E o Drone não se aquieta.
Mais uma semana, mais um voo com destino fantástico.
Desta vez, o plano de voo nos conduziu até o quintal do jornalista, músico e escritor (não necessariamente nesta ordem) Guilherme Lessa Bica.
Uma das mentes mais brilhantes das últimas gerações de artistas guaibenses, Guilherme nos encanta com seu talento com as palavras tanto na escrita, quanto na música.
Aqui no Repórter Guaibense, brilha na coluna Outra Margem, e na música faz parte das bandas de música brasileira Pelas Tabelas e Pequena Serenata.
É muito encanto e competência a serviço de nossos olhos e ouvidos.
Vou deixar as palavras contarem um pouco desta trajetória pautada pela beleza dos bons arranjos.
Respeitável público!
Com vocês:
Guilherme Lessa Bica!!!
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DRONE CULTURAL - Primeiramente, queria te agradecer pela presença aqui na coluna e dizer que, assim como aconteceu na coluna anterior com o nosso colega Mário Terres, esta conversa de hoje é a realização de uma vontade de quase um ano.
O Drone chega a ficar tonto com tantos planos de voo espalhados sobre a mesa, mas aos poucos vamos alçando os voos para esses destinos encantadores.
Desta vez, o Drone pousou no teu quintal, amigo Guilherme.
Viajou rápido e cheio de curiosidade. Afinal, além do bom papo, música e poesia são ótimos atrativos em qualquer destino.
As pequenas hélices pararam e o papo pode começar.
Sou um leitor assíduo das tuas colunas aqui no jornal. Me encanta a forma como tu nos carrega pelas tuas memórias e projeções acerca das experiências vividas/imaginadas.
É um estilo muito particular teu, mas que vem carregado de referências refinadas.
Te vejo brilhar escrevendo as crônicas e te vejo sendo genial fazendo música. Esses talentos parecem fazer parte do teu ser. Algo que transborda de forma bastante natural. Orgânica. Não automatizada.
De onde vem a tua veia artística? Conta um pouco da tua trajetória. Vamos começar por aí.
GUILHERME LESSA BICA – Obrigado pelo convite, Isaque, sou leitor da coluna, um espaço fundamental pra gente conhecer melhor a trajetória daqueles que movem a cultura em Guaíba. Olha, a minha relação com a arte está profundamente ligada à palavra. Por um tempo, pensava que isso havia começado na faculdade de Jornalismo, lá pelos 18 anos, quando a leitura realmente se transformou num hábito diário. Mas depois me dei conta que a origem estava lá atrás, desde guri, nas canções que povoavam nossa casa, o pai ouvindo o cancioneiro tradicionalista na Rádio Liberdade e a mãe consumindo música brasileira de todos os matizes, das mais comerciais (axé, pagode, funk) até as mais sofisticadas (Bethânia, Chico, Belchior). É nesse lugar da memória que eu localizo o meu primeiro encantamento com a palavra poética: a partir da canção popular brasileira. Na faculdade de Jornalismo, aí sim, tomei contato com a literatura, me tornei leitor de fato, e o poeta, o contista, o cronista e o cancionista que tento ser hoje, nasceram a partir disso.
DC – Quais são as tuas referências? Onde você busca inspiração?
GUILHERME – Bá, se for falar em literatura, preciso lembrar do Altair Martins, Neruda, Raduan Nassar, Faulkner, Hilda Hilst, Clarice, Cortázar, essa turma que sempre parece fundar um idioma particular em seus textos. A música brasileira também é uma referência permanente, especialmente o samba. Mas também acho que a minha geração tem uma relação muito forte com o audiovisual. Já depois dos vinte anos, comecei a buscar os grandes clássicos do cinema, bateu aquela sensação de que tinha muito filme massa pra ver, o que ainda tento saldar hoje em dia. Mas lá atrás, quando guri, assistia diariamente à “Sessão da tarde”, na Globo, e ao “Cinema em casa”, no SBT. Sem falar nas telenovelas, sempre fui bem noveleiro. E tenho a impressão que o texto construtor de imagens que costumo tentar fazer vem dessas raízes aí, do audiovisual que povoou minha infância. No centro de todas essas referências, está, eu acho, o interesse por qualquer tipo de narrativa, uma inquietação em tentar cada vez mais compreender essa maluquice breve e sem sentido que é a vida.
