Nas últimas semanas, a partir do assassinato de homens negros noticiados nacional e internacionalmente, e ainda mais das reações da população a essas mortes, o racismo e a necessidade de seu combate voltaram a ganhar destaque nas mídias.
Passo então a pensar sobre a saúde mental da população negra, e sobre as inúmeras vivências e sofrimentos das pessoas negras que eu, como branca que sou, posso apenas me informar, conhecer e reconhecer como legítimas.
Nunca, em todo o curso médico, lembro de ter havido qualquer espaço para estudo de dados epidemiológicos sobre a saúde física ou mental das pessoas negras, tampouco na residência médica. Pior ainda, nem eu mesma havia me questionado a respeito. Fico pensando agora em todos os motivos que me ocorrem para que a população negra tenha sua saúde mental afetada, desde lhes ser negado o protagonismo da própria história (vide como nos é ensinada a história da abolição da escravatura em que supostamente uma princesa branca salva os negros da escravidão ou como os lanceiros negros aparecem coadjuvantes no ensino da Revolução Farroupilha ou ainda, como foi veiculada a noticia da descoberta do código genético do corona vírus por cientistas negras brasileiras com reportagens ilustradas por homens brancos de jaleco).
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Passando por toda sorte de ofensas em função da cor da pele, pelas dificuldades de acesso a bens, serviços e ascensão social, até a própria subsistência (trabalhadores brancos ganham em média, 75% a mais que pretos e pardos, e os negros são 75% das pessoas em situação de maior pobreza, conforme dados do IBGE/2019), fundamentos não faltam para que tenham a saúde mental atingida. Sabemos que saúde mental é produto de múltiplas e complexas relações entre fatores biológicos, psicológicos e sociais, e neste ponto, os estressores sociais pela condição de pessoa negra não são poucos, nem leves.
Estudos demonstram a associação de experiências de cunho racista com abuso de substancias, baixa autoestima, transtornos mentais e sintomas depressivos de modo geral. Mulheres negras são ainda mais afetadas, pois a violência que sofrem é um fenômeno hibrido do racismo com sexismo. Dados do Ministério da Saúde apontam que mulheres negras morrem mais que as brancas por suicídio, homicídio e mortes mal definidas.
Nunca coletei dados de forma sistemática, mas no que recordo da minha experiência como médica, tanto no setor público como no privado, em regime ambulatorial ou hospitalar o acesso das pessoas negras aos sistemas de saúde é também extremamente limitado.
Precisamos reconhecer nosso racismo estrutural e cotidiano como caminho para nossa evolução como civilização. As consequências de mais de 300 anos de escravidão no Brasil estão ainda por serem superadas, e essa, não pode ser uma batalha isolada dos descendentes de escravizados, mas de nós todos, como humanos que somos.
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