A dica de leitura de hoje nos apresenta o livro Amora, de Natalia Borges Polesso, um olhar sobre lesbianidade, feminismo e escrita feminina na literatura. Conheci este livro quando estava cursando a especialização em literatura brasileira na Ufrgs, um livro que conquistou toda a turma de uma forma que criamos um grupo de amigos, uma banda, para tocar e cantarolar nos intervalos do curso, cujo nome é “Amora”, em homenagem ao livro. A especialização terminou, mas as amizades e o grupo continuam vivos, assim como as lembranças e o prazer desta leitura. Felicidade em forma de memória.
Natalia Borges Polesso é doutora em Teoria da Literatura, autora dos livros Recortes para álbum de fotografia sem gente (2013), Coração a corda (2015), Amora (2015) pela editora Dublinense e seu último lançamento o livro Controle (2019). Foi selecionada para a coletânea Bogotá39, que reúne os 39 escritores mais promissores da América Latina, que tenham menos de 40 anos. A autora é gaúcha, nasceu em Bento Gonçalves, mas atualmente reside em Caxias do Sul, onde é pesquisadora de pós-doutorado com bolsa CAPES (PNPD), na Universidade de Caxias do Sul.
O livro Amora é um livro de contos, onde existe diversidade não só em relação ao gênero dos personagens, mas também em todas as suas características, que trazem a complexidade das relações sociais através da narrativa. Os relacionamentos não obedecem aos padrões impostos pela sociedade, todavia retratam de forma fiel e verdadeira os relacionamentos lésbicos, sempre aborda a vida afetiva e sexual dos mesmos, de forma secundária. Uma escrita com traços poéticos, onde cada conto parece um recorte da vida do personagem, o contexto dos mesmos, o que para o leitor, afirma com mais naturalidade a vida cotidiana, familiar e a personalidade de cada personagem, sempre num caráter psicológico e introspectivo.
Numa época em que a escrita feminina busca o seu espaço na literatura, surge um movimento de libertação das mulheres, que inclui a libertação sexual. As mulheres lésbicas e as bissexuais protagonizaram este movimento, trazendo para a escrita feminina as noções fora do padrão considerado tradicional de gênero e desejo. Ora essa libertação refletiu na escrita, onde o sistema patriarcal e machista, que não dava conta dinamicamente das relações, fora substituído por uma narrativa que legitima a realidade de múltiplos tipos de relacionamentos afetivos e sexuais e dá a liberdade de escolha para a mulher validar a sua existência e felicidade, sem depender da presença masculina.
Há um modo de olhar feminino, um ponto de vista específico, um lugar de fala pertencente ao universo feminino, tanto para a construção da narrativa, quanto para as abordagens de releitura do passado, que constrói uma memória mais atenta aos detalhes, que os registros masculinos.
Um prestigiado historiador francês Roger Chartier, historiador e professor pela Escola Normal Superior de SaintCloud e na Universidade de Sorbonne, advertiu contra os perigos de se investir a diferença entre os sexos de uma força explicativa universal; de se observar os usos sexualmente diferenciados dos modelos culturais comuns aos dois sexos; de se definir a natureza da diferença que marca a prática feminina; e da incorporação feminina da dominação masculina. Muito preocupado em reconhecer a importância da diferenciação sexual das experiências sociais, Chartier revelava certo constrangimento em relação à incorporação da categoria do gênero, numa atitude bastante comum entre muitos historiadores, principalmente do sexo masculino. M. Perrot – “Práticas da memória feminina”, Revista Brasileira de História, S. Paulo: Anpuh/Marco Zero, vol. 9, no.18, 1989.
Está extrínseca a natureza que marca a prática feminina tanto nos registros historiográficos, quanto nas construções literárias. Existe também uma teoria do conhecimento feminino, que aborda um movimento de constituição de uma epistemologia feminista ou um projeto feminista de ciência.
É inegável que o modo de registro feminino se diferencia não só no detalhamento, entretanto também se trata de uma maneira diferente de registro de discurso, apresentando uma nova linguagem. Outro campo a ser considerado é o da crítica feminista à ciência, que incidem na denúncia de suas características, sexistas, particularistas, ideológicas e racistas, que se tornam incapazes de pensar a diferença.
Livros como o Amora rompem com essas ideologias preconceituosas e abrem espaço para uma concepção de literatura isenta de exclusão por gênero ou diferenças sexuais, incluindo como natural e cotidiano a multiplicidade de relações e de gêneros em nossa sociedade.
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