Estamos na última semana antes do pleito do dia 15 de novembro. Muitos de nós já fizeram suas escolhas tanto para a Prefeitura, quanto para a Câmara de Vereadores. Entretanto, pelo que tudo indica, ainda temos muitos indecisos, principalmente para o cargo máximo do executivo.
Pensando em colaborar com as melhores escolhas, nossa coluna dessa semana apresentará as propostas para o Setor Cultural de acordo com as equipes de campanha dos candidatos ao passo municipal. Pedimos, no decorrer da semana passada, que cada um dos candidatos nos enviasse suas propostas para esse setor tão importante no desenvolvimento intelectual, social e econômico de nossa cidade.
Nesta coluna, caro leitor, você terá a oportunidade de se informar sobre as ações realizadas no decorrer do governo atual, analisar as suas propostas para o futuro em caso de reeleição, bem como as visões dos demais candidatos postulantes ao cargo em disputa. É uma ótima oportunidade de entender sobre o andamento da organização de nosso universo cultural local, escolher quais são as prioridades e quem pode ter mais a oferecer.
Por certo que a Cultura é apenas um dos fatores a serem observados dentro de nossas prioridades e ferramentas de construção de uma cidade melhor, porém, para além dos trabalhadores do setor, as políticas públicas serão importantes como suporte às áreas da Saúde, da Educação e da Segurança (sem contar o entretenimento para aliviar nossos dias).
O setor cultural é complexo, fomentando muito mais que oportunidades de fruição e apreciação artística. Este setor movimenta uma cadeia enorme de fornecedores e prestadores de serviços, estabelecendo e impulsionando o emprego e a renda de cidadãos locais, principalmente quando conjugado com o turismo.
Por isso o aprofundamento das propostas se faz necessário nesse momento de escolha. Quem vencer essa eleição, ficará responsável pela organização dos próximos quatro anos e a aproximação com este setor não pode ser apenas circunstancial. Apenas quem, de fato, entende e RESPEITA a importância, a complexidade e a abrangência desse setor poderá colocar em prática políticas públicas de qualidade e relevância.
Para que você possa tirar as suas próprias conclusões, colocaremos as respostas de cada um dos candidatos em sua versão integral. Começaremos pelos candidatos que estão em busca do primeiro mandato e terminaremos com as propostas da atual gestão que busca a reeleição. Para ajudar nessa análise, ao final de cada proposta, colocarei algumas das minhas impressões sobre o que nos foi enviado.
Sem mais delongas, respeitável público! Vamos ao que interessa!
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CAIO LARREA
"Em nosso plano de governo para cultura da cidade, temos como proposta a reabertura do Mercado Público com toda uma infraestrutura que venha agregar o agricultor com a feira municipal, o turista com as atrações locais e o comerciante com seu empreendimento dentro do local.
Iremos explorar a revitalização do nosso Matadouro São Geraldo. E por fim, a inauguração de nossa primeira rua coberta em Guaíba, na Rua Cônego Scherer.".
Considerações:
Temos aqui três propostas diretas: abertura do Mercado Público, revitalização do Matadouro São Geraldo e a inauguração da Cônego Scherer como rua coberta. Senti falta de um maior aprofundamento em cada uma destas propostas. Não sei se faltou tempo para o candidato ou alguém em sua equipe que tenha maior intimidade com as coisas do setor cultural.
Como o Mercado será utilizado? Eu consigo pensar em diversas formas de ocupação, mas quais são as ideias do candidato? Como a Cultura, em sua diversidade, será abraçada por este espaço tão valoroso?
Com relação ao Matadouro São Geraldo, precisamos entender qual será o argumento usado para convencer os donos da propriedade a mudarem de ideia após tantas décadas de descaso. Até onde se comenta, não é uma negociação que apetece aos proprietários ou até então não apareceu nenhuma ideia genial que os encante.
Além disso não ficou clara a utilidade pensada para o espaço em questão. Como esse espaço poderá abarcar a Cultura como entretenimento, sim, mas principalmente como lugar de criação de emprego, renda e desenvolvimento artístico. Essas informações são as que importam para quem vive e/ou trabalha e/ou aprecia a cultura.
Não podemos deixar de cobrar respostas mais amplas e fundamentadas. Já em relação à rua coberta, acredito que pode ser algo interessante do ponto de vista da novidade através da revitalização. Não sei quais são as implicações técnicas e ambientais para que isso se realize, mas fiquei muito curioso. Parece ser um projeto ousado. Merecia maior aprofundamento.
O que vai “rolar” sob essa cobertura? Como o setor cultural e o respeitável público serão beneficiados com esse empreendimento? Sinceramente gostaria que as propostas viessem um pouco mais detalhadas. Assim poderíamos realmente raciocinar sobre algo mais claro do ponto de vista da execução. Acho que o candidato perdeu uma boa oportunidade de nos apresentar melhor as suas ideias.
Percebo que seu plano de governo pensa a Cultura do ponto de vista do Turismo. Essa conjunção é perfeita, porém, de acordo com essas propostas, me parece, nesse caso, visar muito mais a exploração destes espaços como pontos turísticos do que de desenvolvimento artístico. Também gostaria de saber se, sob um governo PSL, continuaremos contando com uma Secretaria de Cultura no Município, já que, no âmbito federal, uma das primeiras iniciativas nocivas para a Cultura Nacional foi a extinção do Ministério da Cultura promovida pelo governo Bolsonaro.
