Árvore
Namorados caminham pela beira. Um casal bem jovem que se gosta como poucos. Ele chama João, ela chama Maria. Eles estão na beira aqui de Guaíba mas num tempo de anteontem, de foto preto e branco. Eles caminham e olham pra ilha. Ele fala pra ela que quer provar o amor que sente, que não aguenta de só falar falar falar, que amor falado é amor de boca e não de coração. Ela diz Então me prova. Ele fala que vai até a ilha nadando e vai escrever o amor deles na árvore mais bonita de lá. Ela não acredita. E ele sai nadando e nada até lá. Braços e pernas de pressa e ansiedade. Quando volta, eles casam. Eles casam e constroem a vida juntos. Têm filhos. Netos. E quando João morre, já bem velhinho, alguém pergunta pra Maria se ela foi até a ilha ver se ele escreveu mesmo o amor deles na árvore mais bonita de lá. E a Maria diz, e quem ouve depois vai repetir pra todo mundo Ai, que lindo! Ai, que lindo!, a Maria diz Tem coisas que o coração enxerga melhor do que os olhos.
Existência
A criança nasce e é jogada ao rio. Os braços da criança movimentam-se na lentidão do útero. Mas a criança já está no rio. E ela nada. Ela aprende a nadar na violência inédita das águas do rio. A criança se habitua a nadar, a virar pêndulo, a dançar de uma beira a outra do rio. A criança aprimora o nado, desbrava os caminhos da água, percorre os metros cúbicos que pode percorrer. E quando busca o rastro de seu trajeto, não há mais nada. A criança não encontra o rastro, ele desaparece no movimento das águas. A criança está perdida.
Então a criança crescendo. Os braços perdem a predileção para as pernas, mais úteis, agora, em terra firme. A criança crescendo trafega pela cidade, se reconhece nos olhos dos seus, imita o movimento deles, caminha igual, fala igual, gesticula igual, a criança crescendo aprende a ser espelho. E quando busca o reconhecimento completo na pele do espelho original, ele desaparece. Estilhaçado em tantos cacos que impossibilitariam sua reconstituição. A criança está sozinha.
A criança crescida, então, abre nas próprias costas ventres alados e vai embora num voo inaugural. Os olhos da criança crescida, agora numa terra construída no alto, veem tudo lá de cima, tudo diminuído. Sobrevoa a terra construída no alto com a certeza de uma verdade própria, costura num céu pragmático um sentido de existência. Até que o tempo das asas esmoreça. Até que as asas caiam maduras de suas costas. Lá de cima da terra construída no alto. A criança crescida está em queda.
E quando chega ao fundo da queda, como num susto, a criança se encontra dividida: a criança que nasce, a criança que cresce, a criança crescida, todas nadam, andam, voam na mesma direção: na direção de uma casa perdida.
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