Imaginem Porto Alegre sem a Usina do Gasômetro. Conseguiram imaginar? Após muitas tentativas de demolição do prédio considerado obsoleto e atrapalhando projetos urbanísticos modernos, ele passou por disputas entre interesses antagônicos, por argumentos de desvalorização e de valorização, por vontades políticas pró e contra a sua existência física até chegar a ser reconhecido oficialmente como patrimônio histórico e arquitetônico e hoje abrigar o Centro Cultural Usina do Gasômetro. Como foi possível isso? Pelo poder da sociedade civil consciente de um desejo comum, um desejo que superou as vontades individuais de interesse privado. Em 1982 a Eletrobrás transfere o bem e o terreno para o uso do município e o governo do Estado tomba a chaminé de 107 metros. Em seguida, no ano de 1983, o município tomba o prédio e lá ele está majestoso. Prédio e chaminé são considerados um conjunto indissociável e possuem um valor paisagístico.
Agora imaginem Guaíba sem o Sítio Histórico Matadouro São Geraldo? Conseguiram imaginar? Sim, conseguimos porque estamos etapas atrasados para mantê-lo em pé, todavia precisamos dedicar esforços urgentes nesse sentido. Mesmo que tenha sido tombado como patrimônio histórico e arquitetônico de Guaíba (1999) e pelo Estado (2012), o bem cultural não se mantém sozinho. Vejam que para ser tombado existiu a certeza de sua importância, isto é, passamos pela fase de convencer os gestores e a população que ele é digno de preservação. Os órgãos administrativos somente se mobilizam quando há um desejo explícito da comunidade e quando esta mostra que possui o direito de usufruir da riqueza histórica, cultural, arquitetônica, paisagística, enfim, usufruir do potencial que existe no bem e seu ambiente. No caso do Matadouro São Geraldo isso já está mais do que dito, através do uso de sua imagem em concursos fotográficos, folders oficiais da cidade, poesias, músicas, cenários musicais e tantas outras formas de expressão que ligam afetivamente os moradores de Guaíba e mesmo do Estado a ele. Inclusive existe dezenas de trabalhos de conclusão de cursos de graduação e pós graduação, da faculdade de arquitetura de diversas universidades, tendo o Matadouro como objeto de estudo e isso se estende também às outras ciências como, por exemplo, a História.
Busco novamente o Sítio Histórico Matadouro São Geraldo como tema da minha coluna porque o assunto não se esgota em relação a ele. Reconheço a complexidade que o tema traz por envolver mais de um proprietário e pela dimensão material e imaterial contida no assunto, mas não acredito que os problemas e desafios não possuam solução. O diálogo, a busca de um conceito para o espaço e os benefícios de um uso coletivo deve ser o eixo das reflexões sobre esse espaço tão singular e especial para a cidade. Fiz a comparação inicial com a Usina do Gasômetro para mostrar que Porto Alegre não pode viver sem ela, assim como Guaíba também precisa do Matadouro São Geraldo pelos motivos já reconhecidos. Ambos os bens ocupam um lugar especial na paisagem histórica e urbana de suas cidades. Neste quesito eu adoraria ver um parecer e as recomendações, para o Sítio Histórico Matadouro São Geraldo, construído por uma equipe multidisciplinar respaldada pelo respeito e ética acadêmica. Uma equipe multidisciplinar, envolvendo inclusive o olhar de um economista. Para compor dados a essa construção científica faz-se mister uma pesquisa socioantropológica realizada principalmente com os moradores vizinhos ao bem tombado.
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Um importante detalhe que muitas vezes passa desapercebido pelas pessoas que não são da área patrimonial é não saber que a área chamada de “entorno” (delimitação feita pelo IPHAE – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado) no caso do Matadouro é também tombada, isto é, deverá ser tratada com igual cuidado. Nela encontramos os alicerces e vestígios do grande complexo que foi o Matadouro e Saladeiro São Geraldo, como mangueiras e corredores de pedra, a fábrica de adubo, a graxeira, os varais do charque, entre outras preciosas fontes que poderão ser encontradas através do trabalho de uma equipe coordenada por um arqueólogo. Inclusive os aspectos ambientais precisam ser levados em conta, como a flora e a fauna, incluindo-se também o belo Arroio Público que possui a sua nascente no morro e passa por dentro da área tombada. Ele necessita de atenção quanto a qualidade de suas águas assim como o resgate de seu valor histórico cultural por ser um recurso natural que vem servindo aos habitantes locais há mais de 200 anos.
Deixo aqui uma reflexão para os leitores desta coluna perguntando:
Qual o nosso compromisso para com a preservação e revitalização do Sítio Histórico Matadouro São Geraldo e o que podemos fazer por ele?
Aguardo uma lista de sugestões que poderão ser encaminhadas para o Repórter Guaibense.
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