Talvez na próxima oportunidade, a equipe de campanha do candidato possa nos explicar melhor as suas ideias.
GUTO POKORSKI
“Faremos o Fórum municipal da Cultura. Criaremos o plano municipal da cultura. Revitalizarei pontos históricos e culturais da cidade. Incentivarei os festivais de música e teatros. Darei total prioridade para talentos de nossa cidade. Lutaremos para reforma da ilha do presidio para termos mais um ponto de referência cultural. Incentivarei o festival de cinema hoje existente na escola Gomes Jardim. Secretário eleito pela comunidade.”.
Considerações:
Sobre as propostas do candidato Guto Pokorski também me restaram algumas dúvidas. Primeiramente acho importante ressaltar a importância da realização periódica dos Fóruns e Conferências municipais de Cultura. Estes eventos vitais para a organização cultural de nossa cidade estão previstos na Lei que regulamenta o nosso Sistema Municipal de Cultura (Lei Nº 3539, de 30 de agosto de 2017) e estavam na previsão do calendário do Conselho Municipal de Políticas Culturais para o ano de 2020. O Plano Municipal de Cultura (ferramenta indispensável para fazer parte do Sistema Nacional de Cultura de forma efetiva) também já existe e está em vigor desde o ano de 2014, com validade até 2024.
Acredito que devemos fazer uma revisão deste plano com o objetivo de saber como está o andamento das metas, compreender os dados, analisar as práticas e validar ou corrigir as práticas que levarão ao resultado esperado nesse plano plurianual de Cultura. Não há a necessidade de criar algo que já existe. Precisamos conhecer, entender como está funcionando e fazer o melhor uso da ferramenta.
Deixando isso claro, passo a analisar as outras propostas. A revitalização dos “pontos históricos e culturais da cidade” me parece algo sempre muito bem-vindo. Também senti falta de maiores aprofundamentos aqui neste ponto. Quais são os “pontos históricos e culturais da cidade”? De onde podem vir os recursos? Quanto é o orçamento pensado para estas ações necessárias?
Achei bastante empolgante a intenção de incentivar a realização de festivais de música e teatro. Nossa cidade possui muitos talentos e um público sempre ávido por atrações artísticas-culturais de qualidade. Acredito que este tipo de realização deve ser organizada pensando sempre na diversidade, na abrangência e no legado.
Se o candidato, em caso de eleição, tiver isso em conta e for capaz de estimular um ambiente de investimento na Cultura por parte do empresariado local, o trabalho pode ser facilitado e como consequência teremos incremento nos desenvolvimentos social e econômico. Essa boa construção poderá ajudar na realização da proposta de priorização dos profissionais locais.
Cabe ressaltar, apenas para deixar “anotado”, que investir nos trabalhadores locais também pode significar promover intercâmbios de conhecimentos com profissionais de outras cidades, estados, regiões. Nenhuma cidade, por si só, se basta com os conhecimentos ali já pré-existentes. De qualquer forma, gosto dessa proposta carinhosa que visa abraçar os profissionais locais. O que não me impede de pedir que na próxima oportunidade também seja mais aprofundado nesse aspecto.
Propostas para a Ilha das Pedras Brancas (Ilha do Presidio) também são imprescindíveis. Acredito que todos os candidatos devem ter este olhar sobre esse patrimônio importantíssimo para diversas áreas de interesse e estudo. Também carece de maior aprofundamento para sabermos qual é o planejamento para a execução dessa proposta de revitalização.
Apoio ao Festival de Cinema do Gomes Jardim será muito bem-vindo. Gostaria que ficasse claro em que nível esse apoio se daria e como viabilizar essa parceria entre a prefeitura e um Instituto Estadual. Com certeza a comunidade ganharia muito com isso e estaríamos fortalecendo o Festival de Cinema Estudantil mais antigo em atividade no Brasil. As perguntas são como e em que medida se daria este apoio?
Para encerrar os comentários sobre as propostas apresentadas pelo candidato Guto Pokorski, deixei para o final a mais instigante e, ao mesmo tempo, duvidosa proposta para o Setor Cultural. Esta, na verdade, não é uma proposta exclusiva para a Cultura. Um dos principais diferenciais da campanha deste candidato diz respeito à formação de sua equipe de secretários. Segundo seu plano de governo, a comunidade poderá escolher quem serão os responsáveis por cada pasta dentro da organização municipal. Confesso que meu espírito vibra com essa possibilidade, porém, ao mesmo tempo fico com uma pulga atrás da orelha.
Como isso seria organizado? No Fórum Municipal? Por qual método? Como garantir que haja equilíbrio entre os maiores e menores segmentos em número de envolvidos? Quem poderá se candidatar para o cargo de responsável pela Cultura? Quem decide quem poderá se candidatar? Quem poderia votar? Quem decide quem pode votar? Haveria uma espécie de prévia para se levantar as candidaturas? Quanto tempo para a execução desse processo? O mandato começa dia 1° de janeiro. Começaríamos o ano sem um responsável pela Cultura? Como seria a transição de gestão?
Não correríamos o risco de os setores com muito mais simpatizantes e poder de mobilização elegerem de forma desproporcional um representante limitado em relação ao significado diversidade cultural e políticas públicas? Não teríamos uma Secretaria subordinada aos interesses de um determinado grupo que o elegeu? São questões que ficam a disposição do candidato para maiores detalhamentos.
