Em 11 de março deste atípico ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o estado de contaminação pelo novo coronavírus como pandemia, por sua rápida disseminação geográfica. Conforme classificação proposta pelo pneumologista norte americano Victor Tseng, a primeira onda seria a morbidade e mortalidade do vírus em si; a segunda envolve a superlotação dos serviços de saúde pelo somatório de casos graves da covid-19 e emergências outras; terceira diz respeito ao agravamento de doenças crônicas que não tiveram o adequado atendimento ou tratamento por conta da pandemia e a quarta onda então o agravamento e surgimento de novos casos de transtornos mentais.
Já sabemos que nossa saúde mental depende de fatores genéticos, de personalidade e também do ambiente, que nessa situação da pandemia está bastante modificado. Estar em casa por longo tempo pode ser fácil para algumas pessoas e muito difícil para outras. O receio de sair e contaminar-se, a preocupação com familiares expostos, preocupações econômicas e as incertezas sobre o mundo que nos espera quando tudo isso passar são algumas das questões que podem gerar adoecimento mental (depressão, ansiedade, transtorno de estresse pós traumático). As próprias preocupações e cuidados desejáveis de higiene e limpeza podem adquirir a características de obsessões e rituais a ponto de configurar um transtorno obsessivo compulsivo.
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Não é difícil prever que a quarta onda tem um potencial enorme de gravidade, pois pode afetar não apenas os contaminados pelo próprio vírus, mas a qualquer pessoa. Não sabemos se e quando seremos contaminados, não é possível antecipar o comportamento do vírus mesmo em organismos saudáveis, pacientes internados permanecem afastados de seus familiares, familiares sofrem à distância o adoecimento de entes queridos. Nossos rituais de despedida estão completamente modificados, dificultando a elaboração das perdas e predispondo a quadros de luto patológico. As possibilidades de acometimento mental são muitas e pelo número de indivíduos sujeitos, potencialmente epidêmica.
Nossas crianças estão afastadas de seus amigos, do ambiente escolar e de tantas outras atividades corriqueiras. É natural que sofram por isso e expressem seu descontentamento, desconforto e eventual adoecimento com choro, irritabilidade ou outras condutas pouco adaptativas, pois não tem ainda a maturidade necessária para reconhecer os próprios sentimentos e colocá-los em palavras. Cabe a nós, como adultos, estarmos atentos e nos colocarmos em posição de acolher, legitimar e traduzir para nossos pequenos o que sentem como forma de auxiliá-los a elaborar o que vivem.
E para nosso autocuidado? Manter um ritmo de sono e vigília próximo do habitual é protetor, atividade física e tomar sol, ainda que na janela, também. Estejamos conectados com nossa própria essência. Podemos reconhecer e praticar o que, na nossa rotina possível, nos trás bem estar. Podemos valorizar algum aprendizado deste período, podemos cultivar a gratidão e solidariedade que são sabidamente promotoras de saúde mental.
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Estar em isolamento físico não é o mesmo que estar em isolamento social, se estamos com o toque e os abraços em suspenso podemos nos conectar via tecnologia e amenizar as distâncias. Sem negar a enorme tragédia que vivemos, com um absurdo número de mortos, podemos ainda buscar a manutenção ou recuperação da nossa saúde mental. Esteja atento a ti mesmo e aos que te rodeiam.
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