Repórter Guaibense

Segunda-feira, 06 de Julho de 2026

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Carlos Nobre e seu acervo

Por favor, olhem para o nosso Museu Histórico Carlos Nobre e seu acervo!

Carlos Nobre e seu acervo
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Imaginem uma cidade em que seu patrimônio histórico está desabando, virando ruínas, os monumentos, em sua maioria, estão abandonados. A biblioteca e museu possuem goteiras, antigas e persistentes goteiras. Muitos de seus antigos livros de registros e documentos, que contavam como a vida da cidade havia se formado, foram colocados no lixo e outros ainda tinham sido queimados...

Iniciando esta coluna, com o triste parágrafo acima, me dedico a falar novamente sobre a importância da preservação dos acervos bibliográficos, museológicos e arquivísticos do Município. Digo "novamente" porque faz 28 anos que insisto nesse assunto em Guaíba. E continuarei a insistir, não para por em desespero os gestores municipais com mais uma demanda, mas porque realmente o assunto merece uma atenção inquestionável. Para reforçar o que afirmo é só investigar a enorme coletânea referente a legislação arquivística existente e estudar a sua evolução no Brasil, desde o Decreto-Lei nº 25, de 30 de novembro de 1937.

Minha experiência na área da cultura e patrimônio histórico indica que não devemos baixar a guarda quanto a essa temática. Como percebi isto? Na prática, isso mesmo, atuando diretamente com esses magníficos recursos materiais, os documentos escritos, manuscritos ou impressos, primários ou secundários, não importa. Importa que eles me ensinaram muitas coisas, coisas essas que só quem se dedica ao minucioso mundo dos registros, seus suportes e conteúdo, sabe o porquê falar.

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A tarefa que me foi confiada de pôr em funcionamento o Museu Histórico Municipal Carlos Nobre (inaugurado em 10/09/1992), na gestão do prefeito Dr. Solon Tavares, para que juntamente com a equipe de trabalhadores do Museu este pudesse atender a comunidade, foi uma experiência ímpar. Eu havia saído da faculdade de História e iniciado minha carreira profissional na área da Educação. De repente me deparei com tamanho desafio. O prédio maravilhoso, lindo exemplar do estilo eclético construído em 1908, situado na Av. 7 de setembro e recentemente restaurado, precisava ter seu acervo organizado e suas dependências abertas ao público. Precisava também possuir um repertório de assuntos para serem expostos através de objetos e documentos que existiam de forma descontextualizada. Com o auxílio de profissionais da área e que se reuniam através do Sistema Estadual de Museus, fui adquirindo conhecimento, realizando formações e buscando soluções para as questões que surgiam na medida em que ia aprofundando as investigações históricas e organizando o Museu. E foi aí, que impelida a dar retorno para os questionamentos feitos pela comunidade e pela natureza do trabalho, que realizei inúmeras investidas que me levaram ao contato imperioso com as fontes históricas e suas condições de existência em Guaíba. A percepção de que as respostas ou parte delas, estavam nos antigos registros feitos no passado administrativo de nosso município, trouxe-me o peso da responsabilidade como profissional da área, por organizar a guarda e estudar as informações contidas nos documentos.

Todavia, mais uma janela se abriu. Não estava diante de um acervo, o qual encontrava-se organizado, livre do ataque dos insetos como cupins, baratas e traças e de fungos devastadores alimentados por um ambiente úmido e inadequado ao papel. Mas estava diante de tudo isso, e mais ainda: da triste realidade da não preservação de nossa história. A história depende das fontes e da boa manutenção destas. O trabalho da equipe do Museu se ampliou. Não se tratava exclusivamente de abrir o prédio e estar à disposição para receber escolas e demais visitantes, mostrar através de uma visita guiada os antigos objetos ou os grandes e amarelados livros do passado, mas também, de comunicar através da linguagem visual e sensorial qual o conteúdo de interesse e seu contexto.

Do que falavam as exposições? Como comunicar os assuntos e para quem eram dirigidas as pesquisas e os textos elaborados? Ora, precisávamos deles, sem sombra de dúvidas, eles que nos são tão indispensáveis e caros, os documentos históricos. E como a história também é feita de erros, o município colocou muitos documentos fora, por falta de conhecimento ou mesmo de interesse para com o assunto. Fogueiras queimaram papéis e livros de registros considerados “velhos”. O acervo documental vagou de um ambiente ao outro sem um mínimo de cuidado, foi abrigado em locais totalmente impróprios onde a chuva, os roedores e insetos inutilizaram mais e mais papéis. Foram inclusive encontrados no lixão da cidade, como na época um jornal regional noticiou. Além de tudo isso, ficaram sob a responsabilidade de funcionários sem a devida habilitação para tal. Lamentável, perdemos muitas e importantes informações.

Quando cheguei ao Museu para por o acervo em ordem, encontrei 400 códices amontoados largados no chão de uma das salas do Museu. Antes estiveram no antigo “Mercado Público”, depois vagaram inclusive pelo prédio do Hospital Regional, quando este esteve desativado e com obras inacabadas. Depois foram parar nas celas do prédio do antigo presídio municipal, desordenados, jogados em pirâmides de papel onde documentos do início do século XX, se misturavam aos dos anos 2000. Encontrei documentos em caixas de papelão, dividindo espaço em um pequeno depósito de produtos de limpeza, nos fundos da Secretaria de Turismo e Cultura. Céus! Foram tantos os absurdos que dava vontade de chorar! Mas foi perseguindo essa situação que consegui juntamente com um grupo de voluntários, reunir e levar para uma peça anexa ao Museu Carlos Nobre, vários documentos que seriam descartados. E lá eles se encontram desde 2005, a espera de que o município contrate serviços especializados de Arquivo ou abra concurso para Arquivista.

Diante de uma realidade praticamente ignorada pelos gestores, de pouca atenção ao patrimônio arquivístico e museológico do município é que faço mais uma vez este apelo: por favor, olhem para o nosso Museu Histórico Carlos Nobre e seu acervo! Ele agoniza, ele se encontra em péssimas condições de conservação e é nele que será guardado os feitos do presente. É no Museu, no Arquivo Público e Histórico que ficarão os feitos de hoje.

Olhem com responsabilidade e compreensão para as instituições de memória do nosso Município: Museu, Biblioteca, Arquivos Público e Histórico. Nossa memória e história coletivas não podem mais sobreviver a tanto descaso. O alicerce de nossa identidade cultural e moral, também se encontram nestas instituições. Lembro das palavras de um professor, arquivista e bibliotecário documentalista em um de seus cursos de formação, o qual tive a oportunidade de participar como aluna e que nunca mais esqueci: “se você quiser conhecer como é a gestão de um município, visite o arquivo deste lugar” e “localizar um documento é resolver problemas institucionais”. 

Qual o custo pela perda de uma informação institucionalizada? Pensemos a respeito...

Comentários:
Míriam Leão

Publicado por:

Míriam Leão

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