DC – Tu, como se já não bastasse todo esse desaforo de talento, também é jornalista.
A escolha por essa profissão veio em que momento? Teus amigos de infância queriam ser o Super Homem e tu queria ser o Clark Kent, ou a decisão veio bem mais tarde?
GUILHERME – Tchê, eu tinha certeza que ia ser jogador de futebol quando era guri. Jogava direitinho, tinha algum talento, especialmente no futsal. Quando o tempo começou a passar e eu vi que tinha outros tantos caras mais talentosos e mais esforçados do que eu, em algum lugar no final da adolescência, tive que encontrar outra atividade e acabei ingressando no Jornalismo.
Não lembro exatamente “do momento”. Mas tem uma cena que se repetiu muitas vezes lá no final dos anos 1990, quando treinava na escolinha do Grêmio, no Cristal, em Porto Alegre. A mãe ia a Porto Alegre e me levava aos treinos. E ela tinha a mania de deixar o mesmo cd rodando no carro durante meses. A família inteira decorava as canções, independente do artista que ali cantava. Nesse caso, era um álbum do Caetano. E tinha uma música que me perturbava demais: “Esse cara”. Nela, o Caetano assume a voz de uma mulher que está apaixonada por um cara da sua rua, do seu bairro, enfim, vai descrevendo esse encantamento. E aquilo de um homem poder escrever e cantar uma canção na voz de uma mulher me revolveu, além de um sentimento novo de poesia, preconceitos mesmo que um guri dos anos 1990 carregava, fez eu me deparar e pensar sobre tudo isso. Era de uma beleza estranha, nova. Acho que na época nem tive coragem de revelar isso pra mãe ou pra outras pessoas que me cercavam. Anos depois que me lembrei disso e compreendi que ali, naquelas audições, alguma relação nova com a palavra nasceu em mim.
DC – No decorrer da história acompanhemos muitos jornalistas com talentos artísticos notáveis. O jornalismo é uma área que também lida com a sensibilidade das pessoas e, por isso, algumas portas da percepção são abertas gerando também uma vontade de buscar outras formas de expressão (isso sou eu observando o mundo).
Agora eu te pergunto: De que forma os teus fazeres se misturam? Eles se misturam? Como o jornalismo contribui com os teus processos criativos e vice-versa? Existe essa intersecção de aspirações?
GUILHERME – Sim, pelo menos a formação que tive na PUCRS, com professores sensíveis e com bagagens incríveis, nos ensinava que o jornalismo, muito mais do que anular as próprias ideologias e convicções, se despir de si, é a arte de se vestir do outro, habitar a experiência do outro, compreendê-lo ao máximo. E acho que isso implica sim numa abertura maior para essas percepções citadas por ti. Assim como imagino que o teatro deva ter um impacto parecido na tua trajetória, são áreas de conhecimento que não vivem sem o exercício radical da alteridade – pelo menos, não deveriam viver. Sobre a mistura, acho que tudo é narrativa, em alguma medida. Assim como tudo é narrativa nas nossas vidas. Estamos sempre construindo narrativas, mesmo quando vivemos essa nossa suposta realidade. Quando faço uma reportagem, quando escrevo um poema, um conto, uma crônica, é claro que caminho por estruturas de linguagem particulares de cada um desses gêneros textuais, mas, ao mesmo tempo, lá na essência dessa empreitada, está uma voz que busca contato com o mundo.
DC – Aqui no Repórter Guaibense você nos presenteia com a coluna Outra Margem. Uma belezura de coluna que nos encanta desde a escolha da imagem do card de divulgação, até a última linha.