Vejo propostas feitas com muita boa vontade, mas precisamos de uma interação de fato com as rotinas do setor cultural. Essa proposta, pelo que eu sei, nunca foi conversada com o Conselho Municipal de Politicas Culturais. Quem quiser fazer um governo realmente popular, precisará ouvir de verdade a classe. E é importante começar pelas esferas oficiais legalmente eleitas pela sociedade, ou seja, os conselhos.
LÍBIA AQUINO
“Ao pensarmos a Cultura em Guaíba e observarmos nossos Patrimônios Históricos e Culturais (materiais e imateriais), percebemos que pouco valor temos dado à nossa história, às nossas memórias. Contudo, podemos valorizar a Cultura em nossa cidade, olhando para o nosso passado e para o nosso patrimônio com respeito, buscando resgatá-lo, revisá-lo, restaurá-lo, revitalizá-lo, ressignificá-lo, unindo forças, entre todos os setores da Cultura e das Artes, da Educação e da Economia, para a construção de um panorama futuro melhor. Deste modo, defendemos principalmente:
Criar um calendário de eventos culturais para o ano todo;
Acompanhar e incentivar as ações propostas pelo Conselho Municipal de Políticas Culturais;
Promover e incentivar ações culturais que atravessem as diversas expressões artísticas com ênfase às originadas na periferia da cidade;
Incentivar os artistas locais, através de eventos periódicos que se utilizem da música, do teatro, do cinema, da dança e outras manifestações culturais, nos bairros da cidade;
Valorizar e divulgar o patrimônio material e imaterial do município promovendo atividades que envolvam a visitação guiada e a pesquisa, como ferramentas de aprendizagem;
Reconhecer e valorizar o potencial turístico do município considerando seu patrimônio ambiental como territórios possíveis de serem visitados, de forma organizada e guiada por estudantes de turismo, bem como estudantes interessados em conhecer e divulgar o patrimônio ambiental e histórico da cidade;
Organizar curso de formação para estudantes, sobre o patrimônio histórico e cultural da cidade, como ferramenta que incentive o conhecimento e estabeleça uma relação de pertencimento entre os moradores e a cidade;
Fomentar as atividades de modo a desenvolver uma economia da cultura que contemple as cadeias produtivas locais (gastronomia, hotelaria, serviços).”.
Considerações:
Como já era de se esperar, a proposta do PSOL viria conectada com diversos anseios manifestados pela classe artística nos fóruns de discussão popular sobre a Cultura. Geralmente é um partido com um respaldo técnico muito bem embasado e aqui em Guaíba não seria diferente, já que a cidade também possui mentes brilhantes e atentas aos sinônimos de inclusão social, preservação de patrimônios históricos, culturais e naturais.
A ideia central do plano estratégico apresentado para a Cultura concentra em si o espírito da articulação, buscando estimular o trabalho em rede e a construção coletiva.
“Acompanhar e incentivar as ações propostas pelo Conselho Municipal de Políticas Culturais”, além de ser uma atitude no mínimo inteligente, significa fortalecer o poder do fluxo democrático para a tomada de decisões. “Promover e incentivar ações culturais que atravessem as diversas expressões artísticas com ênfase às originadas na periferia da cidade” é saber usar as diversas formas de expressão como ferramentas de desenvolvimento social.
Precisamos reconhecer o poder da cultura. Aqui a dúvida que sempre fica é sobre a forma de realização dessas ações. Como essa articulação vai encontrar recursos para que seja efetiva do ponto de vista da própria execução e da perspectiva de legado? “Incentivar os artistas locais, através de eventos periódicos que se utilizem da música, do teatro, do cinema, da dança e outras manifestações culturais, nos bairros da cidade” é algo que nos enche de alegria e esperança.
Gostaria que, em alguma oportunidade, a candidata nos falasse também sobre as ações de fomento à Cultura durante os primeiros meses de governo que devem, infelizmente, ainda estar sob os efeitos da pandemia. Os eventos são nossa forma básica de renda. Como contribuir para a diminuição dos prejuízos? Que tipo de estratégia visando a renda e a fruição artística poderá ser traçada dentro dos limites sanitários? O setor deve esperar a normalidade, mas também precisa encontrar caminhos para a sobrevivência de seus trabalhadores.
As propostas que visam a educação para a integração e valorização dos patrimônios me parecem bastante auspiciosas. Esse “Quarteto Fantástico” (Cultura, Turismo, Educação e Meio Ambiente) quando trabalha junto gera maravilhas com potencial incalculável e bens com valores intangíveis.
As propostas do PSOL também parecem alinhadas com as noções de identidade e pertencimento, o que acaba favorecendo o desenvolvimento da qualidade do nosso futuro enquanto comunidade plural, porém com uma essência local. Acho interessante obter mais informações para entender como isso pode sair do papel de forma que seja uma política permanente ou pelo menos de longo prazo.
Primeira proposta, até aqui, que fala sobre “fomentar as atividades de modo a desenvolver uma economia da cultura que contemple as cadeias produtivas locais”.
Acho esse um dos principais aspectos a ser levado em conta e me pareceram, de certa forma, negligenciados nas propostas analisadas anteriormente. Nas entrelinhas, com esforço de boa vontade e preenchimento das lacunas deixadas por textos menos aprofundados, podemos encontrar, de relance, uma ideia de como a cadeia produtiva da economia da cultura poderia ser movimentada pelas propostas.
Se o governante entender o setor cultural como um setor da economia e souber expressar isso em palavras, vai encontrar menos dificuldades na condução dos assuntos pertinentes ao tema.
