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Domingo, 04 de Janeiro de 2026

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Polícia de Guaíba lidera investigação de rede criminosa que lucrava com abortos clandestinos no Brasil

Operação foi realizada de forma simultânea em seis estados e Distrito Federal, nesta segunda-feira

Polícia de Guaíba lidera investigação de rede criminosa que lucrava com abortos clandestinos no Brasil
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A Polícia Civil do Rio Grande do Sul desencadeou na manhã desta segunda-feira (8) a Operação Aurora. A ação desarticulou uma organização criminosa interestadual especializada no tráfico de medicamentos controlados, com destaque para o Cytotec (misoprostol), substância utilizada ilegalmente para a prática de aborto. Os integrantes do grupo também ofereciam orientações e suporte às usuárias quanto ao modo de administração do fármaco durante o procedimento abortivo, evidenciando uma estrutura criminosa articulada e de atuação ampla.

A operação é realizada de forma simultânea, com o apoio de efetivos das Polícias Civis estaduais, alcançando os seguintes estados e municípios:

• Paraíba: João Pessoa
• Goiás: Goiânia e Valparaíso
• Rio de Janeiro: Nova Iguaçu
• Espírito Santo: Aracruz
• Bahia: Irecê e Itaguaçu
• Minas Gerais: Santos Dumont
• Brasília: Distrito Federal

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A partir do aborto realizado por um casal na cidade de Guaíba, em maio de 2024, a delegacia de Polícia local passou a investigar as circunstâncias do fato. A mulher que realizou o aborto chegou ao hospital regional com dores muito fortes e acabou expelindo dois fetos. Ouvida, a mulher informou que havia ingerido o medicamento misoprostol, que lhe fora vendido pela internet. Junto com os comprimidos, ela também teria contratado serviços de assessoramento técnico para o momento do aborto, a serem prestados de modo on-line por “uma doutora”. Durante o procedimento, porém, a pessoa que a orientava passou a demorar para responder, negligenciando a gestante e deixando-a sem assistência, mesmo diante de fortes dores.

Relatando como chegou até o grupo, contou que, ao confirmar a gravidez, passou a fazer pesquisas no TikTok sobre aborto e gestação indesejada, quando foi abordada por uma pessoa que afirmou conhecer profissionais que poderiam ajudá-la “com segurança” a interromper a gestação. Ela entrou em contato com o número fornecido, e a pessoa contatada afirmou trabalhar ajudando mulheres a interromper gestações indesejadas. Nesse momento, apresentou uma tabela de preços do misoprostol, na qual também constava a quantidade necessária de comprimidos conforme as semanas de gestação.

Na sequência, a gestante foi adicionada a um grupo de WhatsApp denominado “Sinta-se acolhida”, cuja descrição sugeria um espaço para compartilhar a experiência pós-procedimento, incentivando outras mulheres que ainda estivessem em dúvida, mas advertindo que detalhes do momento do aborto e do preparo não deveriam ser publicados. A gestante então adquiriu o medicamento e agendou a data do procedimento com sua “doutora”, passando a agir conforme as orientações recebidas. Em determinado momento do processo, passou a ser negligenciada pela pessoa que a “assistia”, que demorava para responder. Não suportando as dores, procurou atendimento médico, ocasião em que os fetos acabaram sendo expelidos.

A partir de investigação telemática, a polícia identificou os administradores do grupo, os quais, segundo regras claras estabelecidas no próprio espaço virtual, eram os únicos autorizados a realizar a venda do Cytotec e acompanhar o procedimento abortivo. Os investigados residem em diferentes estados da federação, com ramificações na Paraíba, Goiás, Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e no Distrito Federal.

A primeira etapa da Operação visa esclarecer a participação de cada membro no esquema criminoso, bem como entender a dinâmica de funcionamento da organização e apurar a origem do desvio do medicamento, já que se trata de droga de uso controlado, que só pode ser administrada em ambiente hospitalar, sendo vedada sua comercialização em farmácias e estabelecimentos similares.

Segundo a delegada Karoline Calegari, que presidiu as investigações, mais de 250 mulheres faziam parte do grupo, levando à inferência de que o lucro obtido pela organização possa ser expressivo.

A Operação AURORA, com importante apoio do Ministério da Justiça, demonstra a articulação das Polícias Civis do Brasil no combate ao narcotráfico, na defesa da integridade física das mulheres e na proteção da vida, em todas as suas fases de desenvolvimento. A ação aconteceu em parceria com a Diretoria de Operações Integradas e de Inteligência da Secretaria Nacional de Segurança Pública (DIOPI/Senasp), por meio do Projeto IMPULSE, inserido no Programa Nacional de Enfrentamento às Organizações Criminosas do Ministério da Justiça e Segurança Pública (ENFOC/MJSP).

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