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Quinta-feira, 15 de Outubro de 2026

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Don Barulho e a pandemia

Sei meus limites, mas será que todos sabem os seus?

Don Barulho e a pandemia
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Rio Grande de São Pedro do Sul, notícias de final de tarde. Vozes graves de comunicadores longínquos trazem à tona uma preocupação velada, há no ar algo de mal pela feição do meu avô.

Rugas profundas de preocupação, se exaltam mais que o normal na face do homem rude.

Vejo vô Barulho tenso, com suas pernas finas e magras entrelaçadas, sentado na banqueta da cozinha, a fumaça fina do fogão a lenha (que as vezes bufa pra dentro da peça, traz ares taciturno), a boina desbotada caindo mais para o lado esquerdo que pra o direito, o mate a mão esquerda e o ouvido espichado pra o rádio de ondas curta e médias que fala sem parar.

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O tempo passou, as pessoas se agitaram, esconderam-se sob máscaras e embebiam-se no álcool gel como se fosse um bálsamo salvador, mas ele permanecia incólume e pensativo sempre que estávamos próximos.

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Pensei que ele não entendia o que se passava, que ficara em casa porque as filhas o obrigavam, temendo o pior. Mal sabiam elas que ele saia cedo, com o lenço vermelho no rosto, como um gaúcho ancestral, bombacha de favos, chinelos campeiros, guaiaca e sempre com a prateada na cintura. Ele saia e caminhava pela cidade que ele escolhera por “lar” entreolhando a vida com a simplicidade costumeira, mas um olhar apurado e preciso.

Se perguntasse, dizia que permanecera perante o fogo abençoado do fogão e que mateara desde cedo, sem sair dali. Eu ficava triste porque achei que meu avô estava cometendo algo que condenava, mentindo. Que tolo eu era, ele na verdade queria evitar discussões vãs sobre algo inconcebível, já que ele sempre alertara que a doença se transmitia pelo contato, ele saia as 05:00 da manhã, não tinha contato com ninguém além dos pássaros, do verde dos campos, do sol que amanhecia, da geada que umedecia sua boina, que mal lhe fariam essas bênçãos da vida?

SABEDORIA INOCENTE

Eu era ainda um neto em aprendizado, anos após ele partir, eu seguiria aprendendo com seus ensinamentos rústicos, mas inteligentes.

Atrevidamente lhe questionei: Vô Barulho, o que é pandemia? Porque o senhor teima em sair de casa, se todos dizem que não saia?

Renovou o mate, colocou mais água na chaleira, eu ficava agitado, pensando que ele se eximira do debate, mas ele sabiamente esperou a água chiar, serviu a cuia até bem perto da borda e me alcançou (sempre com a mão direita), fitou-me profundamente e largou as rédeas daquela prosa.

“Meu neto, a vida anda muito agitada e desmedida. Tudo e todos se voltaram pra si e querem mais ter do que ser. Já falamos disso outros dias.

Porém o mundo precisa buscar o equilíbrio, a vida cobra seu preço. Somos de plástico, de enlatados, de refrigerantes, de telefone, de computadores e esquecemos de sermos humanos.

Perdemos tanto tempo com coisas que, são tão rasas, capaz de não encherem uma colher de chá, e não damos tempo pra vida, nem de enchermos o coração de afeto, amor e alegria. Os professores são os novos pais, dos filhos que tem a escola como casa e a casa como lugar estranho. Para as pessoas, não importa a índole nem o caráter, mas a classe social. Nos separamos por cor, por gênero, por credo, escasseamos a humanidade e o zelo pelos nossos semelhantes. É porque não nos vemos como semelhantes.

A natureza sufoca pelas fumaças estúpidas do progresso e as águas se inundam de fertilizantes e embalagens que não se degradam, poluímos tudo, somos a praga do século.

Pandemia meu neto, é uma doença que nos joga em casa pra que percebamos que não sabemos ficar em casa, para entendermos que não temos paciência com os filhos, para sabermos o que passam os professores em sala de aula com os filhos que não temos paciência de educar. Pandemia é o mundo pedindo socorro pelas atrocidades que os seres desumanos lhe causa. É a dor de perder um ente por algo que a gente mesmo se põe em risco.

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Saio de manhã cedo meu neto, porque ainda entendo o canto dos pássaros, ainda me causa brilho nas retinas embaçadas o verde viçoso da grama, a folha da árvore que cai pelo outono, o espelho do rio que banha e mata a sede da cidade. Ainda me importo em sentir o vento no rosto e a chuva fazendo percussão na boina, do cusco que late por um vulto estranho e que se assenta pelo carinho no lombo. Não minto meu neto, omito pra evitar discórdias e lamúrias. Sei meus limites, mas será que todos sabem os seus?

FONTE/CRÉDITOS: Maris Strege
Comentários:
Mário e Tainara

Publicado por:

Mário e Tainara

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