MARCELO MARANATA
“Dentre as prioridades do governo Maranata, a Cultura tem amplo destaque, para que atinja a toda a população, abrindo espaço para diferentes culturas, ações e iniciativas culturais.
Em nosso Governo, teremos ações de gestão compartilhada, com ênfase na criação do programa “Cultura para Todos", oferecendo ações integradas nas escolas e espaços públicos, estimulando e trabalhando o lado artístico de cada aluno.
Será criado, também, o projeto “Vida nas Praças”, incentivando as diversas manifestações culturais, tanto no Centro como nos bairros do Município.
Aprimoramento da lei municipal de incentivo à cultura, garantindo a participação representativa das classes culturais, valorizando e promovendo os artistas locais.
Incentivo real à cultura, com enfoque na valorização do artista e na geração de oportunidade e renda.
Ampliar as ações culturais como o Festival Nacional do Cinema Estudantil em nossa cidade, e, respaldar o trabalho realizado pelo Conselho Municipal de Cultura.”.
Considerações:
Outra proposta com um pouco mais de aprofundamento, mas que carece de maiores esclarecimentos. Quais serão as ações propostas “para que atinja a toda a população, abrindo espaço para diferentes culturas, ações e iniciativas culturais”? Posta desta forma, me parece uma daquelas frases genéricas que visam alcançar o máximo de pessoas com o mínimo de esforço.
Este ambiente, que estimula a expressão e fruição cultural de forma democrática, é a base para a inclusão e representatividade, devendo ser aguardado com euforia por quem acredita na pluralidade. Aplaudo, mas apresento minhas dúvidas quanto a isso:
Quais expressões o candidato percebe que estão com menos espaço que o devido? Como resolver isso de forma que promova satisfação para o trabalhador envolvido, ativação da cadeia produtiva e a consequente geração de emprego, renda e legado cultural?
O projeto “Cultura para Todos", que visa organizar ações integradas nas escolas e espaços públicos, a fim de estimular e trabalhar o lado artístico dos estudantes, me parece uma ideia que vem ao encontro dos anseios da comunidade. A escola sem dúvida é um lugar que pode contribuir muito para o desenvolvimento artístico e cultural na comunidade. A proximidade com as crianças e a disponibilidade de espaços podem ser fatores que facilitem a execução dos projetos.
Aqui minha dúvida é quanto à forma de aplicação prática da ideia. Como será contratada a mão de obra especializada para que haja efetividade na execução das ações propostas? O projeto visa gerar emprego e renda para os trabalhadores, ou está baseado no voluntariado? Como garantir a qualidade e capacidade técnica dos participantes no projeto? Cultura não é um passatempo e não pode ficar na dependência dos esforços de abnegados com muita vontade e pouco aprimoramento.
Aparentemente é um bom projeto, mas não pode ser levado como algo sem necessidades específicas. O candidato precisa estar atento a isso. Nem todo simpatizante da cultura é um oficineiro ou mestre com capacidade técnica e responsabilidade ética.
O projeto “Vida nas Praças” vem ao encontro de uma nova realidade que vai cada vez mais nos aproximar da vida ao ar livre. Minha dúvida é quanto ao formato e como isso será trabalhado em tempos de pandemia. Aqui cabe a mesma pergunta feita durante as considerações referentes ao plano da candidata LÍbia Aquino: Como manter o fomento às ações culturais e promover o acesso a renda diante das NECESSÁRIAS restrições sanitárias que devem continuar nos primeiros meses de gestão? Quais seriam os pontos que seriam contemplados por esse “aprimoramento da lei municipal de incentivo à cultura”? E o que significa, nesse contexto, garantir “a participação representativa das classes culturais, valorizando e promovendo os artistas locais”?
São frases bonitas, porém apenas colocadas assim, carecem de maiores detalhes. Acho que o fortalecimento do Conselho Municipal de Políticas Culturais é uma forma de “cortar caminho”, proporcionando a participação democrática, agindo em busca de uma construção ampla e diversa.
Fiquei curioso sobre qual seria o conceito de “Incentivo real à cultura”. Seria uma espécie de provocação à atual gestão, ou tem algum conceito maior por trás? Teria a ver apenas com o mencionado “enfoque na valorização do artista e na geração de oportunidade e renda”? (Que precisa estar presente em todos os planos de campanha).
O que se considera “incentivo real”? Em que esfera e proporção este incentivo atua? Pode ser que as respostas para as minhas dúvidas estejam em algum material de campanha, porém acredito que todo lugar é um bom lugar para propagar (e propagandear) as boas ideias. Ainda mais em tempos de eleição.
Uma das propostas também se refere de forma direta ao Festival Estudantil de Cinema do Gomes Jardim. Deixo os mesmos questionamentos apontados na proposta apresentada pelo candidato Guto Pokorski. O Festival é uma joia e deve ser tratado como tal, sendo valorizado e não utilizado como enfeite de plano de governo. O Festival precisa ser abraçado pela comunidade e, de acordo com a vontade do seu coordenador, decidir se deve extrapolar os muros da instituição ou, mantendo-se sob o teto e regras da valorosa instituição que o abrigou desde sempre, receber o auxílio de acordo com as relações possíveis entre poderes de esferas diferentes em articulação com iniciativas privadas. Nada impossível de colocar em prática, mas que precisa ser tratado com a seriedade com que se trata um patrimônio.
