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Sexta-feira, 21 de Agosto de 2026

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Entre a caridade e o descarte

Praticar um ato de bondade como a doação, devemos pensar na caridade...

Entre a caridade e o descarte
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Eu lembro sempre dos conselhos daquele avô. Um avô ávido que não se eximia das correções, com seu chinelo de couro batendo nas pernas, as horas que me colocava sentado no banquinho de castigo e nada disso me faz diminuir o amor por meu carrancudo, mas querido avô.

Don Barulho foi pra mim um ícone, uma figura que sem estudo e sem cultura formal, apresentava uma dialética própria e uma filosofia humana desigual. Era quase um Platão de bombacha.

Pois certa feita minha avó, que parecia uma flor de maçanilha com aqueles seus cabelos branquinhos e a cara amarelida, pegou umas roupas do meu avô e disse que iria doar.

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Dom Barulho mais que depressa corrigiu-a, que usasse as roupas para trapos de casa ou colocasse no lixo.

Eu atônito pensei ser meu avô um velho avarento, desse que não dá nada pra ninguém, mas em seguida, ele próprio chicoteou meus pensamentos com suas sábias e certeiras palavras.

Aprendizado pra vida toda. Meu avô fitou minha avó com ar de carinho, olhou-a ternamente e disse que estava equivocada ao pensar no ato de doar roupas que não serviam mais por estarem decompostas, rasgadas ou com alguma imperfeição notória.

Seria como um insulto ao receptor de tal vestimenta, afinal a estima de quem veste algo que ganhou, já rasgado ou desfigurado, não deve ficar em sintonia com a sociedade a sua volta.

Meu avô fez uma pausa na fala, aguardou um momento para verificar se minha avó retrucaria ou contra argumentaria, mas equivocou-se, ela seguiu escutando sua tese de doação ou descarte.

Ele seguiu, firme e ávido de que estava trazendo a razão o entendimento de doação à minha avó.

Quando queremos praticar um ato de bondade como a doação, devemos pensar na caridade. Caridade vem de carinho, de amor ao próximo, que ato de amor entrega algo em farrapos para alguém? Quem gostaria de receber um presente já desfigurado? Ele me olhou e aproveitou minha atenção ao assunto e lascou a finalização de sua “tese”: Gostaria de receber de presente um chocolate com uma dentada que partisse ele pela metade meu neto?

Respondi que não automaticamente, nem me apercebi do jogo de palavras que simbolizava a diferença entre doação e descarte que ele presenteava minha avó e eu naquele momento.

Seguiu interagindo conosco, explicando-nos que todas as pessoas que necessitam de doações para suprir a falta de algo, seja alimento, vestuário ou qualquer outra necessidade, estão em uma condição social fragilizada, onde sentem-se geralmente a margem da sociedade.

Nossa maior caridade é fazer com que se sintam iguais a todos os outros, com condições de interagir, participar e ter senso de pertencimento ao meio.

A maior oferta ao próximo é de que ele seja igual perante todos, aí realmente trazemos a condição de irmãos para a amplitude social.

Quem com fome, sem roupas que lhe façam sentir-se apresentável e sem acesso à educação terá condições de buscar um emprego, oferecer seus serviços e garantir o sustento de sua família?

Descartar o que não se quer, fazendo ato de doação é jogar as pessoas cada vez mais ao descaso, mantendo-as a margem da sociedade, seria um ato de crueldade atroz, pois uma criança gosta de um brinquedo que tenha todas as suas partes, assim como um adulto gosta de uma roupa que não tenha rasgados ou puídos.

Façamos o exercício inverso para analisar essas situações em que desafiamos nossas ações impensadas. E se fossemos nós na condição de receber essas doações, como nos sentiríamos ao abrir uma sacola e perceber que só tem meias furadas, calças rasgadas e camisas puídas?

Daquele dia em diante faço doações de coração aberto e descartes sem pena de me livrar do rasgado e puído. Afinal o que não serve ao meu uso por má condição, não serviria para vestir o meu irmão.

Dom Barulho dando banho mais uma vez...

Comentários:
Mário e Tainara

Publicado por:

Mário e Tainara

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