Já está mais do que avisado pela ciência que a cada ano que passa as condições ecológicas de sustentação da vida como a conhecemos no planeta Terra caminham a passos largos para o colapso. E sim, chegamos até este ponto em função da expansão do sistema capitalista mundial. Já não há mais tempo para meias palavras. Ou entendemos que é urgente cambiar os sistemas de produção, consumo e distribuição de riquezas de uma perspectiva economicista, tecnicista, colonizadora e acumuladora, para uma perspectiva ecológica, justa, de base local e soberana, ou veremos a barbárie crescer no vórtice de extinção que a espécie humana entrará.
Já não podemos mais cair no discurso falsamente conciliador do desenvolvimento sustentável – “desenvolver para proteger” é um dos lemas do governo de Eduardo Leite (PSDB) no RS – pois colocar limites ao sistema vigente é ferir um de seus princípios (insustentáveis) basilares: o crescimento ilimitado. O capitalismo verde não irá resolver a crise ecológica que criou. Tão pouco as experiências socialistas do passado (por mais que possam ter sido mal interpretadas ou não realizadas) foram capazes de superar a lógica do produtivismo capitalista e muito menos da exploração desmedida dos bens naturais e a destruição de ecossistemas.
Como resposta a um mundo que precisa alcançar uma era pós-capitalista, em plena crise ecológica aguda, está em construção o movimento ecossocialista internacional, que já conta com redes no Brasil. O ecossocialismo se propõe a criticar tanto o capitalismo reformista, que se pinta de verde através do marketing e se diz mais respeitoso com o meio ambiente, como também o socialismo e as esquerdas não ecológicas. Segundo Michel Lowÿ (pensador ecossocialista brasileiro), o projeto ecossocialista implica uma “reorganização do conjunto do modo de produção e de consumo, baseada em critérios exteriores ao mercado capitalista: as necessidades reais da população e a defesa do equilíbrio ecológico. Isto significa uma economia de transição ao socialismo, na qual a própria população – e não as leis do mercado ou um ‘burô político’ autoritário – decide, num processo de planificação democrática, as prioridades e os investimentos”.
Esta necessária transição conduziria, ainda segundo Lowÿ, não só a um novo modo de produção e a uma sociedade mais igualitária, mais solidária e mais democrática, mas também a um modo de vida alternativo, uma nova civilização, ecossocialista, mais além do reino do dinheiro, dos hábitos de consumo artificialmente induzidos pela publicidade, e da produção ao infinito de mercadorias inúteis e com vida útil programada para que se tornem obsoletas.
Deve estar contemplada por esta sociedade a superação de todas as formas de dominação, incluindo especialmente, aquelas de gênero e cor da pele. E também deve ser central a percepção da relação existente entre desigualdade social e econômica em relação à exposição de populações aos riscos ambientais (como as enchentes, desmoronamentos, poluição, lixo, contaminação e doenças de caráter sanitário), e a garantia do direito de comunidades em permanecerem em seus territórios, mantendo seus modos de vida em um ambiente adequado para tal. Nas cidades não é difícil constatar que populações ricas e brancas gozam de privilégios ambientais como parques, quadras de esporte, ciclovias, iluminação pública, etc., enquanto comunidades em vulnerabilidade social (imensa parcela da população) têm acesso a serviços ambientais e equipamentos públicos precários, como espaços verdes degradados, saneamento básico inexistente, escolas e postos de saúde sem recursos, sistema de transporte caro e ineficiente, além de estarem excluídas do acesso aos canais formais de decisão política. Ou seja, os impactos socioambientais das atividades econômicas são sentidos de maneira diferente entre as diferentes classes sociais, e as possibilidades de melhorias das condições ambientais e de vida da classe trabalhadora estão diretamente correlacionadas com a organização coletiva desta classe.
Para isto existem muitas ferramentas, cada uma com sua estratégia, função, alcance e importância: associações de bairros, entidades ambientalistas, movimentos sociais, sindicatos, cooperativas, e, por que não, partidos políticos. É evidente que, do ponto de vista político e organizativo, é fundamental que movimentos populares mantenham-se autônomos em relação a governos e mesmo ao Estado, construindo formas espontâneas e diretas de democracia e tomada de decisões. Mas também é importante considerar a ferramenta partidária, pois com ela é possível disputar os espaços legislativos e executivos formais, para levar as reivindicações e as pautas a estas esferas de poder, enquanto elas assim estiverem organizadas.
Temos nas eleições não o momento fundamental, muito menos o único evento da democracia em que a cidadania pode ser exercida, mas mais uma trincheira a ocupar para que as lutas diárias possam avançar. Neste sentido é preciso ter clareza sobre nossas próprias demandas enquanto comunidade, sobre o local onde nos encontramos na divisão das classes sociais e de trabalho, sobre que tipo de município, estado, país e mundo queremos para nós, e para nossos filhos e netos. Aqui o ecossocialismo nos ajuda a sintetizar estas utopias plenamente realizáveis a nível local, dependendo de nós para tal.
Sonhando coletivamente nossos municípios a partir desta perspectiva construiremos, ao caminhar, este outro modelo de sociedade, baseado na agricultura orgânica, local e saudável; em sistemas de transporte bem conectados, acessíveis e não poluentes; em projetos de cidade e habitação ecológicos e para todos; em práticas de gestão integrada de nossos resíduos, através da redução da geração, da compostagem, da reciclagem, do trabalho dos catadores na coleta seletiva; em uma transição energética popular até o abandono dos combustíveis fósseis; em espaços verdes, hortas urbanas comunitárias e arborização urbana bem manejada; em formação e criação de empregos numa economia local, solidária e de baixo impacto socioambiental negativo, num ciclo virtuoso de prosperidade, conservando e recuperando nossos ambientes naturais e valorizando nossos patrimônios ambientais e histórico/culturais.
De maneira prática, minha sugestão para estas eleições é: valorize seu voto, converse com quem está se disponibilizando a exercer um cargo eletivo, e se o espírito de uma sociedade mais justa e ecológica te toca, verifica se as propostas do plano de governo executivo e dos projetos de vereança expressam os princípios ecossocialistas. E, para além da eleição, pois a democracia e a cidadania apenas têm neste evento o seu começo, procure um grupo com quem possa sonhar e construir ativamente o mundo que tu queres viver e deixar para as futuras gerações. Organize-se coletivamente. Ecossocialismo ou extinção!
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