Março é o mês marcado pelo Dia Mundial da Água (22) e, com isso, aumenta-se ou deveria-se aumentar a preocupação e a discussão em torno de práticas sustentáveis para o uso racional e a preservação dos recursos hídricos, inclusive as relacionadas com tratamento e reutilização de água.
O Brasil é um dos poucos países do mundo onde ainda se usa água potável para a descarga sanitária, a lavagem de calçadas e carros e a rega de jardins. Apesar das sucessivas crises hídricas e mesmo com tantas campanhas de incentivo ao uso racional, a água tratada continua sendo desperdiçada deforma irresponsável,como se a água fosse um bem infinito e sempre disponível de forma potável. Santa Ilusão!
O tema “reúso de água” é datado desde a década de 1960, porém somente após os anos 2000 que o assunto teve maior relevância no meio científico. O aumento das publicações científicas pode ser explicado em razão do consenso mundial sobre a problemática da escassez de água potável no planeta. Além disso, eventos mundiais sobre meio ambiente ocorridos nas décadas passadas, como Eco 92, Agenda 21, entre outros, também trataram sobre o tema.
Segundo dados do “Manual de Usos Consuntivos da Água do Brasil”, o país possui elevado consumo hídrico e estimativas apontam que até 2030 o uso de água potável deverá aumentar em 24%, superando a marca de 2,5 milhões de litros por segundo. O reaproveitamento da água, aliado ao uso de estruturas de reusoadequadas, faz parte do processo de eficiência hídrica de um empreendimento, resultando em uma economia entre 20% e 60%, segundo especialistas.
Por mais que se fale e faça marketing sobre o assunto, o reúso das águas ainda é muito pontual no Brasil, limitado a alguns casos específicos, em que a necessidade estratégico-operacional se revela mais importante do que o engajamento corporativo pelas causas ou impostas por leis ambientais.
Prática fácil de se identificar ocorre ao saber que várias grandes indústrias apenas há pouco tempo começaram a se dar conta de que o fato de terem água em abundância, de rios ou poços subterrâneos, não justifica o desperdício dos chamados sistemas abertos de consumo, pelos quais o insumo é captado, condicionado para o uso, utilizado, novamente tratado (ou não…) e por fim descartado, sem nenhum tipo de recirculação. E aí começam as falhas nas leis das Águas e de Saneamento...
A água de reúso tem potencial para atender as demandas menos exigentes, que não necessitam de tratamento ou atendimento dos padrões de potabilidade. Nesse sentido, o reúso pode contribuir por meio da diminuição da quantidade captada em mananciais ou águas subterrâneas destinados ao abastecimento ou da própria rede abastecedora, do aumento da vida útil de estações de tratamento de água e da diminuição dos riscos e custos associados a busca por novos mananciais.
A grande vantagem da utilização da água de reúso é a de preservar água potável exclusivamente para atendimento de necessidades que exigem a sua potabilidade, como para o abastecimento humano, assim como a redução do volume de esgoto descartado e a redução dos custos com água, luz e esgoto.
A água já utilizada, chamada de água residuária ou água de reúso, é coletada e encaminhada, por meio de tubulações, para uma central de tratamento, onde será tratada e com seus parâmetros de qualidade ajustados à finalidade a que se destina, para então ser encaminhada para o consumo de reúso.
Na maior parte dos casos de reúso em empreendimentos comerciais e residenciais, privilegia-se o reúso da água cinza, que é coletada em tubulações separadas das demais, as quais levam a água para o ponto onde fica instalado o sistema de tratamento, em geral,na parte baixa dos prédios, de forma que após tratamento, é bombeada, de volta, para o abastecimento dos pontos de consumo de água não potável, como a descarga de vasos sanitários, rega de jardins e canteiros, lavagem de pisos e calçadas, reposição de água em sistemas de refrigeração, lavagem de veículos, entre outros.
