Carrego uma angústia desde guri: uma espécie de revolta contra essa condição tão humana (e tão mundana) de que tudo o que está em curso, inevitavelmente, caminha para o fim. Não há uma descoberta tão incomum nisso, é verdade, mas essa afirmação diz sobre um modo de olhar pro mundo que me exige o aproveitamento total daquilo que observo, vejo, amo, sou, ao mesmo tempo associado a um lamento sobre o que poderia ter sido e não foi, não é, não será.
Não sei se me expresso claramente, não sei na verdade se é possível ser claro quando falo disso. Mas algumas situações, objetos, lugares que carrego na memória talvez expliquem melhor essa condição.
Um exemplo: as madrugadas ao lado dos amigos que amo, algum álbum consagrado da MPB soando ao fundo, nossa trilha sonora, e nós todos no entorno de uma mesa compartilhando afetos, temores, sonhos, esperanças. Em algum momento dessa cena, eu me distancio pelo pensamento, nos fotografo mentalmente e sinto a dor antecipada de que logo mais vamos nos separar, mais ainda, de que algum dia essa separação será definitiva.
Outro exemplo: quando um livro, um filme, uma canção me comovem na primeira leitura, assistência, audição. Algo é aberto dentro de mim, talvez não aberto, expandido, um lugar novo que eu desconhecia, como se uma ilha fosse agregada ao mapa ou um planeta surgisse em minha galáxia interna. Neste trajeto inaugural pelo livro, pelo filme, pela canção, ao mesmo tempo que o maravilhamento me explica melhor sobre o que é a vida, alarga essa ideia que tinha até então, uma melancolia anda ao lado, paralela, me anunciando que essa sensação jamais será recuperada, não lerás mais "Residência na Terra" de Neruda como da primeira vez, não verás mais "Into the wild" do Sean Penn como da primeira vez, não ouvirás mais "Clube da Esquina" e as vozes de Milton e Lô como da primeira vez. E aí é inevitável a inveja sobre todas as pessoas do mundo que ainda lerão, verão, ouvirão a eles todos pela primeira vez.
Por muito tempo essa angústia me travou mais do que me moveu. Por muito tempo ela foi motivo de mais lamentações do que de alegrias. Até que me dei conta de que ela é um implacável atestado de existência. Até que uma consciência mais apurada me mostrasse que estar vivo é também sentir ou temer essa falta prévia, essa sensação de que já nascemos de uma espécie de ruptura, da perda de um primeiro lar, e a nossa maneira de buscar caminhos de cura é construindo novas casas em livros, filmes, discos, lugares, pessoas, nos mudando e muitas vezes perdendo essas mesmas casas, mas cada vez mais e sempre refirmando essa vocação para ser um lar, estar em um lar. Raduan Nassar diz em seu icônico “Lavoura Arcaica” que “a gente está indo sempre pra casa”. É isso: seja ela uma casa de ontem, de hoje ou de amanhã.
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