Nós, seres humanos, como maioria, temos um cérebro socialmente orientado. Somos mamíferos gregários, precisamos da vida em sociedade, ainda assim, a capacidade de estar confortavelmente só, é sinal de saúde. Como tudo em saúde costuma vir de equilíbrio, a balança entre conviver e isolar-se, é bom que esteja ajustada.
Estamos passando por um momento histórico absolutamente fora dos padrões da vida humana no último século, por si só o ineditismo do momento e das novas regras de convivência podem tornar difícil seu cumprimento. Tenho me posto a pensar sobre as razões da não adesão de muitas pessoas às recomendações de distanciamento social, para além da óbvia necessidade de alimentar a si e aos seus.
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Para muitos de nós, é possível que um alto grau de onipotência explique o fenômeno, se sentir poderoso, imune, elimina qualquer resquício de temor ou necessária cautela. Para esse grupo, o dos narcisos prepotentes, vem junto do suposto poder, o descaso (se sou resistente e comigo nada acontece, também não me importo com o que acontece com quem me cerca). Triste, mas cotidiano.
Tenho também pensado na dificuldade em sermos nossa própria companhia. Nesta vida a cada dia mais conectada por diferentes ferramentas, interpretamos facilmente o estar só como abandono e solidão. Nesse contexto tão propício, onde foi perdida a solitude, o prazer em estar sozinho, o conforto de estar consigo mesmo? Teríamos nós no combate a solidão “jogado fora a criança com a água do banho”? Onde foram parar nossos momentos reflexivos, o tédio, o ócio que podem nos permitir crescer e criar? Em que momento nossas angústias deixaram de ser existencialmente enriquecedoras e passaram a representar um lodo temível onde podemos facilmente nos soterrar?
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A cultura da proatividade, da produtividade, do cansaço constante nos seduziu e dominou tanto que nem na preservação da vida somos capazes de abraçar a contemplação e o desacelerar como estilo momentâneo? Há 70 mil mortos lá fora. Não seria essa a solidão maior e mais temível, a da própria morte?
O que tememos encontrar dentro do nosso silêncio?
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