O candidato promete dar respaldo para as ações do Conselho Municipal de Políticas Culturais. Importante. Democrático. Necessário. Consta inclusive na Lei do Sistema Municipal de Cultura. Que bom que ele está consciente disso. Espero que os outros candidatos tenham consciência disso também.
O Conselho é um órgão paritário. Com representantes eleitos de forma direta dentro de cada segmento com cadeira garantida na formação imposta pelo regimento atual. O mandato atual se estende até o final do próximo ano e, quem quer que vença, precisará entrar em sintonia com um conselho plural e democraticamente eleito. O Conselho continuará sendo muito importante em qualquer um dos cenários pós-eleições. Uma possível transição será como trocar o pneu com a roda andando.
Estamos em meio a execução das ações previstas pela lei Aldir Blanc. O Conselho também será a memória disso, mas será necessária a montagem de uma equipe com experiência e capacidade técnica. Haverá uma Secretaria de Cultura para tomar conta desse plano de governo e das ações referentes a Lei de Emergência Cultural? Quero supor que sim. E, nesse caso, quem seria a pessoa responsável por essa pasta? Com certeza o trabalhador da Cultura quer saber quem cada candidato está pensando em indicar para esse setor tão complexo e potente.
NARCISO
“Conceder a empreendedores que possam explorar a orla do Guaíba com turismos aquáticos;
Elaborar o programa mais esporte, otimizando e impulsionando torneios da cidade;
Inserir a Reculuta como evento do calendário do município destinando verba adequada para a realização de tal evento;
Juntar-se as medidas de audiovisual e teatrais da cidade, impulsionando com os professores que hoje trabalham na área para que os projetos se encaixem nos programas do município e que possam ter verbas destinadas para o fomento da cultura e das artes.”.
Considerações:
Analisando as respostas do candidato Pedro Narciso podemos identificar uma certa confusão na hora de separar os segmentos Cultura e Turismo. Como dito antes, essa relação é muito potente e, muito embora converse perfeitamente com o Esporte e o Lazer, não são condições basilares para haver atividade cultural. Essa confusão e provável limitação de orientação acerca do conceito de Cultura gera alguns mal entendidos e a dilatação desse conceito de forma imperfeita.
Talvez isso tenha complicado a compreensão das frases “conceder a empreendedores que possam explorar a orla do Guaíba com turismos aquáticos”, e “elaborar o programa mais esporte, otimizando e impulsionando torneios da cidade”. Não sei se foi confusão ou se faltou tempo (dedicação?) para elaborar melhor essa relação com a cultura. Eu consigo pensar como encaixar a Cultura nessa ideia genérica, mas e o eleitor? Será que todos os trabalhadores da Cultura entenderiam?
Tirando isso, o restante me parece bastante plausível. A Reculuta da Canção Crioula já é patrimônio cultural reconhecido por lei e deve voltar a fazer parte da nossa rotina cultural como instrumento de fomento a cultura e formação de novos talentos. A última proposta, que versa sobre o apoio ao audiovisual e ao teatro, com a participação dos professores sempre transita por um terreno muito fértil para as melhorias sociais.
Acho que pode ser pensado e amadurecido de forma que se torne orgânico com os planos de ensino das escolas, utilizando os professores com disponibilidade e habilidade para tais programas, porém sem deixar de lado a contratação de mão de obra especializada para garantir as boas práticas, estimulando a geração de emprego e renda para os PROFISSIONAIS do setor artístico-cultural. Isso fortalecerá o nosso micro cosmos cultural. Voluntariado é lindo, mas precisamos de políticas públicas que reflitam também na renda.
Neste caso também gostaria de saber se continuaríamos com um órgão responsável pela Cultura ou se viraria um puxadinho improvisado dentro de outra pasta.
RUDINEI FERNANDES
“Guaíba possui um universo plural e muito rico de produções culturais e artísticas. É por isso que precisa de uma gestão de verdade na área da Cultura, não uma Secretaria que seja uma produtora de eventos.
Precisamos oferecer a nossos artistas espaços apropriados para que o Teatro, a Música, a Literatura, o Cinema, a Fotografia, entre outras manifestações, se apresentem no centro, nos bairros e nas vilas.
Ao mesmo tempo, é papel do poder público criar políticas de incentivo para que criemos públicos para essas manifestações artísticas e culturais dentro de nossa comunidade, especialmente dentro de nossas escolas. E o Conselho Municipal de Políticas Culturais precisa ser um fórum parceiro e protagonista de todo este processo.
Propostas:
- Mercado da Cultura: o antigo Mercado Público recebeu R$ 300 mil do Orçamento Participativo, durante o governo Tarso Genro. Até hoje, porém, segue abandonado, um emblema do descaso como o poder público trata a Cultura em nossa cidade. Vamos recuperar esses anos perdidos, investir os recursos destinados pelo estado e transformar o Mercado Público num espaço para apresentações, oficinas, workshops, exposições, um lugar que seja a referência das ações públicas culturais em Guaíba.
- Ao mesmo tempo, precisamos descentralizar essas apresentações, oficinas, etc. Vamos estabelecer parcerias com associações, escolas e demais entidades civis para levarmos a Cultura para dentro dos nossos bairros e vilas. O acesso à Cultura é um direito de todos.
- Matadouro São Geraldo: a prefeitura precisa mediar, junto aos proprietários, uma maneira de garantirmos a preservação das ruínas do Matadouro, a viabilidade financeira de investimentos que respeitem seu tombamento e ao mesmo tempo entreguem à nossa cidade um espaço de memória, cultura e visitação.