Boa parte do conteúdo nos remete a tua infância que, para alguns de nós, também foi a nossa infância. Somos contemporâneos e vivemos outros momentos e formas de nos relacionarmos com as pessoas e com o mundo.
Não sou do tipo saudosista que fica dizendo “no nosso tempo era melhor”. Não sou mesmo. Cada tempo tem sua beleza. Nossa geração escutou isso da geração anterior que, por sua vez, também escutou isso dos seus antecessores e assim por diante. Prometi não ser esse tipo de velho.
Acredito mesmo que cada tempo tem a sua beleza e essência.
“Porém, entretanto, todavia”, não sei bem por qual razão, teus textos atingem em cheio meus neurônios nostálgicos, fazendo bater uma saudade boa de uma época onde até a minha malicia era ingênua.
De onde vem essas memórias? Quais são os gatilhos e como funciona esse aproveitamento dentro do teu processo artístico e expressivo?
GUILHERME– Eu compartilho desse sentimento teu, não sou saudosista. Gosto de uma frase do Paulinho da Viola, outra referência que tenho, sobre isso: “Eu não vivo no passado. O passado é que vive em mim”. É uma ideia, pelo que entendo, de fazer do passado, da memória, das saudades, ventos e velas da nossa vida, não âncoras. E, dentro daquela lógica que mencionei acima, de que tudo é narrativa, de que estamos sempre construindo nossa realidade, vejo a memória como um livro que acessamos. Está tudo ali: dores, alegrias, amores, perdas, vitórias, derrotas, traumas, sombras, luzes, vergonhas, virtudes, etc. E, como não somos o Funes do Borges, como não temos uma memória perfeita e completa de tudo, podemos lançar sobre ela essa grande vocação humana, a imaginação, a invenção, não como forma de recalcar o que vivemos, mas como um exercício mesmo de estranhamento e beleza.
DC – O que o desenvolvimento de habilidades artísticas trouxe para a tua vida?
GUILHERME – Beleza, consolação, encantamento. Encontro na arte o que nunca encontrei em nenhuma religião: é a partir dela que me conecto a algum tipo de transcendência. Junto do amor e da amizade, a arte forma uma espécie de trinca pela qual eu vejo que vale a pena viver e onde encontro territórios que desejo habitar. São os lugares onde deixo de ser cético, somente em contato com eles acredito num caminho melhor para a humanidade. Então, pra concluir, acho que a arte (como o amor e a amizade) me devolve uma fragilidade e uma ingenuidade que a vida mais utilitária parecer ir sugando da gente.
DC – Você também tem uma relação muito bacana com nossa cidade. Sabe captar a alma dos nossos vizinhos, como nos relacionamos entre nós e com o ambiente em que estamos inseridos.
Isso também está muito presente.
Enquanto autor, você lançou dois livros bastante ligados como nossa pequena e valorosa aldeia na beira do lago.
Um deles conta a história do Sport Club Itapuí. Uma instituição que acompanha a história da nossa cidade.
O outro, chamado Guaíba Labirinto, é uma coletânea de prosas e poemas com foco também na identidade e pertencimento em relação a nossa cidade.
Conte um pouco sobre essas obras. De onde saiu a inspiração e como foi o processo?
GUILHERME – O livro do Itapuí foi um presente que recebi com pouco mais de 20 anos, uma baita experiência de pesquisa, jornalismo, escrita. O presidente era o Julio Schenkel, que me confiou essa tarefa. Contei com o apoio da Eliane Barth, que era diretora à época, e foi fundamental pra pesquisa também. É um documento biográfico que me orgulho de ter contribuído. Já o Guaíba Labirinto é uma coletânea de crônicas, poemas e contos que publiquei numa coluna do Jornal O Guaíba, uma obra muito mais autoral. A ideia era estranhar as paisagens da cidade e fundar essa espécie de Poética do Habitante, uma narrativa que investiga a poesia que nasce dessa troca entre o morador e aquilo que ele compreende como “o seu lugar no mundo”.
