Novembro é um mês pautado para se falar sobre a consciência negra. O dia 20 é estabelecido como o Dia Nacional da Consciência Negra e relembra a morte de Zumbi dos Palmares, último líder do quilombo dos Palmares, assassinado em 1695. É uma data ligada aos esforços dos movimentos sociais para destacar as desigualdades históricas que marcam a população negra no país, além de trazer à visibilidade a contribuição história e cultural que os negros têm.
O Brasil, apesar de ser constituído em sua maioria por pessoas negras, ou miscigenadas, ainda não consegue reconhecer a existência do racismo. Ou seja, há a prática do racismo sem as pessoas se considerarem racistas. Por isso se faz tão importante se discutir os aspectos do tema, e termos profissionais que saibam ouvir essa demanda dando a real importância para o sofrimento que isso causa.
O Conselho Federal de psicologia, em 2017 lançou as referências técnicas para a atuação dos psicólogos. O documento, afirma que o racismo é uma ideologia de abrangência ampla, complexa, sistêmica, violenta e que penetra e participa da cultura, da política, da econômica, da ética, ou seja, da vida subjetiva, vincular, social e institucional das pessoas. É uma estratégia de dominação que estrutura a nação e cada pessoa, pois é pautada na presunção de que existem raças superiores e inferiores. Por isso, o psicólogo deve atuar na desconstrução do racismo e na promoção da igualdade. Tendo o olhar atento para o sofrimento produzido, que é específico de uma população, além de ser histórico e coletivo.
Para aqueles que pensam que a história fica só no passado, precisamos lembrar que para olharmos os dados, devemos olhar também no contexto histórico em que estão inseridos. No Brasil, as chances de um adolescente ou jovem cometer suicido é 45% maior entre os negros, segundo pesquisa do Ministério da Saúde. Isso porque, a população negra foi retirada de sua terra e colocada em posição de escravidão, e lhe foi tirado seu poder em sua potência, e isso nunca foi restituído, nem mesmo com a abolição.
As principais causas associadas ao suicídio entre os negros, segundo o levantamento, estão ausência de pertencimento, sentimentos de inferioridade e de incapacidade, rejeição, violência, e solidão. Tudo como reflexo de um passado que privava as pessoas negras de dignidade, estudo, moradia, saúde mental, tornado ao longo do tempo esta população mais vulnerável.
Em 2019 o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apresentou um informativo focalizado nas desigualdades sociais por cor ou raça, elaborado a partir de temas essenciais a reprodução das condições de vida da população brasileira como mercado de trabalho, distribuição de rendimento, condições de moradia e educação. Nele aparece que a população também é a maior parte da força de trabalho no país e que a desigualdade no rendimento é de 73,9% em relação á população branca. Esse desequilíbrio aparece também em outras áreas, como no estudo, acesso a saneamento e inadequação domiciliar. A Covid-19 também demonstrou ainda sofrimento para os negros e mulheres, segundo o IBGE. A pandemia reforçou ainda mais a desigualdade no mercado de trabalho. O desemprego acabou sendo maior entre os negros escancarando ainda mais as disparidades.
Precisamos continuar falando e pensando sobre o racismo. Procurar entender as especificidades da população negra e procurar não reproduzir o racismo estrutural, não sendo excludentes e negligentes quanto ao tema. Existe uma dor no outro, e ela deve ser legitimada, pois o racismo fere, impacta a saúde mental. O preconceito precisa ser desnaturalizado. Revisto. E agora me diga, você é racista?
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