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Domingo, 30 de Agosto de 2026

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"Inspiração em pessoas de diferentes origens que propõem outras formas de percebermos o mundo", diz Yannikson

O multiartista fala sobre o seu livro de estreia, voltado ao público infantojuvenil

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Essa semana, convidamos o escritor, ator e produtor cultural Yannikson para falar sobre o seu livro de estreia, A terra das coroas. Publicada pela EdiPUCRS, a obra infantojuvenil conta com ilustrações em aquarela de Bárbara Luiza Farias e posfácio da atriz e escritora Cássia Valle. A revisão ficou a cargo de Janaína de Azevedo Baladão, editora e curadora da série Narrativas sensíveis e outras histórias, e a diagramação foi feita por Rafael da Cruz Leite.

A trama é descrita como uma "aventura no pluriverso da liberdade, dos sentimentos e da amizade", de acordo com a sua sinopse - confira na íntegra:

Tena é uma menina com coroa de bolhas que sente falta da irmã mais velha. Ao conhecer Cinépio, Yuni e Mabel, ela inicia uma colorida aventura em busca da irmã, trilhando um caminho de encantos e descobertas pela Terra das Coroas. Juntas, as crianças percebem que estão ligadas com cada parte dessa fantástica terra e que suas coroas podem ser mais poderosas do que imaginam. A terra das coroas é uma história sobre crescimentos e identidades, uma aventura no pluriverso da liberdade, dos sentimentos e da amizade.

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CDNC: O que te motivou a escrever uma história infantil?

YANNIKSON: Eu sempre fui muito interessado em narrativas para crianças e volta e meia ficava pensando em como poderia ser interessante produzir para este público. Ao mesmo tempo, cresci rodeado de crianças, dentre elas meus irmãos e irmãs, o que direta e indiretamente me inspirou a pensar em histórias que atendessem a uma demanda próxima e de extrema importância pra mim: a da representação negra para/nas infâncias. Assim, durante a disciplina de Literatura Infantil que tive na graduação em Escrita Criativa na PUCRS, tive a certeza de que era um caminho que eu gostaria de desenvolver mais, pesquisar mais… E assim veio a ideia de produzir uma história infantil para o meu trabalho de conclusão de curso, tarefa que acabou juntando minhas vontades de outros tempos - afinal de contas fui uma criança que cresceu com poucas referências negras no campo da literatura - com as necessidades atuais de produzir e de pensar narrativas para este público tão fascinante. 

CDNC: Esse é o teu livro de estreia. Como foi tomar a decisão de contar essa história na sua primeira publicação? 

Y: Então, confesso que nunca pensei muito em qual das minhas histórias seria a primeira a ser publicada, principalmente considerando as incógnitas que acabam fazendo parte do mundo editorial e dos seus esquemas de publicação. O objetivo inicial da criação do livro foi realmente cumprir a etapa criativa do TCC da faculdade em Escrita Criativa, de um jeito que me deixasse satisfeito com a pesquisa e com o processo criativo que fui aprimorando ao longo do curso.

Assim, A terra das coroas foi se construindo do desejo de falar sobre emoções e sentimentos de uma forma lúdica, afinal de contas acabo usando as diferentes coroas das personagens como uma forma de representar o campo das mutações internas que acontecem com a gente ao longo da vida. Eu queria falar sobre essência, sobre individualidade, sobre o que se vê antes mesmo de se conhecer… Estes caminhos foram se revelando cada vez mais pertinentes ao longo da minha escrita. Quando concluí o TCC, sabia que tinha um livro em estado de pronto, com boas perspectivas de publicações futuras, mas sabia também que precisaria de novas etapas e processos para que ele ficasse do jeito que eu queria. Felizmente o convite oficial para publicação veio no ano de 2021, partindo de um convite muito afetuoso feito pela Janaína de Azevedo Baladão, minha orientadora da época do TCC e amiga pela qual nutro profunda admiração. Ela me contou sobre a sua ideia de lançar uma série chamada Narrativas sensíveis e outras histórias, que seria publicada pela EdiPUCRS, e então me fez o convite para ser o primeiro autor publicado da série. Aceitei no mesmo instante e ali comecei um novo ciclo de trabalho, no qual me deparei com novas etapas de escrita e revisão e um envolvimento atencioso com as ilustrações (criadas pela talentosa Bárbara Luíza Farias).