DC – Qual é a memória mais antiga que você tem da cidade? Qual é o teu lugar favorito aqui?
GUILHERME – Bá, não sei se tenho uma memória concreta dos meus primeiros anos. Talvez isso também tenha me movido a escrever ficção: essa falta de certeza se realmente me lembro de algo daquela época ou se criei memórias a partir de fotos e relatos de terceiros. Mas certamente as memórias mais antigas que trago são nas ruas do Engenho, jogando bola, andando de bicicleta, brincando com os amigos da Anacleto Pratti, transformando o corredor da minha casa num campo de futebol onde eu me inventava atacante do Grêmio. Sobre lugares favoritos em Guaíba, tenho muitos, mas sempre estão associados às pessoas que amo. Amo esses lugares porque lá estão ou estiveram essas pessoas. Sem elas, eles não carregariam sentido para mim.
DC – Como você imagina que as pessoas de fora enxergam Guaíba? Como você explicaria Guaíba para um estrangeiro?
GUILHERME – Guaíba é bela e esquisita, né?! É uma cidade de pequena pra média, mas mantém hábitos bem provincianos, para o bem e para o mal. O lance do sobrenome ainda pega muito aqui, o coronelismo segue em voga, basta ver quem se elege a cada quatro anos. A solidariedade e o acolhimento próprios de uma cidade pequena são temperados por uma mania irremediável de cuidar da vida alheia. Mas, no fim, acho que somos um microcosmo do nosso país mesmo, com nossas belezas e misérias, virtudes e defeitos. A nossa vantagem, me parece, é que ainda podemos escolher a cidade que queremos ser no futuro, não explodimos demograficamente nem descaracterizamos por completo a memória material e a beleza natural que resiste aqui. Tomara que tenhamos, como comunidade, a sabedoria de tomar o melhor caminho.
DC – Algumas perguntas são constantes aqui nesses bate-papos com os colegas. Uma bastante recorrente busca entender como é a tua relação com o teu fazer e com a recepção do público.
Para compreender um pouco mais eu sempre gosto de saber do convidado se, dentro da sua trajetória artístico-cultural, existiu algum momento que o tenha emocionado além do "normal". Vivemos de emoção. Esse é a nossa matéria prima. Isso é um fato. Mesmo assim eu pergunto: Você lembra de algum momento onde essa emoção tenha sido algo fora do padrão?
GUILHERME – Ah, eu me emociono com qualquer contato. Comentário em rede social, e-mail, mensagem de whatssapp. É inacreditável isso de as pessoas se apropriarem de algo que tu criou e fazerem daquele poema, conto, crônica, canção, algo seu.
DC – Falando em emoção: Para ti, o que é poesia? O que é escrever poesia/compor dentro da tua rotina?
GUILHERME – Acho que a resposta pra essa pergunta se assemelha àquela sobre o significado de produzir arte. É um lugar onde sinto que um mundo melhor é possível, minha religião mesmo. Tenho um poeminha que versa sobre isso: “A arte é minha religião / O samba é minha oração / Eu rezo a Noel, a Cartola / A Candeia, a João”. Fazer poesia é a minha maneira de agradecer também a esses mestres todos da literatura e da canção por tudo que suas obras já fizeram por mim.
DC – Tens algum ritual que execute antes de começar a escrever? Precisa de um ambiente específico/preparado, ou isso não é preponderante para a conexão com a inspiração?
GUILHERME – Eu sou muito influenciado pelo ritmo, pela sonoridade da palavra. Em geral, vem alguma frase, verso que me marca, eu fico repetindo aquilo, ruminando na minha cabeça, experimentando mentalmente os caminhos pra onde posso ir, tentando entender que texto é esse que está nascendo e, quando vejo que encontrei algum fio pra puxar, vou pro note escrever. Claro, se for um som, puxo o violão. Se não tiver alternativa, gravo ou escrevo no celular ao menos um trecho, pra não perder a ideia. E depois dessa fagulha de inspiração, é transpiração, escrever e editar, trabalhar em cima do texto. O Charles Kiefer, um grande mestre com quem aprendi e sigo aprendendo muito, me ensinou isso: escrita exige algum talento, mas especialmente trabalho, repetição e até uma dose de disciplina. Nem sempre consigo aplicar tudo isso, mas tento.
