Desde pequeno me questiono sobre a existência de vida além da Terra. Claro que tal questionamento era influenciado pelos desenhos animados que assisti durante a infância. Na minha cabeça a vida extraterrestre se resumia em seres verdes humanóides com tecnologia avançada, alguns detentores de superpoderes. Também me lembro que na escola falavam do ET de Varginha e que nunca entendi o significado do Varginha. Hoje sei que tal adjetivo se refere a cidade de Minas Gerais onde, em 1996, supostamente foi visto um ser extraterrestre.
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Falo brevemente dessas lembranças, pois foi o que me ocorreu quando li o artigo da Nature Astronomy (Reino Unido) e notícias relacionadas ao mesmo sobre a possível existência de uma forma de vida microbiana na atmosfera de Vênus. Tal evidência surgiu da análise dos gases que compõem a atmosfera do nosso planeta vizinho a qual demonstrou a presença do Gás Fosfina (PH3) a aproximadamente 50 quilômetros da superfície. A fosfina também está presente na atmosfera terrestre, produzida por atividade industrial ou por microorganismos anaeróbicos (não dependem do oxigênio para o seu metabolismo). Essa produção microbiana fortalece a hipótese de vida em Vênus. A deteção da fosfina em Vênus surpreendeu a comunidade científica pois as condições oferecidas tanto pela superfície quanto pela atmosfera (ácida) desse planeta não tornariam sua existência possível, ou seja, por fenômenos naturais (raios e erupções vulcânicas por exemplo) tal existência não é explicável.
Um parêntese. Não é o caso de aprofundarmos sobre isso, mas é importante que saibam que a detecção da fosfina se deu a partir do seu espectro de absorção/emissão. Resumidamente, cada molécula possui uma faixa de absorção e emissão de ondas eletromagnéticas (energia) própria, característica da molécula. Podemos fazer analogia: é como se fosse uma carteira de identidade da molécula. Uma grande parceria foi feita com laboratórios (detectores de alta precisão) ao redor do mundo para que houvesse uma coleta de dados significativa.
As grandes apostas para a presença de vida extraterrestre estavam nas luas de Júpiter, nas de Saturno e no planeta Marte. Os desafios que se colocam para a ciência sobre essa possibilidade de vida em Vênus são: mais coletas de dados, projetos de sondas para estudar a atmosfera de Vênus e coleta de amostras. A partir daí podemos alçar voos maiores.
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A partir de agora há dois caminhos para a comunidade científica: ou existem outros processos fotoquímicos e geoquímicos geradores de fosfina que ainda não descobrimos; ou há vida na atmosfera de Vênus. Assim. como os autores, opto pela segunda hipótese. É mais bonita, interessante e digamos que mexe com aquela pergunta que todos nós já fizemos: será que estamos sozinhos? Até então, a nossa busca por vida no universo estava centrada na existência de água e metano (por exemplo) pois são moléculas intrínsecas a nossa forma de vida, que se baseia no carbono. A descoberta da fosfina como uma possível bioassinatura para existência de vida microbiana abre portas para diferentes formas de vida, com estruturas distintas da nossa.
É importante nos desprendermos da visão antropocêntrica, aquela em que o ser humano é o centro do universo. Podem haver diversas manifestações de vida diferentes da nossa no universo.
Não me recordo de um momento em que a ciência esteve tão próxima da comprovação de existência de vida extraterrestre. Mesmo que nada tenha sido provado, as perspectivas são animadoras! Para alguns pode ser apenas a detecção de um gás, consequente de microorganismos, ou nas palavras de uma autora do artigo: “é vida na nuvem”. Para nós, amantes da ciência, um possível “não estamos sozinhos”.
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