De acordo com especialistas em tratamento de esgoto doméstico/águas residuárias, seu principal benefício está em preservar os recursos hídricos do Planeta e permitir que a chamada água potável seja direcionada apenas para as finalidades mais nobres, como as de consumo humano e animal e as de contato direto com as pessoas, tendo em vista seus altos preços. Ao tratar as águas residuárias, transformando-as em águas de reúso, os volumes de água geralmente usados em todos os fins em que a potabilidade não é necessária é reduzido, garantindo ao empreendedor/usuário, uma enorme economia financeira pela redução de sua conta de água.
Em se tratando de processos industriais, ao mesmo tempo em que agrega uma dimensão econômica ao planejamento econômico dentro da sua política ambiental, no item de gestão dos recursos hídricos, valorizando os seus produtos e marca junto aos seus consumidores.
Além do alto consumo de água empregado nas atividades em indústrias e o aumento de águas residuárias provenientes de seus diversos processos não tratadas e lançadas no meio ambiente, as mudanças climáticas representam grandes desafios para o planejamento e políticas de gestão dos setores industriais nacionais.
As alterações climáticas mundiais juntamente com a poluição atmosférica podem ter um impacto sobre os recursos de água doce e sua disponibilidade. Sendo assim, fomentar o desenvolvimento sustentável é substancial para manutenção da vida e para a garantia de boas condições para a sociedade se sustentar no futuro.
Com as mudanças climáticas ocorrendo em uma crescente, a escassez de água com o mínimo de qualidade disponível e o aumento de custos para sua captação, acrescido do posterior tratamento, devido ao incremento do grau de poluição das fontes, faz do reúso de água um tema de enorme importância nos dias atuais.
No que diz respeito ao tratamento, existem diversas tecnologias disponíveis para água de reúso que resultam em diferentes concepções de sistemas. Entretanto, a definição do grau de tratamento necessário é fundamental para a aplicação segura de tecnologias e, sob o ponto de vista sanitário, depende da definição dos riscos aceitáveis.
Da mesma forma, devem ser analisados os aspectos econômicos relativos à implantação de tecnologias de reúso partindo da hipótese de que a demanda energética do sistema de reúso não deve superar aquela prevista no ciclo tradicional do saneamento.
Considerando o aumento do investimento na área de Saneamento Básico, decorrentes de programas Federais e suas conquistas recentes, verifica-se atualmente que o tratamento dos esgotos sanitários é realidade em algumas cidades brasileiras, mesmo que não seja realidade para todos os usuários e quando o é, a conta vem basicamente em dobro. Assim, pode-se em função da qualidade requerida, difundir a adoção de técnicas de reúso como alternativa para usos não potáveis visando minimizar a pressão nas fontes naturais de melhor qualidade.
A preocupação com a escassez de água e o aumento do custo para o tratamento de água podem ser motivadores para os gestores e investidores apostarem na prática do reúso. A recuperação de corpos d’água pode ter aumento exponencial com a reutilização de efluentes, contudo, deve ser estudada e observada a melhor forma de gerir os recursos, evitando o aumento do estresse hídrico ou mudanças das características do meio. Sendo assim, precisa-se de legislações mais abrangentes, cumprindo as técnicas científicas de tratamento, que assegurem todas as possibilidades de reúso, sem colocar em risco a saúde humana, animal e ambiental.
E aí, já pensou em reusar ou reciclar a sua água?
A Coluna Papo Ambiental é um oferecimento de:

REFERENCIAL:
- BUCHMANN, J.; PROCHNOW, T.R. (2016) “Água, Agenda 21 e Você”: uma aula para despertar consciência e senso crítico frente questões ambientais. In: CONGRESSO INTERNACIONAL DE TECNOLOGIAS PARA O MEIO AMBIENTE, 5., 2016. Anais.
- CETESB. Águas Interiores. Reúso de Águas. Disponínel em: https://cetesb.sp.gov.br/aguas-interiores/tpos-de-agua/reuso-de-agua/. Acesso em 23/03/2024.
- FURTADO, M. Química Nova. Reúso de Água – Algumas indústrias evitam desperdício com recirculação, mas poucas reúsam de fato. Disponível em: https://www.quimica.com.br/reúso-de-agua-algumas-industrias-evitam-desperdicio-com-recirculacao-mas-poucas-reusam-de-fato/. Acesso em 25/03/2024.
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