Existem situações que resultam de múltiplos fatores, isto é, não possuem uma só origem. O caso da Semana Farroupilha é um desses fenômenos socais que refletem fatos históricos de diferentes tempos. Até que a Semana Farroupilha chegasse a ser como a conhecemos hoje muitas coisas aconteceram. Voltemos no tempo para elencar alguns importantes acontecimentos os quais construíram o imaginário social do povo gaúcho. De uma forma rápida e resumida comento aspectos que considero relevantes para compreensão dos ritos e símbolos referentes à Semana Farroupilha no Rio Grande do Sul e em Guaíba.
O mais antigo e principal fato histórico contido na Semana Farroupilha é o episódio da Revolução Farroupilha, ano de 1835, na província de São Pedro do Rio Grande do Sul. A Revolução estendeu-se até o ano de 1945 e é considerada a mais longa manifestação política contra o governo central no período regencial brasileiro. Motivada pela insatisfação da elite rio-grandense com os altos impostos cobrados pelo império, principalmente sobre o charque.
Apesar da Revolução não ter modificado a estrutura social escravocrata, o termo Revolução passou a ser utilizado para indicar uma mudança dentro da estrutura política da República Rio-grandense, em relação à um Brasil ainda monárquico. Tal fato que ocorreu há 54 anos antes da queda da monarquia e da implantação da república no Brasil (1889), passou a ser tratado como a ponte de ligação entre o passado farroupilha, considerado audaz e o tempo presente, desejando ser audaz.
Os personagens que viveram este momento histórico passaram a ser considerados heróis pelos homens que viveram no início da república no Brasil. O decênio farroupilha serve de alicerce ideológico para os discursos de valorização da luta e do fortalecimento pela república no Brasil. A filosofia positivista de Augusto Comte e John Stuart Mill (início na metade do séc. XIX até metade do séc. XX) refletiu-se diretamente na política republicana brasileira. No Rio Grande do Sul, por questões históricas e culturais, o positivismo atuou com muita força e essa ideologia alimentou o Partido Republicano Rio-Grandense (PRR) o qual ditou a política gaúcha das três primeiras décadas do século XX.
Com o passar do tempo agregou-se a esse processo de construção cultural identitário, o surgimento do Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG). Quanto a isso, podemos dizer que existe uma sequência de fatos que alimentaram o processo de criação do imaginário social. Segundo informações encontradas no site temos: a fundação do Grêmio Gaúcho, por Cezimbra Jacques, em 1889; a primeira ronda gaúcha no Colégio Julio de Castilhos de 1947; a fundação do 35 CTG, em abril de 1948; a realização do 1º Congresso Tradicionalista Gaúcho em 1954; a constituição do Conselho Coordenador em 1959 e finalmente em 1966, em Tramandaí, no 12º Congresso Tradicionalista Gaúcho a organização da associação de entidades tradicionalistas, surgindo assim, o Movimento Tradicionalista Gaúcho que teve o seu Estatuto registrado em 27 de novembro em 1967.
Sem dúvida todos os fatos citados no parágrafo acima são relevantes e convergem para o atual sentimento de pertencimento e identidade do gaúcho. As manifestações culturais tradicionalistas crescem em número rapidamente e determina a criação da Lei Estadual nº 4.850, de 11 de dezembro de 1964, que oficializa a "Semana Farroupilha”.
O Art. 1º da Lei diz: É oficializada a "SEMANA FARROUPILHA" no Rio Grande do Sul a ser comemorada de 14 a 20 de setembro de cada ano, em homenagem e memória aos heróis farrapos. (Redação dada pela Lei n.º 8.715/88). Ao longo do tempo a Lei da Semana Farroupilha passou por várias atualizações entre novas redações e novas inclusões (2010).
O ano de 1964 foi o ano do Golpe Militar no Brasil e toda e qualquer aglomeração neste momento deveria ser regrada e ordenada de forma que atendesse aos interesses políticos da época. O caráter conservador da cultura tradicionalista não impôs um contra ponto ao modelo proposto na época. As ideias de ordem e progresso são absorvidas pelos tradicionalistas e os aspectos militarizantes passam a predominar na estética cultural do gaúcho. Surge um protocolo rígido para ser seguido e definir o formato do comportamento cultural tradicionalista. As representações artísticas, culturais e cívicas traduziam um homem soldado, guerreiro e fiel à sua “pátria”, suas fronteiras e as suas tradições. Nessa perspectiva História e Memória se confundem, se criam anacronismos vividos e revividos pela necessidade do ser e pertencer.
Atualmente a Semana Farroupilha é vivida intensamente por todo o território riograndense e mesmo fora dele, tanto no Brasil quanto em outros locais do mundo. Novas estéticas e comportamento foram sendo agregados, primeiro vieram os heróis e os demais homens. Eles estavam no topo da pirâmide de valores, depois as mulheres e as crianças foram ocupando seu espaço e se aproximaram deste mundo de guerras evocadas e de forças medidas. Elas incentivaram a dança, a poesia, a música, a culinária e o entretenimento através das invernadas, bailes e fandangos, enfim, sustentam a participação da família em um mundo talhado para os homens.
O tradicionalismo é uma cultura onde nada se perde, mas soma-se e transforma-se, porque mesmo a tradição se faz dinâmica com a certeza de manter os sentimentos de amor pela arte e pela cultura histórica ou imaginária. Ele conquistou o seu lugar na história do Rio Grande do Sul e por ter como referência os usos e costumes do gaúcho histórico vai talhando o gaúcho atual. Os CTGs são centros culturais que ruralizam o urbano, deixam tanto os moradores da cidade como os do campo à vontade para o encontro vital que envolve emoções e afetos possibilitando o convívio social. Os tradicionalistas são os responsáveis por manter os valores da Semana Farroupilha, através do símbolo da Chama Crioula nascida em 1947. Esta fica acessa no candieiro dos corações o ano inteiro, ano após ano...
O município de Guaíba por ter em sua história os fatores citados neste texto, incluindo patrimônios culturais que foram contemporâneos à Revolução Farroupilha e monumentos, como o busto a Gomes Jardim (que nesta semana completa 100 anos), tem esse período de comemorações como um acontecimento muito esperado pela comunidade não só tradicionalista.
Os aspectos citados no texto pertencem a uma reflexão resumida do muito que podemos analisar e expressar a respeito da maior e mais importante festa do Rio Grande do Sul e do município. Todavia, não são os únicos fatores que existem, há muito mais e quando se trata de história local surgem mais e mais importantes detalhes. Iremos continuar falando sobre o assunto ele merece a nossa atenção!
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