No último dia 2 foi o Dia da Sobrecarga da Terra. Esse termo significa que, dos recursos produzidos pela Natureza para 2023, no início de agosto, a humanidade já gastou todos, mesmo faltando ainda cinco meses para o fim do ano. A data foi criada para conscientizar sobre o impacto da economia atual e do consumo sobre o meio ambiente e sua capacidade de restauração equilibrada.
Desde 2006, a ONG Global Footprint Network publica os dados calculados entre a pegada ecológica das atividades humanas e a capacidade da Terra de se regenerar e absorver nossa poluição.
A questão é que em 2023 para o Brasil, o "Dia da Sobrecarga da Terra" chegou cinco dias mais tarde em comparação com 2022, sendo essa a primeira vez em várias décadas - sem contar o período da pandemia - que um declínio foi observado.
Para quem se interessar como funciona o cálculo da Pegada Ecológica, a equação é uma média estimada a partir da quantidade de recursos ecológicos que a Terra pode gerar naturalmente em um ano, comparando-a com a demanda humana, podendo ser acessada em https://www.footprintnetwork.org/resources/footprint-calculator/
Em cada país, a data pode ser em dias diferentes, mas no geral, os países desenvolvidos e os grandes produtores de combustíveis fósseis são os que antecipam a data mais no calendário. Por exemplo, o Dia da Sobrecarga da Terra nos EUA foi 13 de março, na França foi 05 de maio, na China foi 02 de junho, no Brasil será em 12 de agosto, na Indonésia, em 02 de dezembro, no Equador, 06 de dezembro, na Jamaica, em 20 de dezembro.
Dos 189 países analisados pela Global Footprint Network, 51 estão localizados, em sua grande maioria, na África e na Ásia, não figuram neste triste ranking, mantendo-se a sua pegada ecológica por habitante inferior à biocapacidade global.
De acordo com Jean Rousselot da WWF/França, “a Terra agora vive em 'déficit ecológico’! Se quiséssemos respeitar os principais acordos internacionais, teríamos que adiar essa data em 19 dias todos os anos, durante os próximos sete anos, para atingir a meta de reduzir as emissões de gases de efeito estufa em 43% até 2030."
Para Jean-Louis Bergey, coordenador da prospectiva da Agência de Transição Ecológica (Ademe), “um dia a mais ou a menos é a mesma coisa em termos puramente matemáticos”. Com a guerra na Ucrânia e suas consequências na produção de cereais “sem dúvida houve um pouco menos de importação e, consequentemente, de consumo”.
Para calcular esta data fatídica, os especialistas comparam a pegada ecológica dos países com a biocapacidade do planeta, ou seja, a superfície disponível para produzir recursos e absorver os resíduos. A média mundial chegou então a 1,7 - o equivalente a quase dois planetas para cobrir o consumo atual da humanidade.
A pegada ecológica que engloba as emissões de gases de efeito estufa tem crescido continuamente ao longo de vários anos, enquanto a biocapacidade da Terra está diminuindo. O que vem pesando mais na balança são as emissões de gases de efeito estufa ligadas aos combustíveis fósseis e em seguida vêm a pesca e a agricultura.
Nos últimos cinco anos, a data do Dia da Sobrecarga estagnou. “É difícil determinar até que ponto esse fenômeno se deve à desaceleração econômica ou a esforços deliberados de descarbonização. De qualquer forma, a redução da sobrecarga é muito lenta”, insistem os especialistas da Global Footprint Network.
Para atingir a meta do IPCC de reduzir as emissões de carbono em 43% em todo o mundo até 2030 em comparação com 2010, o Dia da Sobrecarga teria que ser reduzido em 19 dias por ano nos próximos sete anos.
"O fato é que as populações dos países ricos consomem além de qualquer medida de sustentabilidade e os países em desenvolvimento, mesmo com um nível de consumo menor, possuem um tamanho de população que faz elevar o déficit ecológico", escreve José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE, em artigo publicado por EcoDebate de 23-11-2016.
Os “excessos persistentes” estão levando à consequências cada vez mais graves, como ondas de calor incomuns, incêndios florestais, secas e inundações, com o risco de comprometer a produção de alimentos, insiste Steven Tebbe, chefe da Global Footprint Network.
Em um comunicado, a organização ambiental WWF alertou para a ameaça que pesa sobre o futuro abastecimento de água doce que põe em risco a segurança alimentar: “A agricultura responde por 70% do uso de água doce no mundo”. Em resposta, se faz necessária a intensificação da transição da agricultura para a agroecologia, utilizando técnicas de cobertura do solo, agrofloresta, compostagem, etc.
Atualmente o Brasil tem a 5ª maior pegada ecológica total, mas se destaca principalmente por ter a maior biocapacidade do planeta e o maior superávit ambiental absoluto do mundo. Em 1961, o Brasil tinha uma população de cerca de 75 milhões de habitantes, uma pegada ecológica de 0,178 bilhão de gha e uma biocapacidade de 1,81 bilhão de gha. Portanto, o superávit ambiental absoluto era de 1,62 bilhão de gha. Nos últimos 60 anos, houve crescimento da população e da economia brasileira, com aumento da pegada ecológica e diminuição da biocapacidade total. Assim mesmo, o Brasil continua com o maior superávit ambiental entre todos os países da comunidade internacional. Em 2022, com uma população de cerca de 210 milhões de habitantes, o Brasil apresentou pegada ecológica de 0,549 bilhão de gha e uma biocapacidade de 1,76 bilhão de gha. Consequentemente, o superávit ambiental absoluto foi de 1,21 bilhão de gha e o superávit relativo de 221%.
Para garantir o equilíbrio ambiental e erradicar o déficit ecológico global há, pelo menos, cinco alternativas:
1) mudar o padrão de produção para investir em uma economia de baixo carbono, com maior eficiência energética e baixo impacto ambiental;
2) diminuir substancialmente o consumo, especialmente das parcelas mais ricas da população;
3) investir na restauração ecológica para aumentar as áreas verdes do planeta e recuperar a saúde dos ecossistemas;
4) Diminuir a velocidade atual do crescimento demográfico global e apoiar a transição para o decrescimento populacional no longo prazo;
5) colocar em pratica as quatro alternativas anteriores de maneira simultânea e integrada.
No ritmo atual, o mundo caminha na direção de uma tragédia ambiental, pois o crescimento da pegada ecológica está desestabilizando o clima do planeta e provocando a aceleração da 6ª extinção em massa das espécies, de forma que o ecocídio também é a estrada que leva ao suicídio humano e civilizacional. O desafio da sobrevivência e da sustentabilidade requer respostas complexas, soluções múltiplas e ações imediatas. Não há tempo a perder!
E você, já calculou a sua Pegada Ecológica?
Fontes:
Ambiente Legal. Disponível em: https://www.ambientelegal.com.br/oito-paises-consomem-toda-a-biocapacidade-do-planeta/ Acesso em 03/08/2023.
Calculadora de Pegada Ecológica. Disponível em: https://www.footprintnetwork.org/resources/footprint-calculator/ Acesso em 03/08/2023.
Clima Info. Disponível em: https://linktr.ee/climainfo Acesso em 03/08/2023.
Clima Info IPCC. Disponivel em: https://climainfo.org.br/ipcc/ Acesso em 03/08/2023.
Dan O’Neill, Rob Dietz e Nigel Jones. Enough is Enough, 2010. Dispnível em: https://neweconomics.org/uploads/files/0369000fddb0bb6226_36m6voh4u.pdf Acesso em 03/08/2023.
Ecoa UOL. Disponivel em: https://www.uol.com.br/ecoa/ultimas-noticias/2023/08/02/dia-da-sobrecarga-da-terra-humaninade-esgotou-todos-os-recursos-do-planeta.htm Acesso em 03/08/2023.
Instituto Humanitas Unisinos. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/185-noticias-2016/562664-o-mundo-teria-deficit-ambiental-mesmo-eliminando-os-paises-ricos Acesso em 03/08/2023.
Instituto Humanitas Unisinos. Disponível em: https://www.ihu.unisinos.br/631049-dia-da-sobrecarga-da-terra-consumimos-quase-dois-planetas Acesso em 03/08/2023.
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