DC – Por mais que nos preparemos, vivemos na corda bamba e as saias justas estão inevitavelmente presentes nas nossas empreitadas.
No meio de tantas coisas bacanas que já aconteceram ao longo da tua experiência, qual foi o maior perrengue que você passou na tua trajetória de contribuição jornalística ou artística?
GUILHERME – Ah, certamente tive alguns, mas nada muito grave.
DC – Falando em perrengue, esse com certeza é um dos momentos mais confusos que a classe artística já enfrentou. Fomos atingidos em cheio pelas medidas de segurança necessárias, mas que, de um dia para o outro, deixou nossas atividades suspensas. Estamos, há quase um ano, sendo obrigados a tentar nos reinventarmos de alguma forma.
Neste momento estamos mais enrolados do que estávamos há um ano. Ultrapassamos todos os limites e o cenário ainda é muito caótico. Como você está vivendo esta pandemia? Como você faz para não deixar a tristeza tomar conta?
GUILHERME – O medo é um sentimento permanente, né?! Medo de se contaminar, de contaminar pessoas próximas, de perder amigos, familiares, as pessoas que amamos. Me refugio no amor da Vivian, nos livros, nos filmes e nas canções. Tentamos aplacar as saudades de amigos e familiares por ligações de vídeo. Acabamos de viver um ano adiado. E, recém ingressamos no ano seguinte, notamos que os adiamentos seguirão por um bom tempo. Só que acaba que todos os adiamentos viram uma piada minúscula perto da gravidade irreparável das mortes de tantos guaibenses, gaúchos, brasileiros.
DC – Após um ano presos em casa, esta parece uma questão batida, porém, nesse momento em que a esperança trazida pela vacina é confrontada com a pior onda de casos de Covid, volto a perguntar: Qual é o papel da Arte nesse momento? A Pandemia pode inspirar um poeta?
GUILHERME – Não sei se a arte deve ter algum papel em si. O grande trunfo da arte sempre foi, me parece, ser uma metralhadora de interrogações, a detratora do automatismo, muito mais do que um lugar de respostas, ela deve ser sempre mais nascente do que foz. Quem a consome que pode, aí sim, ao tomar contato com ela, carregá-la de sentidos. Mas a arte existe para estranhar, inquietar, perturbar, deslocar. Um pedaço de beleza que apanhamos e guardamos dentro da gente. Sobre inspiração, acho que tudo carrega uma semente de invenção e poesia. Os filmes do Lars Von Trier estão aí para nos mostrar que a beleza também tem suas sombras. No meu caso, a pandemia acho que apareceu mais em crônicas, não como o tema central, mas como um cenário inevitável.
DC – Que tipo de emoções estimular em um momento tão obscuro na história?
GUILHERME – Eu sempre tentei fazer uma arte que busque o outro, não textos autocentrados, fechados em si, como uma confissão em pé de guerra com o mundo. Acho que há espaço para tudo, falo aqui daquilo que consigo produzir. Até mesmo quando escrevo algo autobiográfico, há ali a intenção de alteridade. Não sei se consigo, mas a intenção é esta. Neste momento, sinto que essa intenção se acentua.
DC – Vamos falar um pouco de música.
Nossa cidade tem uma ligação muito legal com a música e um segmento musical bastante competente e talentoso.
Você faz parte de duas maravilhas da cidade: As bandas Pelas Tabelas e Pequena Serenata.
Fala um pouco sobre esses dois trabalhos e sobre a experiência de trabalhar com uma banda, nesse caso duas. Como é a relação de vocês e como funciona o processo criativo e de escolha dos repertórios?
