Paira no ar uma tensão para aqueles que não gostam do questionamento, acerca de coisas que deveriam ficarem adormecidas ou como estão, seguir assim sem retóricas nem embates, evitando explicações.
O tradicionalismo é “elitista”?
Acreditamos que sim, pelo que ele demonstra frente a sociedade. Hoje ele faz distinção social de várias formas, afinal no tradicionalismo, tudo é captação de recurso, desde a anuidade do MTG (que nem em tempos de pandemia deu uma afrouxada na cincha para as entidades tradicionalistas), até os “trabalhadores da causa” que fazem do movimento seu ganha pão diário, exaurindo CTGs que por vezes mal conseguem cumprir os gastos fixos e acabam repassando aos sócios ou “usuários” do trabalho essa conta.
Na concepção do movimento, alguns defendem que o grupo dos oito eram da elite da sociedade gaúcha, portanto o movimento nasceu elitista.
Em minha humilde interpretação, desde as pesquisas mais profundas, até a criação dos documentos norteadores do movimento, a deselitização está apregoada.
Na carta de princípios e na tese de um dos “patronos” do movimento, Barbosa Lessa sempre fala em tradicionalismo fraterno, em braço da sociedade, apoio ao desenvolvimento social.
Barbosa escreveu em sua tese: “Cada Centro de Tradições Gaúchas, em si, é um novo “Grupo Local”. E à medida que surgem novos Centros, em todos os municípios do Rio Grande do Sul, vai o Tradicionalismo confundindo-se com o Regionalismo, pois opera para que todos os indivíduos que compõem a Região sintam os mesmos interesses, os mesmos afetos, e desta forma reintegrem a unidade psicológica da sociedade regional.”
O outro “patrono” desse movimento gigante é Paixão Cortes, ele foi buscar a essência do homem campesino para embasar tudo o que o tradicionalismo significa, as famílias mais simples, dos ranchos mais humildes, que faziam do campo seu sustento, foram inspiração de Paixão Cortes para todos os trabalhos de pesquisa e, por conseguinte, material para o desenvolvimento desse trabalho dentro dos CTGs, permeando o MTG, que em algum ponto da curva acabou desviando o percurso.
Viemos em condição precária devido a pandemia, os CTGs se esforçam ao máximo para manterem-se de pé para atenderem a sociedade, sem ajuda financeira do Movimento, que parece não perceber a fragilidade da situação, e como se não bastasse, no retorno do festival mais importante (para ele, o Movimento), onde as entidades sonham tanto estarem, no palco iluminado do Enart em conjunto com o Fegadan e o Fegachula, mas com a cobrança de ingressos a cinquenta reais para cada visitante poder assistir o que deveria emergir de forma gratuita e efusiva para semear nossa cultura. Porque essa ganância, porque esse absurdo de elitizar o que deveria ser permeado?
Porque hoje vemos a desmobilização fraterna e a elitização, afinal tudo é exagerado e pomposo, não retratamos a essência, mais buscamos encher os olhos do público ao invés da alma destes, os que não tem condições financeiras e sociais nem se aproximam das entidades, pois já enxergam o estigma que CTG é coisa de rico.
Há que se quebrar esse conceito, há que abrir os braços e abraçar a sociedade em um contexto amplo, trocando experiências, entregando afeto e fraternidade para usar o CTG como ferramenta de transformação social. Porém, para que ocorra estes processos de mudança dentro do Movimento tradicionalista, há necessidade de posicionamento. Talvez tenhamos clareza do que compreendemos pertinente para o momento, mas ficamos com a opinião e/ou sugestão para si mesmo.
O movimento é um órgão vivo, feito de pessoas e para pessoas, sendo assim, porque nos deixamos levar? Bem, podemos pensar nas relações, pois gerar debates e trocas de ideias, perpassa pelo diálogo e ainda que os seres humanos tenham esta habilidade, nem sempre é utilizada da melhor forma, seja pelo contexto de não querer se expor ou talvez porque possa fomentar um clima menos amistoso e com isso, vamos indo!
Fazer a diferença, nos aproxima da coragem e da resiliência. É possível sim, confrontar ideias, desde que saibamos nos comunicar com gentileza, com tom de construção e desenvolvimento.
Podemos olhar para as situações de conflito com olhos de: “Sempre foi assim! ”, ou com uma oportunidade de mudarmos, com um: “Sempre foi assim?”
Patrões, vislumbrem as oportunidades de aproximarem a sociedade em geral de sua entidade, promovam a profusão cultural, valorizem as “portas abertas” sem olhar a quem, não importa o credo, a cor, as finanças ou qualquer coisa que usamos para “classificar” nossos semelhantes. Cultura é para todos, tradicionalismo é para todos, façamos valer o empenho e os ensinamentos deixados pelos nossos “patronos”, sejamos o “braço social” tão exaltado por Barbosa, sejamos o retrato do homem do campo humilde e semeador da bondade como escreveu tantas vezes Paixão Cortes. Assim estaremos sendo ferramentas de transformação social para a construção de um mundo melhor.
“A simplicidade, a humildade e a bondade, trazem o acolhimento necessário para preservarmos nossa essência. ”
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