Diante de tantos assuntos para se desenvolver sobre a história de Guaíba, não consigo refutar a ideia de falar sobre a opressão e o racismo. Primeiramente esse é um assunto de abrangência histórica e mundial. As relações de poder que levam à opressão racial, fazem parte da interação entre os povos que seguem um repertório infinito de motivações. Podemos citar a luta por territórios, riquezas e recursos naturais, imposições de gênero, imposições de crenças religiosas, paradigmas científicos e principalmente o poder através da detenção tecnológica e bélica, onde este último tem sido incutido em nossos cérebros todos os dias através das mídias e seus conteúdos nada subliminares (isso para não esquecermos que quem manda no mundo é a tecnologia e a economia geridas por estruturas políticas, detentoras belicosas nacionalistas ou mesmo globalistas).
Trazendo para mais perto o assunto, as cenas abomináveis ocorridas em Porto Alegre, no dia 19 de novembro, com o assassinato de um homem negro nas dependências do super mercado Carrefour é mais um crime que materializa o racismo estrutural.
Vocês leitores, devem estar se perguntando o que a história de Guaíba tem a ver com isso? Respondo dizendo que a história de Guaíba está dentro da história do mundo e da história nacional, seja ela mais distante no tempo ou mesmo atual. E é dentro desta perspectiva que quero falar sobre o racismo no Brasil. Em primeiro lugar quero dizer que o racismo foi um conceito criado para justificar a opressão sobre o povo originário, os índios e logo em seguida, sobre o negro trazido à força da África, para ser explorado através da escravidão por quase 400 anos. Em nome do quê? Da manutenção do poder e da força do rei de Portugal apoiado pela Igreja Católica que viram no Brasil, infinitas possibilidades de exploração das riquezas minerais e demais recursos naturais; da manutenção do equilíbrio da balança comercial mercantilista; da produção extensiva e monocultura voltada a exportação; do desenvolvimento social e econômico direcionado para a elite branca e rica e para a burocracia administrativa que sustentou a coroa portuguesa. Esse período durou de 1500 a 7 de setembro de 1822, quando o Brasil se tornou independente de Portugal. Depois da Independência, a monarquia permaneceu como estrutura política e a economia continuou baseada na mão de obra escrava. O racismo e a opressão aos negros, através do sistema de escravidão perdurou até 1888, quando ocorreu a abolição da escravatura, fato histórico que não acabou com o racismo, pois este seguiu o seu ritmo destrutivo mesmo após a proclamação da república, em 15 de novembro de 1889.
Este mês fez 131 anos da república no Brasil, 132 anos da abolição da escravatura e 32 anos da promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil, que traz em seu Título II, Capítulo I, o Art 5º, com o seguinte texto: “ Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e a propriedade, (...)”.
A pergunta é: por que após 132 anos da abolição da escravatura e após 32 anos da promulgação da Constituição Federal, permanecem os atos de violência contra grupos ou indivíduos negros? Vamos a resposta. Porque o racismo foi criado, alimentado e sustentado oficialmente como ideologia de Estado, para justificar a escravidão negra por quase 400 anos. Essa construção de mentalidade contou na época, com o apoio da Igreja Católica e com as várias teorias raciais e científicas que afirmavam que a “raça branca europeia” era superior a “raça negra africana”. Precisamos prestar a atenção quanto ao surgimento do racismo moderno. A ideia da existência de diferentes raças dentro da espécie biológica humana, foi criada por um filósofo francês que viveu entre 1816 e 1882, Joseph Artur de Gobineau, que defendia a superioridade da raça branca. Todavia, sabemos que hoje, biologicamente não existem raças e sim uma grande variação fenótipa entre os seres humanos. Sendo assim, quase que a totalidade da comunidade científica não utiliza mais o conceito de raça do ponto de vista biológico.
Por outro lado, socialmente falando, o conceito de raça foi construído e permanece até hoje através de atitudes de preconceito, de discriminação e segregação racial. No direito criminal, o termo é citado justamente para tratar de questões geradas a partir da atribuição de valor comparativo, baseado em características físicas e sociais de um indivíduo ou grupo. Em outras palavras o termo raça está ligado ao racismo, que é jurídica e hoje moralmente, considerado um crime.