No final das contas foi uma decisão fácil, tendo em vista que eu tive um bom tempo de amadurecimento pessoal e profissional para levar o projeto adiante. 

CDNC: Conta como foi o teu processo criativo com a “A terra das coroas”.

Y: Posso considerar que vivi dois processos diferentes com o livro. O primeiro foi na escrita do TCC, onde o meu objetivo era aplicar os conhecimentos que eu tinha numa estrutura narrativa contundente, com personagens bem construídos e uma lógica que fizesse sentido para mim e para quem fosse ler. Pode parecer um tanto óbvio, mas fazer os encaixes sem se perder vai sendo um grande desafio para o processo criativo, ainda mais quando ele está atrelado a uma formalidade acadêmica que necessita de prazos, revisões  e mais e mais pesquisas. Então acho que a primeira parte foi esse pacote de aprendizados e de testes mesmo, enquanto a segunda - que se inicia a partir do convite para ser publicado - chegou exigindo um outro tipo de atenção.

A primeira coisa que fiz foi reler a história e marcar todos os pontos que eu considerava frágeis, já mapeando o trabalho de escrita e revisão que se sucederia.  Reduzi a quantidade de capítulos, aprofundei algumas das temáticas abordadas e revisitei a construção das personagens e a relação de umas com as outras. Ao mesmo tempo entrei em contato com a Bárbara Luíza Farias, profissional escolhida para dar vida às ilustrações da história. Decidimos que a obra teria 40 ilustrações em aquarela, então desde o primeiro momento já havia uma atenção bem direcionada para esta parte. A Bárbara foi construindo a identidade das personagens, dos cenários e cores que estariam em destaque nas páginas, e eu fui esboçando as ideias que eu tinha para cada ilustração, escolhendo os melhores momentos para elas irem aparecendo e todos esses detalhes. Foi um processo árduo, mas satisfatório demais pois eu ia sentindo, a cada nova leva de entregas e revisões, que estávamos no caminho certo. De modo geral, esta segunda leva de processos foi a mais trabalhosa mas também a de maior entendimento sobre o livro e todas as propostas artísticas que ele demandava. Posso dizer que foi um lugar de muita inspiração e euforia, onde aprendi e curti bastante cada etapa envolvida.

CDNC: Quais são os grandes desafios de escrever em 2023? Colocar as ideias no papel ou seria o pós publicação?

Y: Muito se fala em ter ou não tempo para escrever, mas o principal desafio que vejo hoje é o que diz respeito à remuneração/estabilidade financeira para podermos escrever com qualidade e tranquilidade. É complicado tirar um tempo para escrever sabendo que, se tu não aceitar determinado emprego (muitos deles, infelizmente, fora do ramo da escrita) pode acabar atrasando as contas.

Ideias no papel, publicação e pós-publicação também são grandes desafios, afinal de contas o preparo de um livro nos demanda uma atenção absurda que não se finda com o ato de publicar. Mas para conseguir chegar em qualquer uma dessas etapas, a partir das minhas experiências, acho que é preciso estar minimamente confortável, em estado de segurança financeira e emocional para levar estes projetos de escrita adiante.

CDNC: Quais pesquisas tu fez para o livro? 

Y: Uma das minhas tarefas iniciais para a escrita do livro foi ir atrás de obras de autoras e autores negros que se dedicassem à literatura infantil e juvenil no Brasil. Lázaro Ramos, Cássia Valle, Veralinda Menezes, Kiusam de Oliveira, Emicida e Cidinha da Silva foram algumas das pessoas cujas obras me ajudaram na ampliação de repertório e na imersão no processo criativo que eu estava conduzindo. Outra coisa que fiz bastante foi assistir diferentes animações, antigas e atuais, buscando inspirações que conversassem tanto com a minha infância (e por isso assisti Digimon e Tom & Jerry, por exemplo) quanto com os dias atuais (não posso deixar de citar a maravilhosa série Steven Universo). Acompanhar outros livros, outras linguagens e outras autorias foram minhas principais pesquisas neste sentido de inspiração para o universo criado.