- Biblioteca itinerante: Vamos levar, uma vez por mês, o acervo da biblioteca municipal para dentro dos bairros e vilas.
- Vamos fazer parcerias com coletivos de arte para realizarmos oficinas de poesia, teatro, cinema, dança, música, entre outras artes, nos bairros e vilas da nossa cidade.”.
Considerações:
O texto começa com uma ótima frase de impacto: “Guaíba possui um universo plural e muito rico de produções culturais e artísticas.”. Não é apenas uma frase de impacto, é uma sentença. Uma constatação da realidade que merece ser ressaltada para que todos os candidatos leiam, e não esqueçam: Guaíba possui um universo plural e muito rico de produções culturais e artísticas.
Não se esperava uma percepção diferente vindo de um partido com diversas lideranças provenientes do meio cultural. Chega a soar quase como obviedade, mas precisa ser dito sempre.
A segunda frase também é uma frase de efeito: “É por isso que precisa de uma gestão de verdade na área da Cultura, não uma Secretaria que seja uma produtora de eventos.”. Realmente causa algum impacto e, à primeira vista, é genial. Uma daquelas frases que funcionam bem nas redes sociais. Porém me soa mais como uma afronta a gestão atual do que uma correspondência fidedigna à realidade.
Sempre haverá críticas em qualquer que seja a gestão, mas resumir o que acontece na Secretaria de Cultura única e exclusivamente aos eventos que são de maior comoção pública, é desvalorizar as outras iniciativas culturais de menor visibilidade (portanto menos conhecidas) e empurrá-las para a invisibilidade como se não existissem.
Não será dessa forma que teremos um ambiente cultural equilibrado nessa cidade. rases de efeito cheias de boas intenções podem colocar por água abaixo anos de articulação dos membros da sociedade civil. Para isso é importante que haja um Conselho forte e atuante.
Boa parte das reclamações que criticam a tal secretaria de eventos, podem ser direcionadas ao Conselho. Este tem condições de dirimir dúvidas e encaminhar demandas para que sejam discutidas de forma democrática. Isso corrobora com a premissa exposta na proposta e que prega que o Conselho de Políticas Culturais deve ser “um fórum parceiro e protagonista de todo este processo”. Passando essa ressalva, vamos à análise das propostas apresentadas:
Acho importante que se busque desde já maneiras criativas de melhorar as nossas condições de trabalho. Seja através da criação e manutenção de espaços apropriados, seja na viabilização de políticas de ocupação de praças e demais espaços públicos existentes, seja para a formação de público local e para geração de emprego e renda.
Aparentemente, as propostas apresentadas estão em consonância com essas necessidades. Versam sobre a importância do poder público nessa organização das políticas culturais, sobre a colaboração com a Educação e sobre a participação popular.
O projeto do Mercado Cultural sempre encanta. Seguimos esperando ele sair do papel e se tornar um importante instrumento cultural. Ao que se sabe as obras estão em processo de licitação e ainda precisa levantar mais recursos para a sua conclusão. Seria importante que o candidato se inteirasse sobre os valores disponíveis e até que ponto esses recursos podem concluir a obra e equipar de forma adequada para as práticas propostas. No caso de os recursos não serem suficientes, quais seriam as possíveis fontes de recursos para a conclusão desta obra de importância e significado para a cidade?
A proposta envolvendo o Matadouro São Geraldo me pareceu muito sensata e com os pés na realidade. Não se pode prometer nada sem que haja um grande trabalho de mediação com os proprietários do imóvel. Infelizmente, aquele patrimônio parece fadado ao desmoronamento. Promessas que vão além de uma tentativa de buscar uma solução, mostram-se como ilusão.
Outro projeto interessante fala sobre as Bibliotecas nos bairros. É uma ideia que se for melhor lapidada pode gerar ótimos frutos. Não há a necessidade de tirar o acervo de dentro da Biblioteca Pública Municipal. Existem fundos específicos para fomento a leitura e um setor federal específico para a criação e manutenção de bibliotecas públicas e comunitárias. Pode-se manter nosso acervo da Darcy Azambuja disponível e protegido dentro das necessidades dos livros, ao mesmo tempo em que se desenvolvem outras bibliotecas itinerantes e comunitárias.
De qualquer forma, todas as iniciativas que, dentro dos parâmetros técnicos, visem o estímulo a leitura devem ser aplaudidas e abraçadas de forma carinhosa. A proposta que pretende “fazer parcerias com coletivos de arte para realização de oficinas de poesia, teatro, cinema, dança, música, entre outras artes, nos bairros e vilas da nossa cidade”, vem ao encontro dos anseios dos trabalhadores, praticantes e simpatizantes das mais diversas formas de expressão artística e cultural. Gostaria que o candidato tivesse sido um pouco mais aprofundado nessa proposta, pois é um dos temas que mais interessam aos trabalhadores da cultura.
Assim como nos outros casos, as propostas não parecem levar muito em conta o período pandêmico. Todos já muito focados em grandes mobilizações para o momento futuro, porém pouco atentos às necessidades especiais que os primeiros meses ainda demandaram para o setor cultural.
Tendo visto as propostas dos candidatos ao primeiro mandato na prefeitura, partimos para a última análise. É a vez da equipe do atual prefeito, candidato a reeleição, José Sperotto, defender os feitos de sua gestão e projetar os próximos passos em caso de reeleição. Com a palavra, a equipe do prefeito:
JOSÉ SPEROTTO
“Guaíba está habilitado para qualquer projeto, programa ou repasse para a cultura em todas as esferas.
