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Domingo, 30 de Agosto de 2026

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Para além do Outubro Rosa

Os sentimentos e o enfrentamento ao câncer de mama para além do estereótipo da guerreira

Para além do Outubro Rosa
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O Outubro Rosa é o mês de conscientização sobre o câncer de mama, e tem como objetivo trazer informações sobre fatores protetores e diagnóstico precoce da doença. Mas o que acontece na sequência? Quando a mulher detecta a presença de um nódulo e acaba se deparando com o diagnóstico de câncer de mama? Vamos falar um pouco sobre os sentimentos presentes nesse processo? Certamente cada pessoa terá suas vivências, e muitos sentimentos e pensamentos serão acionados, dependendo da sua história de vida e até do histórico familiar da doença. Mas lendo e ouvindo relatos de mulheres que tiveram o diagnóstico, posso dizer que um dos primeiros sentimentos presentes é o medo da morte, mesmo se o câncer é descoberto em estágio inicial, quando sabemos que as chances de cura são em torno de 95%.

Quando nos deparamos com uma doença como o câncer, tão assustadora que algumas pessoas evitam falar o seu nome, dizem “aquela doença”, é impossível não sentir que se abriu um buraco diante de si, que a vida virou de pernas para o ar. Choro, raiva, questionamentos de “por que comigo?” também são muito comuns. Aos poucos outros sentimentos e angústias serão vivenciados de acordo com o conhecimento que a paciente vai adquirindo sobre a sua situação de saúde e dependendo dos tratamentos a que será submetida. Algumas pessoas processarão a informação mais rápido, talvez não se questionarão tanto, e seus pensamentos serão  no sentido de que era o que tinha que acontecer, que estava escrito, ou que Deus não dá um fardo mais pesado do que podemos carregar. E seguirão em frente com seu tratamento, focando nos pensamentos positivos, na fé, e talvez não demonstrem tanto sofrimento quanto esperaríamos ver. Algumas por seu próprio jeito de enfrentar a vida, outras porque não admitem sentir “coisas negativas”, outras talvez porque se sintam pressionadas socialmente a se mostrarem fortes, guerreiras, que são palavras que geralmente as pessoas utilizam para descrever quem está enfrentando o câncer de mama.

O que quero propor aqui é um outro ponto, para ampliar a discussão. Na nossa sociedade atualmente, vivemos uma cultura em que não se pode ficar triste, não se pode sofrer, como se isso não fizesse parte da experiência humana. Ver a mulher como guerreira, como alguém que tem que estar sempre forte, sorrindo, sem fraquejar, pode ser fonte de sofrimento para determinadas pacientes. Algumas mulheres, diferente das que descrevi anteriormente, diante do diagnóstico e do extenso e intenso tratamento para o câncer de mama, ao mesmo tempo em que têm fé e esperança, sentem-se desanimadas, com medo, com raiva, sentindo mais intensamente suas dores físicas e emocionais. Algumas sentirão tudo isso e entenderão que podem ter todos esses sentimentos ao mesmo tempo. Entretanto, um outro grupo de mulheres não se sentirá autorizada a expressar o que sente, em função dessa cultura de que não se pode ficar triste, que temos que fazer de tudo para ficar bem o mais rápido possível. Do ponto de vista emocional, é possível que tenhamos uma variedade de sentimentos de forma quase concomitante, e entender que podemos ter sentimentos “ruins” pode ser importante para que algumas pessoas possam vivenciar esse período, tendo “autorização” para sentirem o que quer que seja, sem que isso signifique que são pessoas sem fé, deprimidas ou fracas. Assumir nossos sentimentos “ruins” requer coragem de enfrentar os fantasmas mais assustadores dentro de nós, e também nos proporciona a possibilidade de integrá-los aos sentimentos bons, contribuindo para um senso de integração e autenticidade.

A saúde mental da paciente com câncer de mama é influenciada pela forma como ela está enfrentando a situação, mas também depende de outros fatores, como por exemplo da atenção médica que recebe e de quanto apoio social tem disponível, o que é um aspecto fundamental para que o tratamento transcorra da melhor forma possível. Por isso quero falar também sobre as pessoas que estão à volta da paciente, como familiares e amigos, que muitas vezes ficam sem saber como agir quando recebem a notícia do diagnóstico de câncer de mama. Tem aqueles que estão ali junto, acompanhando bem de perto todo o processo, e também são impactados de uma maneira intensa, e vão aprendendo como lidar com a situação à medida que as coisas vão acontecendo. Tem aqueles que mandarão mensagens, alguns farão uma ligação telefônica, outros farão uma visita para conversar pessoalmente. E alguns acabarão não se manifestando, não porque não se importem ou não se preocupem, mas por medo de incomodar ou por não saber como agir ou o que dizer.

Se eu pudesse dar um conselho às pessoas que convivem com quem teve um diagnóstico difícil e está realizando um tratamento que é desgastante em diversos sentidos, seria: escute antes de dar conselhos. Pergunte como a pessoa está, e ouça de verdade, tudo o que ela quiser falar. É um exercício difícil, pois estamos acostumados a querer ajudar dando respostas, falando das nossas experiências, dizendo palavras animadoras, pois não queremos que a pessoa se sinta deprimida. Temos medo que se ela nos disser que não se sente bem, ela vai piorar, e queremos animá-la a todo custo. Mas quando não escutamos verdadeiramente o que a pessoa tem a dizer, e damos opiniões, ou mesmo conselhos como “tem que ter pensamento positivo”, “você não pode se sentir assim que vai piorar a doença”, ou coisas desse tipo, abafamos os seus sentimentos, e ela pode acabar se sentindo mais sozinha e isolada, pois sente que não é ouvida e compreendida.

Quando a pessoa é realmente escutada e tem seus sentimentos validados, como quando ouve, por exemplo “deve ser difícil tudo que estás passando”, isso tende a trazer alívio, e consequentemente pode ajudá-la a se sentir melhor. Falar sobre as dores, os medos, e todos os sentimentos tidos como “ruins” pode ser importante para algumas mulheres, e pode ajudá-las inclusive a reencontrar a energia necessária para enfrentar o tratamento e restabelecer a fé e a esperança quando estas estiverem enfraquecidas pelo cansaço e pelas dores que está sentindo. É importante ressaltar, entretanto, que quando o quadro de tristeza e desânimo é muito intenso, impedindo a paciente de realizar seus cuidados pessoais ou mesmo de seguir com o tratamento, é hora de procurar ajuda. Geralmente os hospitais ou clínicas contam com equipes multidisciplinares, que devem ser acionadas para que possam oferecer o suporte necessário. Quando se mantém o diálogo aberto, os familiares e amigos podem ajudar a mulher a perceber quando é o momento de buscar auxílio, para que ela tenha a melhor qualidade de vida possível durante sua jornada de enfrentamento ao câncer de mama, sem que precise sentir-se sozinha nessa caminhada.

 

 

Luciane Baddo Sisson de Castro
Psicóloga

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