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Sexta-feira, 16 de Outubro de 2026

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Breve diálogo de Paixão Cortes e Dom Barulho

"Sem rejuvenescer não se perpetua"

Breve diálogo de Paixão Cortes e Dom Barulho
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Dom Barulho e Paixão Cortes, dois ícones importantes da minha infância. O melhor é que eles se conheceram na realidade, foi na década de 80.

Certa feita, Cortes, “o homem que inventou o tradicionalismo” como meu avô dizia, veio a Guaíba pesquisar sobre os populares grupos de “Ternos de Reis”, histórias e costumes dos folguedos e festejos do ciclo natalino, herança dos açorianos ao nosso folclore popular.

Pois bem, vamos viajar pelo campo do imaginário e acompanhar a conversa de dois autênticos gaúchos da pura cepa. A cena então, estava formada. O meu avô sentado à beira do fogão a lenha, de mate na mão recebendo a visita de Seu Paixão.

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Aquele avô sério e sábio, quer também conhecer um pouco mais do que pode lhe oferecer aquele senhor tão inteligente e tão conhecedor das coisas desse pago.

São dois cernes da cultura sulina sentados no mesmo ambiente.

Seu Paixão pergunta a Dom Barulho sobre as lides da criação, ele responde com minucias (como de costume), falando sempre de tudo um pouco. Quando percebe que seu Paixão está satisfeito de informações, começa a aproveitar do estreitamento e busca enriquecer seu conhecimento.

De primeira, pergunta porque Seu Paixão resolveu criar esse tal “tradicionalismo” e como ele acha que isso iria perdurar, se a juventude se afasta cada vez mais das raízes buscando a inovação.

Seu Paixão entreolhando Dom Barulho, entrega a cuia já sorvida da bebida amarga e serve uma prosa doce ao interpelador.

Luzidos de 1947, vivíamos em um momento pós-guerra, onde a cultura americana invadia nossa vida. Estudávamos no Julinho (Colégio Júlio de Castilhos, em Porto Alegre), éramos oito jovens advindos do rural, incomodados com esse estrangeirismo exacerbado que nos pressionava. Pressionava no sentido de tentar nos fazer esquecer das coisas campestres, dos costumes do campo. Passear de bombacha na capital era afronta aos cidadãos que cultuavam tais estrangeirismos. Ali despertava em nós, jovens adolescente e guardiões de sua essência, a consciência de que se não fizéssemos algo, seriamos cópia de algo que nunca nos pertencera.

Dom Barulho atorou a conversa ao meio, sem ser indelicado, e foi dizendo ao Seu Paixão que conhecia a história dos oito jovens aguerridos, que fizeram de um manifesto o nascimento do tradicionalismo. Também relembrou Seu Paixão (pra ele entender quem era Dom Barulho) que conhecia a tese do Barbosa Lessa e que a mesma, deveria embasar tudo o que circunda o movimento tradicionalista. Dom Barulho estava preocupado com o futuro, com o porvir. Questionou Seu Paixão em como manter tudo que foi construído de pé, daqui cem anos, como ele pensava encontrar o movimento tradicionalista se tivesse essa oportunidade?

Seu Paixão olhou para o longe, como quem busca no fundo da alma a resposta, suspirou profundamente e externou:

“Entregamos subsídios suficientes para que todos entendam o propósito e a finalidade do movimento tradicionalista, a decisão é sempre de quem estiver a frente deste com o aval dos que estão associados à este. Há que entender o passado, conhecer as origens e projetá-las ao futuro. Também devemos escutar mais a juventude, coloca-los no contexto principal. Não se pode marginar quem terá nas mãos o destino de tudo o que se estabeleceu. Há que deixá-los externar seus anseios, suas dúvidas, as ideias, os descontentamentos, para que eles nos ofereçam subsídios suficientes para entender do que necessitam, de reinventar-nos se preciso for. Não os envolver no processo diretivo é delegar limite ao movimento, afinal, sem rejuvenescer não se perpetua.

Os mais velhos, ou os que se acham dono da verdade, devem lembrar que tudo isso que está aí nasceu de jovens obstinados, com uma causa nobre em seus corações, nunca com interesses escusos. Os jovens têm força e vontade de fazer mais e melhor, basta guia-los, nunca impor limites, mas sim canalizar o que de melhor eles podem entregar para o bem do movimento tradicionalista, cuidando sempre para que não percamos a mais pura essência. ”

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Dom Barulho ergueu-se da cadeira, Seu Paixão num mesmo movimento fez o mesmo e trocaram um caloroso abraço, que sem ouvir-se nenhuma palavra, dizia mais que todo um livro.

E despediram-se saudosamente, dois cernes da autenticidade gaúcha.

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Mário e Tainara

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Mário e Tainara

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