GUILHERME – Pois é, tchê, é um lance ainda novo pra mim. Há uns cinco anos, o Bruno, o Guilherme e o Enio me chamaram pra participar do Pelas Tabelas, uma banda que interpreta e celebra os grandes nomes do samba e da bossa nova há mais de dez anos. E esse ato de eles me puxarem pra cima do palco, eu que sempre fui um amigo espectador da banda, me soou como uma autorização pra me arriscar também na canção. Aí peguei emprestado um violão do Bruno e da Denise (companheira dele) e comecei a retomar uns sons que tinha feito lá atrás, com uns vinte e poucos, e nunca tive coragem de mostrar. Foram nascendo outras ideias, poemas cantados. Quando vi que tinha muitos sons ou rascunhos de sons, chamei o Enio e a Liane, outra grande amiga, começamos a arranjar essas canções e criamos a Pequena Serenata, uma banda de música autoral, mas também muito influenciada pela canção popular brasileira. Hoje, o Chico de Freitas e o Eduardo Raguse também estão com a gente (tempos atrás, tivemos a companhia do Rogério Soares e do Felipe Stahl). É uma banda centrada na amizade, que ainda está se construindo, mas queremos, se possível ainda este ano, lançar algumas das canções.
DC – A Pequena Serenata foi convidada para compor a trilha de um dos espetáculos que eu estou dirigindo no momento, Hospital-Bazar, de outro filho ilustre dessa terra, Altair Martins.
As composições entregues até o momento são riquíssimas e foram feitas na medida para o espetáculo.
Como é essa experiência de pensar a composição da trilha? Já tinha feito isso antes? Qual é a tua expectativa?
GUILHERME – Nunca tinha feito. Como já falei, essa minha relação com a música está muito ligada à palavra, à canção, esse gênero que tem um pé na música e outro na literatura. Mas tem sido bacana esse processo, o texto do Altair é sempre um maravilhamento, a tua direção e a atuação da galera estão espetaculares. Tudo isso, conjugado com os ensaios que acompanhamos, nos deu uma espécie de espírito da peça. Eu gosto muito de metáforas ligadas à moradia, casa, lar. E é por aí, eu, o Enio e toda a Pequena Serenata habitamos a peça e estamos lá dentro compondo, tentando extrair de dentro dessa moradia um som particular. Enfim, é um privilégio.
DC – Quais sonhos você alimenta para o seu futuro artístico/profissional?
GUILHERME – Escrever, compor, publicar, fazer som com meus amigos da Pequena Serenata e do Pelas Tabelas.
DC – Outra pergunta clássica aqui neste espaço:
Se você existisse dentro de uma música ou livro, que personagem você gostaria de ser?
GUILHERME – Bá, não sei se um personagem, mas tem canções que sempre falei que gostaria de morar dentro delas: “Dindi”, do Tom e do Aloisio de Olveira; “Cantando”, do Paulinho da Viola; “Pelas ruas da cidade”, Paulo César Pinheiro. Além de qualquer texto do Neruda, Drummond e Raduan Nassar.
DC – Como você vê o cenário cultural guaibense? O que gostaria de ver nos próximos anos?
GUILHERME – Temos muita gente talentosa em diversas áreas. Ainda acho que pecamos na falta de espaços para que essa arte chegue aos guaibenses e na ausência de políticas de formação de público. E isso é resultado de décadas de políticas culturais centradas no investimento em eventos pontuais e eleitoreiros, em detrimento de uma gestão consistente de Cultura.
DC – Os jornalistas, tal como acontece com a classe artística, vêm passando por um momento que exige muita fibra e posicionamentos coerentes perante a nossa realidade. Nesse mar de desinformação e propagação de fake News, os profissionais da tua área se veem diante de uma tarefa que, além de hercúlea, se mostra cada dia mais necessária. Não podemos abrir mão de informações apuradas com qualidade, por meio de fontes seguras.
Posto isso, te pergunto:
Qual é o maior desafio dentro do segmento jornalístico?
