Repórter Guaibense

Domingo, 19 de Abril de 2026

Notícias/Segurança

Guaíba tem quase 350 mulheres com medidas protetivas após alta de 70% em dois anos

No ano passado, a cidade registrou 302 casos de ameaça contra mulheres, 200 de lesão corporal e 37 de estupro

Guaíba tem quase 350 mulheres com medidas protetivas após alta de 70% em dois anos
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Com alta nos casos de violência doméstica no Rio Grande do Sul e no Brasil, Guaíba encerrou 2025 com 347 mulheres com medidas protetivas ativas, o que representa um aumento de 70% em dois anos. Dados da Brigada Militar e da Secretaria Estadual de Segurança Pública do RS apontam para um crescimento expressivo nos registros de violência.

No ano passado, a cidade registrou 302 casos de ameaça contra mulheres, 200 de lesão corporal e 37 de estupro. Além disso, apesar de não ter registrado ocorrências de feminicídio nos últimos três anos, houve quatro tentativas de feminicídio no período.

A Patrulha Maria da Penha, do 31º Batalhão de Polícia Militar (BPM), responsável pelo acompanhamento de mulheres com medidas protetivas de urgência, realizou 2,3 mil visitas a mulheres em situação de risco em 2025, um aumento de 43,9% em comparação a 2023.

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“Tivemos um recorde de encaminhamentos por parte da nossa Patrulha Maria da Penha. Estamos com uma guarnição bem estruturada, atuando inclusive com palestras de conscientização e visitas às vítimas quando o Poder Judiciário homologa as medidas protetivas. Hoje também percebemos o crescimento de campanhas institucionais e até de canais de televisão estimulando as mulheres a procurarem os órgãos policiais. Está acontecendo um encorajamento maior”, avalia o comandante, tenente-coronel Fábio Hax.

Ele afirma ainda que os órgãos de segurança pública têm ciência desse problema social que ocorre no estado, com o aumento dos casos de feminicídio, e destaca a atuação recente no município, que resultou na prisão do principal suspeito em uma ocorrência.

 

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Para a delegada de polícia Karoline Calegari, os índices são elevados, mas a repressão também é intensa em Guaíba. Segundo ela, o número de prisões é expressivo e as vítimas procuram a delegacia para registrar ocorrência. “A atuação firme das polícias Civil e Militar impede uma série de feminicídios, agindo de forma contundente diante de situações de risco. Outro fator que contribui para a proteção das vítimas é a articulação entre a Delegacia e os órgãos de proteção à mulher, com a discussão de casos e o fortalecimento dessas vítimas, que estão fragilizadas”, afirma.

A delegada ressalta, no entanto, que há fatores que dificultam o trabalho policial. “Muitas vítimas mantêm vínculo afetivo com o agressor e, na maioria dos casos, acabam retornando para eles e se retratam da representação criminal. Com isso, ficam novamente expostas a situações de risco”, acrescenta.

Ela também destaca outra questão desfavorável: a ausência de políticas públicas voltadas à educação e à conscientização sobre a violência de gênero, que atuem na raiz do problema. Em vez disso, observa-se a exploração política do tema, com a busca por culpados além do próprio agressor.

“Uma mulher foi morta pelo companheiro. Quem falhou? A Brigada Militar, a Polícia Civil ou o Judiciário? Ora, quando nenhum desses órgãos havia sido acionado, nem mesmo por denúncia anônima, o único culpado pelo crime é o agressor. Soluções imediatistas logo após um crime não são formas sérias de enfrentar uma questão tão complexa como a violência de gênero”, pontua.

Parte dessas mulheres busca atendimento no Centro de Referência da Mulher (CRAM), que oferece acolhimento humanizado, escuta qualificada e orientação por meio de equipes multidisciplinares das áreas social, psicológica e jurídica. Somente em 2025, o órgão realizou quase 2,5 mil atendimentos e recebeu 68 novos casos de mulheres em situação de violência doméstica. Entre os tipos de violência registrados, a psicológica é a mais recorrente, com 206 casos, seguida da física (167), moral (143), patrimonial (83) e sexual (52).

A coordenadora do CRAM, Ana Paula Sigas, explica que o atendimento ocorre apenas quando a mulher procura espontaneamente o serviço, não sendo possível obrigá-la a receber acompanhamento. Segundo ela, os números expressivos registrados pela Secretaria Estadual de Segurança Pública (SSP) muitas vezes não chegam ao CRAM porque muitas mulheres ainda não estão prontas para romper o ciclo da violência.

Um exemplo é o caso da bombeira civil Gislaine Rodrigues Duarte, de 31 anos, morta a facadas pelo então namorado em janeiro de 2026. O caso foi considerado isolado, pois não havia registros na rede de proteção às mulheres, na Polícia Civil, na Brigada Militar, no CRAM ou no Centro de Referência de Assistência Social (CRAS). O último registro relacionado à vítima foi um pedido de consulta com médico ortopedista no Centro de Especialidades Médicas. 

O CRAM e a Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres, Direitos Humanos e Cidadania têm intensificado ações de divulgação dos serviços, com o objetivo de encorajar as mulheres a registrar boletim de ocorrência e buscar a rede de apoio. A secretária Thaís Quintana avalia que os casos de violência doméstica sempre existiram, mas muitas vítimas tinham medo de denunciar.

Segundo ela, Guaíba conta com uma das redes de proteção mais estruturadas do Rio Grande do Sul, oferecendo aluguel social para mulheres em situação de violência, transporte público gratuito para participação em grupos de apoio e cursos de capacitação profissional para o mercado de trabalho, como manicure e pedicure.

“Guaíba, dentro da rede do Rio Grande do Sul, está muito bem estruturada. Mas, infelizmente, o primeiro feminicídio do estado em 2025 ocorreu em nossa cidade. Era um caso sem registros anteriores, não sabíamos quem era a Gislaine. A partir desse episódio, mais mulheres passaram a procurar atendimento, e acreditamos que isso ocorre porque estamos empoderando essas mulheres a pedirem ajuda”, finaliza.

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