“A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba é assim
A lágrima clara sobre a pele escura
À noite, a chuva que cai lá fora.
Solidão apavora!
Tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece
No quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora…”
Comentei na coluna de estreia que a música nos atravessa. Nesse contexto, de como ela nos toca e atinge, nenhum outro estilo se compreende tão bem quanto o “Samba Dolente”.
Dolente, pela definição formal, é aquilo que sente ou expressa dor, lamento, queixa. É um termo que se aplica para muitas obras clássicas do samba.
O Samba dolente traz esse tom que chora e, na música de Caetano Veloso trazida no trecho acima, tal definição é explicada com fidelidade. O samba que queixa o amor, a angústia, a saudade ou mesmo as mazelas da vida dos seus compositores ou da vida que os compositores descrevem. Dos subúrbios, das favelas, dos barracões, das avenidas.
Elza Soares cantou: “Meu choro não é nada além de Carnaval”, na música que dá nome ao icônico álbum “A Mulher do Fim do Mundo” e isso diz muito de um samba é muito usado para descrever e transcender muitas dores e, me parece, que sua beleza e profundidade, muitas vezes, residem nisso.
O samba não celebra a dor mas a sublima. E embora muitos outros estilos façam isso, o nosso samba traz marcas nossas, dores fundamentais que nos constituem. Especialmente nós, que somos oriundos das camadas mais populares e que temos nas nossas rotinas doses diárias de beleza, solidão e dor.
O samba dolente tem uma cartilha a seguir. A música de Caetano o descreve, mas é Vinicius de Moraes que orienta exatamente essa produção de forma didática e poética no “Samba da Benção”, quando diz:
“É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não.”
Em tempos em que parece tão urgente sufocar e esconder a tristeza a qualquer custo, o samba dolente nos coloca no colo e nos faz sorver a dor com generosa poesia, nos fazendo lembrar que a dor é um enredo importante no carnaval da vida.
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