Quando o sentimento de luto é vivenciado por muitas pessoas ao mesmo tempo, chamamos de luto coletivo. Estamos vivendo esse processo de forma bem recente com a pandemia e na última semana com a perda da cantora sertaneja Marília Mendonça. Por isso, quis abordar o tema nessa semana.
Mesmo sendo vivenciado por muitas pessoas ao mesmo tempo, o luto deve ser reconhecido e legitimado, pois em cada pessoa há as perdas individuais. Mesmo aqueles que não acompanham de perto o trabalho de um artista que morre de forma inesperada e trágica, acabam por sentir também e se comovem com a perda. No caso dos fãs, a perda é sentida como se fosse de alguém muito íntimo. Isso porquê mesmo não conhecendo o ídolo pessoalmente, sua arte (música no caso) passou a estar presente em várias ocasiões na vida da pessoa, dando um colorido para a memória do que aconteceu.
Além disso, a identificação com aquela pessoa que consegue descrever tão bem sentimentos, que lutou para conseguir seu reconhecimento e venceu tabus, inspirava a quem a admirava. Não podemos esquecer também que por trás da figura publica, havia a jovem, a filha, uma mãe, uma pessoa, um amor. Acabamos nos colocando no lugar de um filho que perdeu a mãe, e uma mãe que não verá mais sua filha. Tudo isso, mexe com nossas próprias perdas e traz a tona nossos lutos, nossas dores.
A empatia faz nos colocarmos no lugar dos entes mais próximo que estão vivendo o momento da ausência de quem mais amavam. A dor sentida deve ser respeitada. Mesmo não conhecendo de fato a artista, o fã sente a falta da pessoa com a qual se conectou e que conseguia expor de forma melódica, o que sentia e que talvez nunca conseguisse falar. Ainda mais nos momentos pandêmicos que a conexão se dava muito por lives, onde o artista estava muito presente na casa do seu fã.
Por ser exclusiva de quem sente, nenhuma dor deve ser menosprezada ou colocada como exagero. O olhar gentil, estar perto para tentar ajudar de alguma forma, é a melhor maneira de lidar com a situação. Tragédias nos desorganizam. Mexem com os sentimentos de segurança, mostrando que a finitude acontece de forma incontrolável. Como uma montanha russa, o luto é vivenciado de intensidades diferentes. Há dias que serão mais difíceis e outros menos. E faz parte do processo homenagear a pessoa, ouvir suas músicas ou rever seu trabalho no caso dos artistas, lembrando que sua contribuição não parou. A arte fica registrada mostrando o legado que a pessoa deixou.
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