar onde vivemos, refletirmos sobre o que mundo queremos e o que estamos fazendo de prático para construí-lo, tudo isso já seria um bom começo para ingressarmos em mais um verão da pandemia que logo, logo nos receberá.
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