GUILHERME – Não aceitar o caminho mais fácil. E isso implica reportar todos os lados de um fato, não distorcer a realidade, não demonizar quem quer que seja simplesmente porque é o que o leitor deseja ouvir e ler. Isso não significa que não possa se posicionar (aliás, o nosso momento exige posicionamentos), mas até isso deve ser feito de forma sincera, clara, sem camuflagens de imparcialidade. Um fato é um fato. E jornalismo não é literatura. Tenho um poema que sugere uma crítica a esse momento que vivemos e à forma como a imprensa costuma ser transformada no bode expiatório, independente do lado que a critique: “A Globo mente / descaradamente / quando denuncia / o meu candidato / só confio nela / quando ela revela / o que há de feio / lá do outro lado”. Pode trocar Globo por outros grandes veículos, ela está aí simplesmente porque é aquela que tem as costas mais largas.
DC – Como a tua família participa do que tu fazes? Como eles encaram a tua escolha e esforço pela carreira? Eles têm uma relação de proximidade ou nem conseguem acompanhar a dinâmica das coisas que você faz?
GUILHERME – Olha, nem sei se posso chamar o que eu faço de “carreira”. Mas, sobre os sons e textos que eles tomaram contato, acho que gostam (Hehe), pelo menos é isso que me dizem.
DC – Que conselho você pode dar para quem tem vontade de seguir o caminho da poesia, da música e da escrita criativa?
GUILHERME – Ler, ler e ler.
DC – Alguma referência para seguir, ler ou assistir? Em quem ou onde buscar inspiração?
GUILHERME – Bá, acho que citei várias referências durante o papo. Então, vale sempre lembrar da galera que está fazendo acontecer aqui perto da gente. Ouvir as canções do Rafael Sonic, do Andrio Maquenzi, da Gruvila, da Cabernet’s, da Microcosmo. Sobre texto, vale ir até a biblioteca, quando ela voltar a abrir, e ler as colunas do Romualdo Furtado, o maior cronista que Guaíba já teve. Acompanhar o teatro das trupes comandadas pelo Isaque, pelo Zé Renato, pela Deia e o Araxane. Enfim, talvez a grande dica seja navegar pelas tuas colunas mesmo, temos nelas um grande apanhado da arte feita em nossa cidade e no nosso tempo.
DC – Uma última pergunta: O que é sucesso?
GUILHERME – Diante de sistemas sociais, econômicos e virtuais cada vez mais individualistas, utilitários e que trabalham pela uniformização do pensamento e a decoreba de respostas terceirizadas, ter sucesso, me parece, é se atrever a perguntar, a criar, a amar, a perdoar, a dividir, a estranhar, a lançar ao mundo e a si mesmo um olhar autêntico e sincero: nada além do que muitos homens e mulheres sábios e inspiradores já vêm nos ensinando com suas entregas, obras, atos, palavras e vidas há alguns milênios.
DC – Estamos encerrando a nossa conversa.
Não poderia deixar de agradecer muito a tua disponibilidade para esse bate-papo comigo.
Esse é um espaço de contato com a nossa comunidade. Gostaria que você deixasse um recado para os colegas trabalhadores da Cultura e para todos os nossos vizinhos.
Pode falar o que quiser, meu amigo.
GUILHERME – Agradeço demais a oportunidade, Isaque. Parabéns por este espaço. Acho que o nosso grande desafio é conectar cada vez mais a turma interessada em fazer e em consumir arte e cultura por aqui. Sinto que há um movimento cada vez mais articulado nesse sentido. Cabe a todos nós fortalecermos isso.
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Encanta, né?
Eu estou viciado nessas conversas.
Para minha sorte, o que não nos falta é gente talentosa e cheia de histórias para contar.
Nossos vizinhos são espetaculares mesmo.
Gostou de conhecer o Guilherme?
Tenho certeza que sim.
Os voos continuam cruzando o espaço aéreo de Guaíba de maneira frenética.
Nas próximas semanas traremos novos relatos desta expedição em busca de mais pérolas do nosso tesouro local.
Então fica ligado, segura a peruca, porque o Drone não para e logo passa por aí.
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