Em tempos de pandemia, estamos diariamente expostos a notícias sobre o avanço do COVID-19 pelo nosso país. O ex-ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, afirmava veementemente em suas coletivas que todas suas decisões estavam baseadas na ciência. Porém, com o advento da internet e consequentemente, do acesso quase que irrestrito à informação, nas redes sociais surgem aqueles que chamo de “cientistas” da pós-verdade, ou seja, pessoas que escolhem no que acreditar mesmo que os fatos mostrem o contrário.
Nesse contexto, uma dúvida deve pairar sob as nossas cabeças: o que é ciência afinal? Nessa reflexão, tentarei deixar clara a minha visão de ciência com base em textos e conversas que tive ao longo da minha vida acadêmica.
É comum pensarmos que a ciência é um ente superior que possui as explicações para os fenômenos que ocorrem no mundo; que ela é neutra e portanto não há interesses por trás de seus resultados; e por fim, que esses resultados advindos das pesquisas nos salvarão de algo, ou seja, a ciência é salvacionista. Vamos refletir sobre esses sensos comuns.
Ciência vem do latim Scientia, que significa conhecimento. Não saímos pela rua e encontramos gemas de conhecimento soltas por aí, pois conhecimento é uma construção contínua. Assim sendo, podemos dizer que a ciência não é um ente, a sua existência não é anterior a nossa, e sabem o porquê? A ciência é uma construção humana, é uma linguagem construída por nós – a partir de alguns métodos – para explicar os fenômenos da natureza. Eu me considero um Realista, acredito que a existência da realidade (ou suposta como tal) e da natureza (não importando a crença que temos sobre a origem da vida) independem da nossa existência, porém, percebê-las e explicá-las sim, dependem dessa existência. Portanto, é por existirmos e estarmos continuamente tentando explicar o mundo em que vivemos é que a ciência existe.
Quero deixar um recado: suspeitem de tudo aquilo que é irrefutável! Ou seja, duvidem das “verdades absolutas” ou das certezas, pois como diria Karl Popper: “aquilo que não é refutável, não é científico”, e sim uma crença ou uma pós-verdade. Não importa por quantos testes uma teoria passou, isso não garante sua veracidade. Isso é interessante, afinal, se algo é irrefutável, quer dizer que somente uma ideia tem valor, e isso não permite a colaboração entre os pares e avanço do conhecimento.
Eu costumo dizer em minhas aulas que a ciência não é neutra. Muitos deles contrariam essa ideia. Porém os argumentos que utilizam não têm a ver com a neutralidade de algo, e sim com a imparcialidade. Nenhum de nós é neutro pois temos princípios, experiências de vida, estudos, visão política, interesses, enfim, um conjunto de conhecimentos e valores orientam nossas decisões. Agora pensem comigo, se não somos neutros e nós construímos/fazemos ciência, logo, a ciência também não é neutra. Entretanto, em nossos estudos podemos ser imparciais, tentar se desvincular de nossas crenças e prol de contribuir da melhor forma para sociedade. Uma técnica ou ferramenta sim é neutra, é a nossa ação perante essa técnica/ferramenta que faz com que seja boa ou ruim. Por exemplo, um serrote pode servir como objeto de um marceneiro ou de um homicídio. Então, a ciência, por ser uma construção humana, não é neutra e, portanto, não está imune a algum direcionamento.
Estamos expostos ao COVID-19. E nesse contexto surge a ciência – no caso, os cientistas – como aquela que pode nos “salvar” seja pelo desenvolvimento de uma vacina ou de um remédio eficiente. Vale lembrar que de cinco anos para cá (aproximadamente), cresceram os ataques à ciência através das redes sociais por grupos que chamamos de Negacionistas, cujo objetivo é negar a realidade com argumentos que ao longo do tempo se esgotam. Vocês devem estar familiarizados com dois desses grupos: movimento antivacina e dos terraplanistas. Pois bem, surgiu a pandemia e onde estão os “antivacinistas”? Não os vejo mais, talvez por estarem no time daqueles que clamam por uma cura. Porém, é preciso ter cuidado, afinal a ciência não é neutra e não consegue resolver todos os nossos problemas, suas soluções podem, porque não, criar outros. Portanto, não pensem em ciência como algo salvacionista, e sim, como algo útil para a sociedade seja em termos de produção de conhecimento como em termos de um produto final.
Pensemos em ciência como um conjunto de conhecimentos sistemáticos que são replicáveis, contestáveis, e principalmente, mutáveis, construídos a partir de alguns métodos pela humanidade. Não se faz ciência com achismos! A ciência é feita por nós para tornarmos o mundo mais compreensível e sermos capazes de prever situações, mas tanto as explicações quanto as previsões estão sujeitas a alterações com o passar do tempo.
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