Mas falando da escrita em si, direcionei ainda mais o meu olhar para as crianças do meu convívio e isso me fez perceber coisas muito legais, principalmente para a construção dos diálogos do livro. Observar a maneira com que elas se portavam no dia-a-dia, a forma com que interagiam com as demais crianças e suas relações com as emoções que estavam sentindo, sem filtros, foi um laboratório muito interessante e certamente contribuiu para o processo de pesquisa como um todo.

CDNC: Quais são as tuas principais inspirações? Não vale só livro ou ator!

Y: Confesso que muitas das minhas inspirações vem da minha família, já que são pessoas com as quais tenho muita proximidade. Cada etapa da vida que vamos acompanhando uns dos outros acaba entrando num lugar de importância que muitas vezes aproveito para registrar na escrita. Assim, minhas produções acabam se encontrando com estas memórias afetivas, reconstruções do que é ou do que deveria ser. Tudo isso no lugar simbólico, já que no momento em que qualquer ideia surge ela já se alastra pelo campo da literatura e se metamorfoseia em uma outra coisa que já não é mais a vida real, a vida do Yannikson com os familiares…

Mas, saindo do recorte familiar, tenho tomado como inspiração pessoas de diferentes origens e profissões que vêm propondo, com seus fazeres, outras formas de percebermos o mundo ao nosso redor. Cito a dramaturga Grace Passô, os cantores Thiago Elniño e Sérgio Pererê, o Bando de Teatro Olodum, a filósofa Aza Njeri, a atriz Mayura Matos - com quem estou contracenando no novo espetáculo do grupo de teatro Coadjuvantes, entre outras pessoas que eu poderia listar por me inspirarem de diferentes maneiras. Gosto muito da ideia de ir aprendendo e construindo com quem me inspira e levá-las comigo é sempre muito acolhedor e edificante pois vou me sentindo mais potente dentro das minhas descobertas.

CDNC: Quais são seus projetos para o futuro?

Y: Estou com alguns movimentos e projetos bem interessantes na área da literatura e do teatro. Nos últimos meses tenho me dedicado ao meu primeiro romance e tem sido uma delícia escrever ele. Assim que terminá-lo preciso (colocando aqui como um comprometimento, hein) finalizar um livro de contos que está há um tempinho na gaveta e que também quero ver circular. Com o teatro atualmente estou produzindo duas dramaturgias (projetos secretos, por enquanto) e trabalhando na montagem do espetáculo Woyzeck, do grupo Coadjuvantes, que deve estrear ainda neste ano. Concomitante a isso, sigo em cartaz com a peça Beco de Três Ruas, dirigida pela minha amiga Dani Reis e escrita por mim, trabalho no qual também faço parte do elenco. Estamos fazendo uma maratona de apresentações pelos festivais do Rio Grande do Sul e neste ano fizemos nossa primeira temporada, em São Leopoldo/RS, então é um projeto em execução que também tem me dado bastante entusiasmo. E por último, mas não menos importante, quero seguir abrangendo as possibilidades que o livro A terra das coroas tem me trazido, aproveitar bem as oportunidades e fazer com que a obra chegue a mais e mais pessoas..

 

Yannikson é escritor, ator e produtor cultural. Natural de Santa Maria/RS e morador de Charqueadas/RS, é graduado em Escrita Criativa (PUCRS) e pós-graduando em Literatura Brasileira (UFRGS) . Nos seus caminhos com a escrita se dedica à produção de histórias múltiplas e diversas, o que lhe permite costurar as vivências que possui com a criação literária. A terra das coroas é seu livro de estreia, uma obra criada com esperança nos caminhos que se iluminam a partir dos encontros.

Nós do CDNC, agradecemos imensamente a disponibilidade e carinho do Yannikson com a gente e desejamos muito sucesso ao trilhar a sua arte!

 

Se você deseja adquirir o livro, ele está disponível em formato digital e impresso pela EdiPUCRS: mais aqui!

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Fevi e Camilla

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