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Sabado, 22 de Agosto de 2026

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A arte da guasqueria

Amanhã cedito tem carneação no Petim...

A arte da guasqueria
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Nunca se perguntaram intimamente, quem é que vai fazer tal coisa quando a vó não estiver mais aqui?

Lembro de um tempo que ficava parado, sentadito na cadeira da cozinha, olhando atentamente a vó fazer aquele doce de figo, aquele pão maravilhoso, batendo a nata pra fazer manteiga, mexendo a pá de madeira naquele tacho de goiabada cascão, seguidamente me fazia essa pergunta.

Outro dia, num passado distante mas que sempre ressurge em minhas memórias, estava ele, Dom Barulho frente a pedra de afiar, gabaritando uma faca carneadeira. Eu, um neto curioso e questionador, perguntava tudo e lasquei um: pra quê isso vô?

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Ele não perdeu a concentração, me olhou por cima das lentes dos óculos e eu entendi, depois viria a resposta.

Ao terminar, se dirigiu a mim, guardando a faca e disse: “amanhã cedito tem carneação no Petim, tenho que levar as ferramentas prontas pra descarnar e ainda, se der tempo, lonquear um couro, porque é de brasino”.

Bueno, se é de brasino dá laço forte, sempre escutei essa frase dele. Agora não tinha a mínima ideia de como fazia pra lonquear os tentos e como trançar o laço, fazer os mangos, cabeçadas, cintos, enfim essa infinidade de coisas que o couro vacum entrega aos homens de campo.

Trata-se da arte da guasqueria. A guasqueria, é um ofício artesanal que trabalha com couro cru, possui técnica de transmissão de um saber fazer, em um processo de criar objetos que segue uma estrutura dorsal, sendo ela:

  1. I) Carnear, II) Estaquear, III) Secar; IV) Lonquear; V) Sovar; VI) Tirar tentos e VII) Trançar.

Guasqueria terminologicamente é derivado da palavra espanhola huasca, pertencente ao dialeto quéchua de origem inca e significa tira de couro. Nesse artesanato seus produtores, os guasqueiros, criam peças em couro cru, utilizando principalmente a técnica de tentos. De acordo com Flores (1960), o guasqueiro deve aprender a tirar um tento para seguir no ofício para ele essa fase é muito importante, pois é a partir do tento que se inicia o processo de elaboração da obra.

Para alguns historiadores, o peão dedicava-se ao processo de produção de guascas principalmente em dias de chuvas quando não era possível trabalhar no campo, assim permanecia no galpão consertando suas cordas. Desse modo surge o guasqueiro, artesão dos couros que entrega tantos artefatos para a lida quanto para o adorno dos aperos do patrão.

Vô Barulho tinha mãos hábeis, manejada a faca falquejando tentos com maestria, trançava tentos e tinha o acabamento das tranças impecáveis.

Perguntado de como aprendeu, disse que na lida, com outros peões e com um velho que vindo do Uruguai, estabeleceu-se na estância onde trabalhavam, vendia seus trabalhos ao patrão como forma de angariam uns campos do fundo para passar os dias de aposentadoria.

Daí a preocupação de como passará adiante uma arte que depende da sabedoria popular e sua transcendência. O tempo dará permissão para que se perpetue? Um dia acabará extinto?

Com certeza nessa terra de Rio Grande de São Pedro do Sul sempre haverá um Centro de Tradições, um estudioso da história, um neto curioso de um avô guasqueiro que buscará aprender e nunca deixará morrer essa arte maravilhosa que foi tão importante na construção desse estado.

Deveria ter no ensino primário, uma atenção para que aqueles que perderam completamente a proximidade com o campo, entendam ao menos que nos tempos de antanho, com a escassez de recursos (não tinha google nem dava pra comprar em sites) o homem tinha que construir suas ferramentas, cordas laços e sovéus e garras (encilhas) pois o que se construiu a pata de boi e no lombo do cavalo, não pode morrer na temporalidade, pela omissão de quem deve preservar sua arte, cultura e tradição.

FONTE/CRÉDITOS: Geosul (2018); El Guasquero (Luiz A. Flores, 1960)
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Mário e Tainara

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Mário e Tainara

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