Repórter Guaibense

Domingo, 19 de Abril de 2026

Colunas/Geral

A Semana Farroupilha não é apenas uma festa

Antigamente nos reuníamos em volta do Cipreste, olhando com afinco e amor, enchendo o peito de orgulho...

A Semana Farroupilha não é apenas uma festa
IMPRIMIR
Use este espaço apenas para a comunicação de erros nesta postagem
Máximo 600 caracteres.
enviando

Se Don Barulho estivesse entre nós, estaria embasbacado com a trajetória que tomamos em relação a Semana Farroupilha de Guaíba.

A pena é que não seria embasbacado de faceiro, mas de tristeza. Sim, tristeza por ver os rumos que as coisas tomaram e até diria: Preocupação!!

Iria olhar de soslaio, torcer o bigode e dizer para si mesmo: “Se foi o tempo das pencas crioulas, do caldo puchero, da poesia do Apparício ou do violão com bombo leguero, das coisas autênticas e sem muito ensaio. Se fora a la pucha...”

Leia Também:

Pois então, do que Don Barulho fala?

É quase um alerta do que virou nossa Semana Farroupilha, primeiro colocaram um nome aleatório de “Sarandeio” que não tem contexto com a epopeia dos heróis da Semana Farroupilha (bem da verdade a maioria que participa hoje em dia nem sabe o porquê da Semana Farroupilha, acha que tem a ver somente com a Guerra do Farrapos) os heróis de à cavalo que em 1947 resolveram tornar uma semana que culmine no 20 de setembro, a Semana do Gaúcho.

Naqueles tempos de 1947, a preocupação era trazer para a cidade os elementos do campo, as vestes, o que nos aproximava da essência, e que fazem parte da construção do povo gaúcho. Aqueles jovens, naquela época, já tinham esta preocupação e com simplicidade e pequenos gestos, forjaram o movimento tradicionalista gaúcho e trouxeram para a cena principal novamente, reforçando que temos usos e custos muito claros e que estes compõem nossa história! Mantendo viva a tradição de um povo.

Antigamente nos reuníamos em volta do Cipreste, olhando com afinco e amor, enchendo o peito de orgulho a Casa de Gomes Jardim, o nascedouro de nossa cidade, a estratégica casa onde determinados heróis republicanos e libertários se reuniram, para definir como fazer para que o Sul deixasse de ser apenas o guarda fronteiras, pobre e definhando de atenção do governo imperial, para ter voz, vida e reconhecimento.

Nós temos o contexto e o concreto da epopeia e ficamos adorando um palco sob um lonão, relembrando Roma com o pão aos pobres e circo para distraí-los.

Onde está a tradição? Onde está o contexto da “Semana Farroupilha”? Nos shows de miles reales? Nas músicas que nem todos entendem o conteúdo campeiro e rural que retratam? Na beberagem e comilança? É só isso?

Onde está o conteúdo que engorda o cérebro e embriaga a alma, com cultura, história, relembranças e rememoranças do passado de nossos antepassados?

A praça do Cipreste é o marco mais fidedigno da emblemática Semana Farroupilha para os Guaibenses, o fogo da Chama Crioula deve arder todo o tempo em que houver algum evento ocorrendo com o contexto Farrapo, a Casa de Gomes Jardim, mantido bravamente pela família Leão, deve ser “invadida” por crianças e jovens em idade escolar, para que absorvam a energia e o conteúdo histórico que ela traz, ali nasce Pedras Brancas por Ferreira Leitão e depois Gomes Jardim segue fazendo história junto de seu primo Bento Gonçalves e seus parceiros de caminhada, ali a cidade se levanta para deixar de ser distrito e virar município, ali na praça os tradicionalistas de Guaíba se reuniam para, de forma improvisada, reverenciar os costumes legados pelos antepassados.

Na praça devem erguer postos de pertencimento, os CTGs e as escolas devem comungar do mesmo mate, sorver a seiva tradicionalista e farrapa, entendendo o que é e para que serviu a revolta de homens ditos Farrapos, conhecer a cultura preservada de todas as formas dentro dos galpões dos CTGs, devem ser chamados a frequentá-los e deixar vivo, aquilo que Paixão Cortes e Barbosa Lessa pesquisaram e escreveram.

A Semana Farroupilha não é apenas uma festa: é memória, identidade e resistência cultural. É o reencontro de um povo com suas raízes, o aceno respeitoso aos que vieram antes e o compromisso com os que ainda virão. O 20 de Setembro não é só uma data no calendário, mas o símbolo de um povo que, mesmo diante das dificuldades, ergueu sua voz e buscou liberdade.

A festa deve existir, isso já virou algo tradicional, mas deve ser itinerante, as pessoas precisam ir aos CTGs, conhecer o que cada um tem, fazer um apanhado de artistas ainda amadores dos CTGs e dar-lhes visibilidade, pois é um trabalho que as entidades desenvolvem dentro de suas paredes e a comunidade por vezes nem conhece. Depois sim, abrem-se as cortinas para os profissionais e façam os shows, para chamar público, a itinerância é fundamental para que as comunidades do entorno de cada entidade sejam valorizadas e privilegiadas, afinal é ela que depois que passa o empolgamento da Semana Farroupilha, mantém viva e acesa a chama do galpão de seu CTG, que consome energia elétrica, água e insumos para manter-se aberto e vivo, durante os outros onze meses do ano.

Não somos contra as festas, mas somos a favor de valorizar o contexto, e estamos nos perdendo do real propósito em detrimento a outras coisas implícitas nesse caminho.  

É preciso recordar que a essência dessa comemoração não está apenas no brilho das luzes ou na grandiosidade dos espetáculos, mas no calor da chama crioula que atravessa gerações, na simplicidade do mate compartilhado, no respeito às tradições que sustentam nossa história.

Que a Semana Farroupilha siga sendo espaço de encontro e pertencimento, mas, sobretudo, de reflexão. Que possamos honrar os ideais farroupilhas, não apenas com festas, mas com consciência, memória e valorização da cultura que nos constitui.

Porque, se perdermos o propósito histórico e afetivo da Semana Farroupilha, corremos o risco de apagar justamente aquilo que nos torna quem somos: herdeiros de uma trajetória de luta, de identidade e de orgulho gaúcho.

 

Que a Semana Farroupilha seja linda, mas não percamos o propósito.

 

                                      “Que o maior presente entre as pessoas,                                                                                                                                     sejam a bondade e o amor fraterno!”

                                                       Mário Terres e Tainara Moraga

 

Comentários:
Mário e Tainara

Publicado por:

Mário e Tainara

Lorem Ipsum is simply dummy text of the printing and typesetting industry. Lorem Ipsum has been the industry's standard dummy text ever since the 1500s, when an unknown printer took a galley of type and scrambled it to make a type specimen book.

Saiba Mais

Veja também