As diferenças dentro da espécie humana estão para além dos muitos e variados fenótipos, estão principalmente na construção cultural que define o conceito de etnicidade. A etnicidade é o conjunto dos padrões de comportamento como a língua, signos e símbolos, comida, vestuário, religião etc.
Quando falamos em ideologia racista, temos que entender que esse pensamento predominou em todas as áreas da estrutura de poder político, econômico e social, de maneira considerada socialmente correta e legalmente formal. Portanto, o racismo estrutural advém de um conjunto de atitudes de caráter normativo e/ou comportamental, aprovadas pelo poder político e econômico e balizadas pela normalização do preconceito e pela crença da existência de grupos étnicos superiores e outros inferiores. Essa maneira de pensar e agir resultará sempre em inevitável desigualdade social e em violência étnica e racial com sérias consequências ao bem coletivo.
Como nos tornamos racistas? O racismo é aprendido de geração em geração e as primeiras atitudes racistas são ensinadas pelos pais ou responsáveis. É dentro da família desde a tenra infância que ouvimos as piadas racistas, expressões e frases que afrontam a dignidade das mulheres e homens negros e/ou referentes às outras etnias. São os adultos que ensinam as crianças a serem racistas. Os adultos que vivem o racismo estrutural sem entenderem o que estão vivendo. são eles que repetem o que há cinco séculos vem ocorrendo. Ensinar o racismo para as crianças que nascem livres desta falácia é um crime que compromete a qualidade da humanidade no futuro.
Se ainda é necessário falar sobre a história de Guaíba e o racismo, conto a vocês leitores, que Guaíba, assim como qualquer outro município brasileiro, não fica fora deste contexto explicitado acima. Alguns exemplos? Está bem, vamos lá:
Meu querido e saudoso amigo e tio, Carlinhos Sant’Ana, em muitos de seus relatos contou-me que no interior do Cine Teatro Gomes Jardim (1917 a 1972), existia um lugar específico para a população negra sentar-se, esse local era conhecido como “poleiro”. O personagem histórico, Zé Toureiro, lembrado por muitos com carinho e saudade, passou por inúmeros constrangimentos, interpretados pelos agressores como sendo “brincadeira”, estes se valiam do deboche e da humilhação dirigidos a um homem incapaz de agredir alguém. Continuando... Até o início da segunda metade do século XX, havia um carnaval para os brancos e um carnaval para os negros e na década de 1980 um casal não pode entrar em um clube social por ser negro. Essas e muitas outras histórias racistas contra negros em Guaíba existiram e ainda existem.
Com certeza, nós professores já presenciamos alguma situação racista nas salas de aula e é aí que devemos intervir junto aos nossos alunos. Nesses momentos, precisamos seguir a aula e com a segurança de quem sabe o que está falando, provocar questionamentos e a reflexão sobre o assunto, sempre apontando em direção a uma educação antirracista. Vejo no meio escolar a oportunidade de falar sobre o racismo e suas consequências nefastas e quem sabe para muitos é nele o único ambiente para refletir sobre o tema. Não podemos nos omitir, calar e naturalizar o racismo, esse deverá ser combatido com Leis específicas, com informação, com cultura e muita educação, onde a Cultura de Paz e os Direitos Humanos sejam os princípios e ao mesmo tempo, os objetivos a serem alcançados através do currículo escolar. Façamos a nossa parte, como professores ou mesmo como responsáveis, para que as crianças sejam respeitadas em sua essência e assim, um dia, sejam adultos melhores do que aqueles que os criaram e os educaram.
Acredito no potencial dos jovens brasileiros e em sua capacidade de superação, o que levará ao convívio harmônico e ao respeito às diferenças étnicas e culturais. Mas para isso precisamos, hoje, questionar o senso comum e refletir sobre o racismo histórico e estrutural sem trégua. O futuro agradecerá, sigamos firmes nesse propósito.
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