Temos um Plano Municipal de Cultura e um Conselho Municipal de Políticas Públicas ativo e atuante; aderimos aos planos Estadual e Nacional de Cultura e a Lei que instituiu o Sistema Municipal de Cultura em 2017. Significa dizer, em termos práticos, que estamos com “o dever de casa” feito e que o tanto que avançamos até aqui em estruturação, políticas culturais e na construção feita em conjunto com os representantes do setor, nos coloca em uma posição privilegiada e nos traz vantagens na disputa por mais verbas e mais investimentos.
O nível de organização que alcançamos nos projetou a um lugar de muito destaque a nível estadual e, durante a implementação da Lei Aldir Blanc de Emergência Cultural, ficou claro que escolhemos o caminho mais acertado. Somos hoje parte de um grupo seleto de municípios com todos os elementos para acessar os recursos da Lei sem restrição. Isso é resultado de um trabalho intenso por parte desta administração no estudo dos mecanismos legais que possam impulsionar a cultura, e da manutenção de um canal de comunicação aberto e franco com a classe que dela vive.
Era um objetivo familiarizar nossos artistas e nossos trabalhadores da cultura com os editais e esse é um processo que já iniciamos com uma resposta muito promissora da comunidade cultural.
A formalização resultante dessas ações trouxe a visibilidade aos artistas e a possibilidade para que se constituíssem enquanto pessoas jurídicas e, a partir daí, adotarem uma postura mais ativa e influente, como engrenagens imprescindíveis dentro dessa máquina econômica que a cultura faz girar. A nossa intenção é acelerar esse processo de formalização, para que se possa lançar mais editais e fechar mais contratos, sabendo que os artistas terão proximidade com essas ferramentas e que apresentarão seus currículos, portfólios ou releases da maneira profissional e sem dificuldades.
Nosso objetivo é que a cidade se torne a empresa do artista, e em que cada um dos seus espaços a arte aconteça de forma orgânica e ininterrupta. A descentralização das atividades culturais, à atenção ao que é rural e periférico, a valorização da identidade das comunidades e da sua autoestima. Um processo que já foi iniciado em eventos nos bairros afastados da região central e que agora será retomado e ampliado tão logo acabem as restrições à circulação.
As propostas desenvolvidas a partir dessa visão resultaram em projetos como o Arte por Toda Parte para que arte ocupe os diversos espaços, O Click Guaíba e o Navegando na Literatura, para que se contemple, se registre e se descreva as belezas na cidade; Música Para Todos para que a música tome nossas praças, assim como o Teatrando e Guaíba em Cena, que aproximarão nossa população das artes cênicas e dramaturgia. Mãos que Criam, para artesãos e escultores, entre outros. Todos têm como um fim comum a disseminação da arte e da cultura para todos os lugares que elas possam estar.
Temos a visão de Guaíba como um circuito artístico permanente e um celeiro cultural, onde possamos explorar essas riquezas pelos seus aspectos econômicos, mas onde também possamos fortalecer as questões existenciais, profundas e filosóficas do fazer artístico, bem como os aspectos mais basilares da cultura, naqueles elementos que explicam quem somos, como somos e de que nos constituímos enquanto povo; nossa subjetividade e nossa identidade.
E da identidade já bem entendida e construída que temos, teremos as reafirmações materiais, pois somos o Berço da Revolução Farroupilha e faremos da Vitrine Cultural o Memorial dessa importante história; teremos o Mercado Cultural (antigo Mercado Público) que já está em processo licitatório e o Museu do Gaúcho. Também está prevista a reforma do nosso querido Museu Carlos Nobre, tudo feito no intuito de preservar e valorizar, não só o bem que é material, mas o que é imaterial, como no reconhecimento formal das celebrações de Iemanjá que registramos, e a Reculuta da Canção Crioula, também registrada como bem imaterial no ano passado e retomada neste ano numa linda edição virtual.
Iremos seguir fortalecendo as celebrações e eventos tradicionais como a Feira do Livro, da Cultura Popular, das Manifestações Religiosas.
São muitas as metas estabelecidas e muitas as agendas a serem cumpridas, porém tudo isso que foi citado já foi iniciado ou implementado, e tudo depende de garantias sólidas de continuidade. Somos orgulhosos do que construímos até aqui, mas estamos cientes de que não é o momento para uma mudança de direção.
A cultura é dinâmica e é estática. É evolução e preservação. É o resgatado e o reinventado. A cultura é ampla e é muitas coisas ao mesmo tempo, e por isso precisamos de uma administração que tenha uma longa caminhada já percorrida nesse setor e um conhecimento embasado na teoria, mas exercitado na prática.”.
Considerações:
As propostas da atual gestão vieram por meio dessa carta intitulada Guaíba e a maturidade alcançada na aplicação de políticas culturais. Nela estão expostas as conquistas do mandato e as próximas realizações encaminhadas.
Vale ressaltar que o trabalho vem sendo feito ao longo das gestões em que a secretária Cláudia Mara está à frente da Secretaria Municipal de Turismo, Desporto e Cultura. Sem dúvidas, nos últimos anos tivemos diversos avanços no que diz respeito à profissionalização dos agentes culturais de nossa cidade e isso foi uma construção coletiva.
