Ele chegou na querência, vindo de longe. Cabelo castanho, olhos esverdeados cheios de brilho com uma fala trêmula e inconstante.
A vida que já passara, não falava sobre. Tinha seus 15 anos, mas era cheio de cicatrizes dos espinhos do mundo.
Bateu palmas, destramelamos a porta e ele adentrou. Foi se fazendo das casa desde o início.
Seu sonho era dançar, queria ser bueno pras tiranas, sapatear um balaio e quem sabe experimentar uma chula?
Embretou-se nas mais diversas epopeias, ajudou com os cavalos, colhia vassouras para varrer o terreiro, arrumava o salão para os ensaios, realmente era cheio de vida.
Também gostava de carteado, aprendeu o truco e praticou com seus irmãos de alma, aprendeu as senhas e os meandros da jogatina.
Só tinha um problema. Por tantas vezes adentrava um portal imaginário e vivia uma vida que não era a dele, mas que pra o outro personagem, um e outro eram um só.
Devaneios, tragédias, condolências, procrastinação, auto flagelo, o mundo irreal lhe trazia uma personalidade que, pra quem conhecesse o jovenzinho, jamais acreditaria que era o mesmo.
A família já estava espedaçada, mas ele se apoiava nos braços da irmã, que lhe deu um lar, um aconchego e uma nova chance.
Não adianta, o destino nos prega peças que, em nenhum momento sequer, sonhamos em passar por essas coisas.
O jovem desvirtuou-se, todo aquele enlace afetivo que construiu com seus irmãos de alma, dança e truco se misturara ao mundo surreal. A mentira passou a fazer parte de sua rotina e ele adentrou no olho do furacão e sair de lá é algo que precisa de tanta força, maior muito maior que os braços aguentam.
Nem todos se davam conta, mas entre os devaneios e auto traição, seus olhos emitiam mensagens de socorro, de que precisava de apoio para se livrar de tudo isso.
Muitos tentaram, tantos se esforçaram para trazê-lo a realidade e expurgar o personagem, mantendo só o jovem, aquele do mundo real, que era vívido, altivo, perspicaz e que sonhava dançar as suas tiranas pelos salões do pago.
Os irmãos não contiveram o jovem, o personagem se instaurou e não mais saiu, foram devaneios, perda de razão, de amor próprio e de respeito.
Houve uma quebra de confiança e o jovem teve de voltar ao seu mundo habitual, em outra casa, outra cidade, outro estado.
A despedida foi dolorida e para alguns imprópria, para outros desconhecidas as razões, mas para muitos a desistência pela luta interior.
Ele partiu e seria para nunca mais ver seus irmãos, para nunca mais pedir um envido, para nunca mais organizar o salão, para nunca mais dançar.
Durante um tempo lutou, mas aquele personagem surreal tomou conta de seu intelecto, ele sucumbiu e numa tarde qualquer de outubro ele alçou a perna, meteu o pé no estribo e partiu.
Partiu tantos corações, partiu tantas amizades, partiu no cavalo da morte e se atirou do abismo, atalhando a vida de forma desonrada.
Não há explicações para esses casos, só a consternação de quem sempre ficará com a sensação que poderia ter feito muito mais pelo amigo.
Quem disser que tem controle da vida, engana-se e proclama algo que jamais estará nas mãos do homem.
Tantas vezes planejamos o futuro e nem sequer pensamos que ele pode não chegar. Que insano isso!
Por isso agora, se tiver que gritar de alegria ou chorar de tristeza, não me escondo, reparto com quem quiser os sentimentos, para poder assim viver sempre no mundo real, doa a quem doer.
Se foi para nunca mais dançar nessa vida... mas há de voltar em outra, para rever os amigos, os afetos e as resgatar a oportunidade de ter as coisas que um dia sonhou.
Comentários: