Repórter Guaibense

Quinta-feira, 20 de Junho de 2024

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O programa previu cheias no Sul do país e acabou sendo engavetado em 2015

A realidade das mudanças do clima é um dos remédios incontornáveis contra o Negacionismo.

O programa previu cheias no Sul do país e acabou sendo engavetado em 2015
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O ano era 2013. O programa era algo como um embrião da política pública para a adaptação climática do país, chamava-se  "Brasil 2040", escrito por uma equipe multidisciplinar de técnicos, cientistas de diversas universidades e consultoria externa, na busca pela elaboração de estudos regionalizados sobre os efeitos das mudanças climáticas no Brasil e quais medidas poderiam ser tomadas para adaptar o país a essa nova realidade, custando, à época, R$ 3,5 milhões.

Ao todo, foram criados sete grupos de estudos com diferentes temas. Um deles, batizado de "Brasil 2040", no qual o nome se refere ao ano de 2040, um dos horizontes com os quais os estudiosos trabalhavam, prevendo o pior cenário climático para o país.

Os modelos matemáticos usados pelo estudo projetaram um cenário climático muito semelhante ao que se vê no Brasil quase 10 anos depois: escassez de chuvas na região Norte e chuvas acima do normal no Sul do país, necessidade imediata de mecanismos e sistemas de prevenção, restauração de mata nativa de biomas inteiros, despoluição de rios, entre outras medidas urgentes.

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O modelo ETA forçado pelo MIROC5 - modelos matemáticos usados para fazer as projeções de longo prazo - sinalizam aumento nas vazões (dos rios com efeitos de mais ou menos chuvas) no extremo sul do Brasil, superior a 10% em relação à média histórica entre 2011 e 2040 e superior a 30% entre 2071 e 2099, associado a reduções na região Nordeste e Centro-Oeste", diz um trecho dos estudos realizados pelo programa.

 Infelizmente, o programa foi abruptamente encerrado em 2015.

Apesar disso, os estudos do "Brasil 2040" foram incorporados ao compromisso assumido pelo governo brasileiro no Acordo de Paris, na COP em dezembro de 2015, e ao Plano Nacional de Adaptação para Mudança Climática (PNA), publicado em 2016. Especialistas afirmam que, não obstante o Brasil contar com o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima desde 2016, de fato, o documento nunca teria saído do papel.

Os técnicos da própria MetSul, ao ver suas projeções mais recentes, comparando com as do Brasil 2040 para a mesma época, ficaram assustados com tamanha  similaridade entre as informações.

"O programa trouxe informações importantes, mas que pouca gente deu atenção, como esses cenários em que o Sul teria a tendência de chuvas acima da média e o Norte e Nordeste tendo redução hídrica", diz a coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo, à BBC News Brasil. Ela também foi presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) entre 2016 e 2018.

Em termos de eventos climáticos, sejam a curto, médio ou longo prazo, os parâmetros do passado já não servem mais como referência para empresários, principalmente para aqueles afetados pelas tragédias que ainda assolam o estado do Rio Grande do Sul. E da mesma forma para governos - estadual e municipais, que seguem dizendo que as mudanças climáticas são algo para se pensar lá no futuro, que não apresentam riscos eminentes capazes de causar rupturas, pois insistem que não há muito a ser feito hoje, mesmo que a materialização do pior cenário em nossas cidades, na população afetada e na dignidade perdida ocorreu em poucas horas, gerando milhares de desabrigados, centenas de desaparecidos e mortos. Em frente a este cenário desolador é que se espera que talvez funcione como um grande despertador e motivador na busca de novos horizontes, sejam  tecnológicos, de investimentos, de socioassistencial e ambiental.

Tragédias humanas sempre comoveram e geraram correntes de solidariedade como testemunhadas atualmente, mas o que costuma mover a mola propulsora do mundo corporativo é o órgão que dói mais - o bolso. Ninguém irá admitir tal afirmação, porque é algo terrível de se dizer em voz alta diante da irreparável perda de vidas humanas, mas a verdade é que, quando acontece  tragédias pelo mundo afora, as pessoa respiraram aliviadas e pensam: “Dessa vez não foi comigo!”

Muitos Leitores e Eleitores me perguntam desde o dia 23 de abril de 2024 se as autoridades sabiam que, os ventos estavam soprando um pouco diferente, que os rios voadores vindos da Amazônia estavam bem carregados, que uma área de baixa pressão estava estacionada no mar, próxima à costa gaúcha, que uma área quente de alta pressão estava parada no centro-oeste e sudeste, que tudo isso era empurrado pelos efeitos do El Niño para o Rio Grande do Sul e por fim, se havia um prognóstico de tanta chuva para nosso estado, que o mundo iria desabar sobre todo o tipo de instalações, públicas ou privadas, causando perdas materiais e interrupção de atividades com as quais ninguém estava preparado para lidar.

A resposta correta é um redundante “SIM”! Metsul, INPE - Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, e historicamente IPH/UFRGS, assim como o IME - Instituto Militar do Exército, o ITA - Instituto Tecnológico da Aeronáutica, Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica do Lago Guaíba, Comitês das Bacias Afluentes do Lago Guaíba: CBH Rio dos Sinos,CBH Rio Gravataí, CBH Taquari, CBH Rio Jacuí, cientistas diversos e ambientalistas na região metropolitana de POrto Alegre/RS já apontavam esse cenário, através de estudos comparativos, recentes e até previsíveis a curto e médio prazo. 

De acordo com os dados da estação do Oitavo Distrito do Instituto Nacional de Meteorologia, foi a primeira vez que, em série histórica climática, no dado acumulado, há o registro de mais de 500mm na região metropolitana de Porto Alegre, ou seja a medição parcial de Jan-Mai/2024 = 513,6 mm, comparada com até então média histórica anual de 1942 = 405,5mm.

Nessas horas, um executivo de uma das empresas afetadas, deve estar refletindo sobre o fato de não existirem modelos matemáticos com maior precisão possível disponíveis para calcular o risco climático a que seu negócio esteja exposto. Ou seja, do que adianta olhar para o retrovisor, com dados estatísticos do passado, para lidar com um futuro incerto de eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes? O episódio de 2024 foi um alerta para que as empresas e sociedade civil, cobrem das gestões públicas para se mobilizem e atualizem sua política de gestão de riscos, correndo atrás de novos dados e tecnologias disponíveis.

Agora no Rio Grande do Sul, a tragédia foi, por assim dizer, distribuída de forma democrática: recaiu sobre milhares de famílias, sobre pequenos comércios de bairro e também sobre grandes empresas, interrompendo o ciclo dos negócios. Pessoas perderam entes queridos, animais de estimação e todos os seus bens materiais. E, ao mesmo tempo, toneladas de grãos, frutas, verduras se perderam, operações de frigoríficos foram paralisadas, assim como fábricas, aeroporto e rodovias e a logística estadual.

Mesmo setores que não foram fisicamente afetados, sofrem as consequências diretamente. A exemplo, os bancos que concederam linhas de crédito para pessoas, pequenos e grandes negócios e que ficarão inadimplentes – os bancos, aliás, de antemão já anunciaram suspensão de cobrança e carências generalizadas, não sem um custo financeiro, assim como as seguradoras, que enfrentam agora uma retirada em massa em suas carteiras em todo o Estado. Quem poderia prever tamanha concentração de riscos? Agora pense esses riscos de forma sistêmica. 

Nas esferas de governos, nas empresas e principalmente na Sociedade Civil, o foco inicial é lidar com o caos. A hora é de medidas de emergência para socorro e abrigo das vítimas. Depois virá o esforço hercúleo de reconstrução de cidades inteiras, incluindo casas e infraestrutura ou até de realocação de bairros e cidades inteiras, a um custo financeiro – emocional e afetivo para os atingidos – inimaginável. 

“Há soluções de curto prazo? Mas é claro.” Em 2023, o estudo “Os bons frutos da recuperação de florestas: do investimento aos benefícios” do Instituto Escolhas, calculou que o Rio Grande do Sul teria 1,16 milhão de hectares em áreas de preservação permanente e reserva legal que precisavam ser recuperadas em caráter de urgência. Desse total de áreas, 510 mil hectares estão nas margens dos rios.

A recuperação da vegetação nativa como uma oportunidade econômica que precisa fazer parte dos planos de reconstrução do estado. Nesse momento da economia do Rio Grande do Sul, o plantio de florestas nativas é uma perspectiva social, ambiental e econômica que deve ser abraçada, pois pode a recuperação da vegetação nativa  gerar cerca de 218.000 postos diretos de trabalho no estado.

O diretor-executivo Sérgio Leitão do Instituto Escolhas,  afirmou que no Brasil, o que provoca a emissão dos gases de efeito estufa, que é um dos responsáveis pela mudança climática, é exatamente o desmatamento e seu aumento em todo o país e na medida que se foi desmatando o estado do Rio Grande do Sul, esse ato deixou o Estado sem as defesas naturais. Em continuação, explicou que recuperar essa vegetação nativa é importantíssimo, inclusive porque a agricultura do Estado foi arrasada também. Que não só a lavoura que foi destruída, mas a camada que cobre o solo foi inteiramente retirada, logo o solo está desprotegido e em risco de desertificação, se não tratado.

A metodologia para a regeneração das áreas é sugerida de acordo com dados sobre os dois biomas do estado, o Pampa e a Mata Atlântica, levantados pelo Ministério do Meio Ambiente, através do Cadastro Ambiental Rural (CAR) de modo a remover, em torno de 287 milhões de toneladas de CO2 atmosférico, assim como, após crescidas as florestas, com cerca de 5 a 7 anos, podem servir de mais uma renda, quando utilizada com o consorciamento de culturas como frutas e criação de animais de pequeno corte.

Para o climatologista Carlos Nobre, que fez carreira no Inpe e participou do Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC) da Organização das Nações Unidas (ONU), "Esses eventos extremos vieram para ficar. Eles não vão diminuir. Ao contrário, eles irão aumentar. E os governos, infelizmente, não estão fazendo os investimentos necessários. Adaptação não é apenas dar o alerta de uma tragédia. É, também, remover permanentemente as pessoas das áreas sob risco. E isso demanda dinheiro", dito em entrevista à BBC News Brasil.

Adaptação exige recursos e não tem como imaginar que municípios já vulneráveis possam se endividar para fazer as obras para se prepararem para os efeitos das mudanças climáticas. O dinheiro tem que ser  a fundo perdido, ,as de forma a se conseguir fiscalizar de fato, porque o custo de reconstruir é muito maior que custo de prevenir.

Desejo profundamente e de agora em diante, para governantes, empresários e população, em especial aos Eleitores, que a tragédia sirva para apontar a urgência de regulação, planejamentos, investimentos e fiscalização de todas as atividades exercidas, na autoridade da ciência e novas tecnologias que funcionam muito bem na prevenção, na mitigação e na remediação, sejam para as emissões de gases de efeito-estufa, reúsos de águas, para adaptar as cidades e os negócios, reconstruir estruturas físicas, modernizar atendimentos médicos e a lista segue imensa aos efeitos que já estão anunciados por conta da elevação da temperatura global que já ocorreu. 

 

A Coluna Papo Ambiental é um oferecimento de:

 

 

 

REFERENCIAL:

-BRASIL 2040. Resumo Executivo. 2015. Agroicone.Disponível em: https://www.agroicone.com.br/$res/arquivos/pdf/160727143013_BRASIL-2040-Resumo-Executivo.pdf. Acesso em 24/05/2024.

- BBC News Brasil. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c90zxeqj342o. Acesso em: 25/05/2024.

-Capital Reset. Disponível em: https://capitalreset.uol.com.br/clima/opiniao-sera-a-tragedia-do-rio-grande-do-sul-um-despertador-para-as-empresas/?utm_campaign=09042024_-_seguros__artigo&utm_medium=email&utm_source=RD+Station. Acesso em 27/05/2024.

- Disponível em: https://metsul.com/porto-alegre-supera-500-mm-de-chuva-em-um-mes-pela-primeira-vez/. Acesso em: 27/05/2024.

- Disponível em: https://metsul.com/rio-grande-do-sul-cinco-boas-noticias-para-comecar-a-semana/.Acesso em: 27/05/2024.

-Portal UOL. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/05/10/cronologia-enchente-chuvas-rio-grande-do-sul-2024-tragedia-sem-precedente.htm. Acesso em: 26/05/2024.

-Portal UOL. Disponível em: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2024/05/08/antes-depois-porto-alegre.htm. Acesso em: 25/05/2024.

-RFI Brasil. Disponível em: https://www.rfi.fr/br/brasil/20240518-regenera%C3%A7%C3%A3o-da-vegeta%C3%A7%C3%A3o-nativa-traria-benef%C3%ADcios-econ%C3%B4micos-para-o-rio-grande-do-sul-defendem-especialistas. Acesso em: 25/05/2024.

-RFI França. Disponível em: https://www.rfi.fr/br/podcasts/planeta-verde/20240524-por-que-evid%C3%AAncias-da-mudan%C3%A7a-do-clima-como-enchentes-no-rs-n%C3%A3o-bastam-para-convencer-negacionistas. Acesso em: 25/05/2024.

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Aline Stolz

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