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Domingo, 30 de Agosto de 2026

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Izabel Leonor: invisibilidade e devoção

Ela casou com Gomes Jardim em 1800, no oratório da fazenda das Pedras Brancas

Izabel Leonor: invisibilidade e devoção
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Faz algum tempo que escrevi sobre a figura de Izabel Leonor Ferreira Jardim, mais precisamente em 2017, a pedido da escritora e pesquisadora Elma Sant’Ana, para seu livro 'A Mulher na Guerra dos Farrapos'. Elma é uma batalhadora para que a história e a memória das mulheres do Rio Grande do Sul não desapareçam por completo. Temos a consciência de que ainda no século XXI, vivemos em um mundo estruturado culturalmente para atender primeiro aos interesses masculinos. A historiografia seguiu a mesma lógica. Imaginem isso nos séculos passados... Sim, as biografias, os monumentos, os espaços de atuação profissional, os jogos, esportes, as religiões, as guerras, a política, a ciência, enfim, a estrutura e o funcionamento das sociedades, simples ou complexas, em sua grande maioria trazem no topo da pirâmide do poder o sexo masculino. Isso nos faz refletir não é mesmo?

Voltando ao assunto... Izabel sempre me intrigou por não ter um rosto dentro de uma história genealógica que havia lhe reservado o espaço de herdeira. Uma parte considerável da fazenda de seu pai (viram que eu não disse a fazenda de sua mãe), ficou como herança para Izabel Leonor Ferreira Leitão. E é dentro deste contexto social do século XIX que viveu a filha, a esposa, a mãe, a senhora, a devota e a mulher que quase desapareceu da história. Por duas vezes ocupou a posição de “primeira dama” da República Riograndense e poucos dados consegui sobre ela, ao mesmo tempo a sua quase não existência revelou muito sobre as mulheres da época, mesmo aquelas casadas com os “donos” das terras.

Dona Izabel Leonor Ferreira era filha legítima do Capitão Antônio Ferreira Leitão e de Dona Maria Meirelles de Menezes. Nasceu em 19 de outubro de 1781, em Pedras Brancas (na época pertencente a Freguesia de Triunfo) e faleceu em 23 de agosto de 1863, em Pedras Brancas, momento em que suas terras faziam parte de Porto Alegre. Foi sepultada no cemitério da localidade (Em Guaíba – Cemitério Municipal Nossa Senhora do Livramento).

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Casou-se com José Gomes de Vasconcellos Jardim, em 1800, no oratório da fazenda das Pedras Brancas (anexo a casa com frente para a atual rua Pedras Brancas, entre os nº 50 e 80). Para a realização do casamento foi necessário um pedido de habilitação matrimonial, pois os noivos eram primos e só poderiam se casar com a condição de serem dispensados do grau de consanguinidade. Consta que tiveram 10 filhos, porém, até o presente momento, só foram identificados oito, são eles: Afra, Perpétua, Manoel Gomes Jardim, Angélico Ferreira Gomes Jardim, José Gomes Jardim, Maria do Carmo, Antônia e Antônio.

Herdeira da parte norte das terras, ficou com a sede da fazenda onde encontra-se até hoje a casa, conhecida como Casa de Gomes Jardim. Izabel foi a responsável por firmar neste lugar a devoção a Nossa Senhora do Livramento e foi em nome da Santa que realizou a doação de terras da fazenda para a Igreja. Esse fato histórico gerou a seguinte memória, registrada e tratada como uma lenda local, no livro de Fernando Worm:

“Estando ausente José Gomes de Vasconcellos Jardim, D. Izabel Leonor esperava um filho para breve. Inexistindo na localidade outro médico ou parteira e temerosa de que o parto pudesse custar-lhe a vida e a do filho, fez promessa a Mãe de Jesus de que se alcançasse parto satisfatório, transformaria em Igreja o salão de festas ali existente, com 20 metros de frente por 11 de fundo, sob o orago de Nossa Senhora do Livramento” (WORM, 1974, p.102).

Pouco sabemos sobre Izabel Leonor, todavia temos no levantamento histórico referente à pesquisa arqueológica das obras de restauro da Casa de Gomes Jardim (ESCOSTEGUY, 2008, p. 190), a citação da cópia de textos escritos por Graciano Alves de Azambuja a Ramiro Barcellos (1882), falando sobre Gomes Jardim e Dona Izabel. As informações foram coletadas de conversas com a mãe e irmã mais velha de Azambuja, que segundo ele, sua família teve “sempre muita relação de convivência” com a família de Gomes Jardim e Izabel. Sobre o casal encontramos:

“Quando José Gomes adoecia, D. Izabel era incansável em tratá-lo com o maior desvelo e carinho. Durante a Revolução, quando José Gomes abandonou sua casa e foi para Piratini, D. Izabel o acompanhou por toda a parte. Só voltou com ele feita a paz, em 1845”.

Cita também, que Izabel apresentava “esquisitices e exageros” e que Gomes Jardim, possuía paciência com ela. Os relatos coletados por Azambuja (1882) revelam que Izabel era portadora de alguma forma de transtorno emocional.

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Certa vez ao conversar com seu tetraneto, seu Anaclides Guerra Jardim, seu Tide ( hoje falecido), obtive a seguinte resposta: “não existe fotografia da Izabel, familiares queimaram, foram retiradas do álbum de família”, fez referência a Izabel como uma “bugra ruim”. Não tive a explicação destas palavras, afinal ele não a conheceu e são lembranças de família, onde os motivos pertencem somente à família.

Dela nada sobrou, quer dizer, há um túmulo, uma Igreja, uma lenda, uma santa...

Quando da inauguração do Monumento em homenagem a Gomes Jardim, em 1920, na praça de mesmo nome, os restos mortais do herói farroupilha foram transladados para o centro da cidade. Izabel ficou. Ao ser deixada pelo gesto seletivo da história perdeu seu rosto, que em esforço solidário tento pintar para vocês em tom ocre, desbotado pelo tempo. 

FONTE/CRÉDITOS: WORM, Fernando. Guaíba Terra e Povo. Guaíba, Prefeitura Municipal, 1974. ESCOSTEGUY, Luiz Felipe. Pesquisa Arqueológica nas Obras de Restauro da Casa de Gomes Jardim, Município de Guaíba/RS. Levantamento Histórico, cópia IPHAE, 2008, p. 194. LEÃO, Míriam.
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Míriam Leão

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Míriam Leão

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