Nosso município é um dos poucos do Estado que possui o dito “CPF da Cultura” (Conselho, Plano e Fundo de Cultura). Isso, antes de ser uma vergonha para a esmagadora maioria dos municípios gaúchos, é motivo de orgulho para nós. Isso foi construído e vai ficar para sempre. Precisamos reconhecer os pontos positivos, sim. Entender que o trabalho em uma secretaria vai muito além do que se pode ver em praça pública.
Existe um trabalho de base que precisa ser feito diariamente. Esse trabalho precisa ser executado por pessoas com conhecimento e capacidade técnica. O que nós precisamos exigir, dentro de um eventual segundo mandato do atual prefeito, é a consolidação e ampliação da equipe técnica com capacidade para gerenciar as demandas e continuar batalhando de forma qualificada com o intuito de trazer mais recursos para o município.
Fico muito contente com o anúncio referente ao Memorial na Vitrine Cultural, da licitação das obras do Mercado Cultural (também citado dentro das propostas de outros candidatos), da criação do Museu do Gaúcho e da reforma do querido Museu Carlos Nobre. São espaços importantes e que contribuirão ainda mais para o contexto local.
Como profissional das Artes Cênicas, sinto falta de um espaço mais apropriado para a realização de ensaios. Mais do que um espaço de apresentação, necessitamos de um espaço para criação e armazenamento do nosso material cênico. Quem sabe futuramente alguém propõe a criação de um espaço voltado para o suporte aos grupos locais. Isso contribuiria bastante para a qualidade das nossas montagens profissionais ajudando, tanto quanto o catamarã, a trazer visitantes para a nossa cidade.
Como a gestão poderia trabalhar para colocar essa ambição em prática? Vai depender do poder de articulação do poder público e vai precisar encontrar o setor organizado. Cada artista é um embaixador de nossa cidade e merece as melhores condições possíveis de desenvolvimento, porém, para que isso aconteça, precisamos continuar nutrindo um ambiente de tranquilidade e construção coletiva.
Acredito que a implantação da Cultura de Editais em nosso município também vai contribuir para uma distribuição justa e equilibrada dos recursos destinados ao setor. Precisamos ver como as coisas ocorrerão na prática. A expectativa é grande e a pressão maior ainda. A Lei Emergencial Cultural acabou trazendo a oportunidade de evolução dos processos, algo ainda mais complicado durante uma Pandemia.
Percebe-se também a tendência a oferta de opções descentralizadas. A expansão para os bairros poderá ser uma opção para diluir na cidade as opções culturais evitando aglomerações. Também será preciso entender, tendo em vista que estamos distantes de uma solução, como será a rotina nos próximos meses e como pensam em contribuir para a sobrevivência de trabalhadores e iniciativas durante o restante do período pandêmico.
Os recursos da Lei de Emergência Cultural devem, em muitos casos, ajudar com dívidas adquiridas até o presente momento, porém ainda temos mais algum tempo de trevas e/ou adaptações possíveis e os prejuízos continuam para quem vive exclusivamente de sua produção. Em caso de um novo mandato da atual gestão, essas questões precisarão continuar sobre a mesa, na pauta do dia e com toda experiência adquirida concentrada para encontrar saídas seguras e respeitosas.
Acredito também que as críticas que se apresentam durante o período eleitoral devem ser analisadas com humildade e frieza. Algumas são ataques eleitoreiros. Uma boa parte pode ser fruto de equívocos de comunicação e/ou entendimento.
Outras críticas são genuínas e justificadas. O fato é que uma equipe bem treinada poderá receber essas críticas e transformar em projetos de qualidade e relevância. Quem sabe não seja a hora de tentar garantir a permanência da qualidade dos processos por meio de um concurso público voltado para a contratação de mão de obra especializada para o setor?
Cultura se faz com ações imediatas, porém também pensadas para uma realidade a longo prazo.Um funcionário de carreira é uma memória viva. Conhece os processos que funcionam e os que não tiveram êxito. Isso poderá ser a diferença entre o sucesso e o fracasso das ações com o pensamento no futuro.
Conclusão:
Independentemente de quem vença, a sociedade deve exigir que não se perca nada do que foi conquistado de positivo. Não podemos voltar atrás. Precisamos pensar no daqui para frente e estarmos sintonizados com o que há de mais moderno na gestão cultural. Precisamos saber quem estará com a responsabilidade do comando das ações. Quem vai lutar pelos interesses da Cultura local além das fronteiras da cidade.
Nossa Cultura precisa ser pensada de maneira profissional, com o auxílio de profissionais. Deve ser pensada como elemento importante dentro de uma cidade relevante em uma região muito promissora do ponto de vista Cultural, Turístico e Natural. Precisamos de articulação além dos nossos limites geográficos.
Além desses aspectos estratégicos, também precisamos abrir os olhos para a amplitude do conceito de cultura. Senti falta de mais falas que levassem em conta temas como os povos originários, manifestações afro-brasileiras e outras formas de diversidade. Precisamos constantemente trabalhar contra a invisibilidade de qualquer forma de expressão e vivência cultural. Precisamos entender a beleza da diversidade e utilizar isso em favor do desenvolvimento de nossa gente e de nossa economia.
Isso não se faz de forma aventureira. Isso se faz com respaldo técnico. Portanto, Independentemente de qualquer resultado, cobre a presença de profissionais no comando de nosso setor cultural.
Essa foi a minha contribuição para facilitar a tua escolha. Espero ter ajudado. Agora é tudo contigo. Analise com maturidade e tire as tuas próprias conclusões, o poder está na ponta do teu dedo no domingo. Boa escolha para você e boa sorte para todos nós.
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