Repórter Guaibense

Domingo, 30 de Agosto de 2026

Colunas/Geral

O Teatro que passa na sua tela

A oportunidade de ver o nascimento de uma novidade

O Teatro que passa na sua tela
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No Ocidente dos últimos 2500 anos, reis, nobres, plebeus, eruditos, operários, indivíduos de todas as classes e preferências, reúnem-se para assistir narrativas que lhes toquem de alguma forma.

O Teatro foi fundado e se estabeleceu para sempre promover o encontro de pessoas, emoções e ideias nessa relação que envolve o artista e seu espectador. A Arte da presença promove verdadeiras assembleias de humanos, transita por lugares determinados e também toma as ruas, praças e palácios. Foi assim no decorrer de toda a história. Com a pandemia, tudo, ou quase tudo, mudou de forma drástica (inclusive dramática).

Sendo o Teatro a Arte do encontro, será possível que as experimentações cênicas que podemos presenciar em ambiente virtual continuem sendo definidas como teatro?

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Essa é uma questão bastante complexa e, por ser um momento de novas experimentações, torna-se complicada de ser respondida de forma simples, direta e definitiva. Há uma atmosfera intensa de pesquisa que envolve a abordagem, assimilação e aplicação de linguagens e formatos que fogem demais da rotina dos processos criativos.

Durante o caos da pandemia, nos deparamos com inúmeras notícias, e postagens de colegas, anunciando trabalhos que envolvem a procura e experimentação de novas possibilidades para esta arte tão transformadora que, ao mesmo tempo que carrega tradições milenares, sempre está aberta para absorver a contemporaneidade.

Neste tormento de incertezas e dificuldades até mesmo para sobreviver, artistas independentes, grupos e companhias adotaram a reinvenção como uma espécie de palavra-chave ou mantra. Tendo em vista as limitações obvias desse período, nossos trabalhadores da Cultura vêm, cada vez mais, buscando soluções na tecnologia para explorar outras novas formas de trabalho. As restrições impostas, em conjunção com modernos instrumentos de produção de conteúdo para o audiovisual, como a utilização do streaming e da internet, foram responsáveis por abrir espaço e indicar um caminho para a reinvenção dessa prática tão característica. O que se anunciava era a subversão de um aspecto considerado basilar: a presença do encontro físico.

Os espetáculos, afastados das salas de ensaio, agora são produzidos, ensaiados, montados e apresentados dentro das casas dos próprios artistas. Ao invés de ocupar teatros e centros culturais, as obras agora são transmitidas por meio de plataformas digitais. Em busca de mais interação com o público, os palcos migraram para os aplicativos de teleconferência. Aplicativos como o Zoom, presente em nossas reuniões de trabalho e estudo viraram uma ótima opção para essas “experimentações pandêmicas”.

Um dos maiores desafios consiste em produzir uma narrativa dramática, em forma de espetáculo que seja pensado especialmente para ser apresentado por meio destas ferramentas disponíveis e absorvidas até aqui.

Artistas, técnicos de luz, de som, de captação de imagens e produtores precisaram encarar a necessidade de se reinventar no trabalho arriscado percorrido na criação de uma linguagem diferente. Algo que mistura o teatro, a performance, o cinema, a televisão e outras pitadas criativas, artísticas e tecnológicas. 

Nossos artistas e técnicos, tão afetados e fragilizados pelo momento pandêmico e com escasso apoio do Estado, despontam como pioneiros nesse novo tipo de encenação virtual. Em sua brava luta pela sobrevivência e manutenção das atividades conseguem manter acesa a chama que alimenta a alma do teatreiro enquanto se lançam como vanguarda.

Outra grande preocupação para artistas e produtores é buscar compreender de que forma e até onde pode chegar o interesse do público por essas experimentações em novos formatos. O importante é encontrar a maneira de preservar esse interesse ao longo de toda a apresentação. Oferecer ao público subsídios para que este sinta algo parecido com o “perigo” que o teatro ao vivo e presencial nos estimula a correr. Por se tratar de algo novo, todos esses parâmetros estão sendo construídos no aqui e agora. Estamos vivendo a possibilidade de ver algo diferente nascendo.

Na tentativa de atenuar a ausência física de espectadores, algumas experimentações costumam reservar um momento no final da sessão para conversas com os artistas, inclusive com a possibilidade de fazer perguntas e entender melhor como as obras foram pensadas. Se tornou uma das experiências mais interessantes para quem pesquisa teatro ou é “apenas” um espectador apaixonado pelo tema.

Novos caminhos de produção começam a ser desbravados. O palco faz muita falta e nada substitui o contato direto com a plateia, porém o foco sempre será a comunicação, o estabelecimento de relação, para aproximar-se e tocar o outro.

O fato é que, após mais de um ano de pandemia, as peças produzidas para o formato online facilmente ultrapassam as fronteiras e alcançam públicos interessados, encontrando até mesmo plateias inesperadas, tanto dentro, quanto fora do país.

A peça começa após o terceiro sinal, porém, agora a plateia não está mais reunida em um mesmo ambiente. Neste formato, o público está em rede, em uma plateia com o tamanho do mundo. O espetáculo chega simultaneamente para muitas casas de diversas cidades em qualquer parte do mundo onde houver conexão com a internet.

A melhor parte desse formato é a possibilidade de alcançar um maior volume de público. De qualquer forma, precisamos lembrar que essas experimentações via internet não se tratam necessariamente de um voo totalmente inédito. Alguns festivais já ofereciam conteúdo nesse formato. O que diferencia essas experimentações nesse momento é o fato de que o que antes era uma opção em algumas ocasiões especiais, agora é a única forma que se pode apreciar/praticar Teatro. Este é o momento em que o público vai ter a possibilidade real de testar o Teatro Digital. Abriu-se mais uma oportunidade para nos aventurarmos como artistas e espectadores.

O tempo de questionarmos se o que vem sendo produzido durante a pandemia é realmente teatro já passou.

É hora de experimentar. Se é o que podemos fazer, vamos buscar a excelência nisso também.

Não estou falando em abandonar os planos da continuação das apresentações presencias em breve. Estou falando sobre disfrutar da paisagem em um percurso diferente, fazendo o teatro que nos é possível nesse momento tão restritivo. Uma das principais qualidades do Teatro é estar, mesmo marcado por uma série de tradições, sempre conectado ao mundo e ao tempo no qual se manifesta. Ao longo do tempo, as novidades foram sendo assimiladas e postas em convivência entre si.  Quando o Teatro absorve e se apropria de uma nova tecnologia não há a necessidade de substituições.

Sempre que há a alteração ou rompimento de alguma tradição também existe o estranhamento. Isso é o movimento orgânico do tempo em qualquer prática. No Teatro não é diferente. Sempre que alguma nova tecnologia se aproxima de modo mais “radical” da prática teatral, é muito comum e saudável que surja resistência de um grupo ou outro.

É possível, pela forma como as experimentações se desenrolam, associar essas produções imediatamente ao Teatro. O Teatro Digital também trabalha com o efêmero e proporciona às pessoas a oportunidade de compartilhar do mesmo tempo em um mesmo espaço (mesmo este sendo virtual). Entretanto já não tenho mais a ansiedade de querer encaixotar as possibilidades. As transformações são inevitáveis. Tudo está sempre em transformação. O que percebo é que existe um potencial novo surgindo.

O hibridismo presente entre o teatro e as linguagens audiovisuais e digitais, característicos das peças produzidas neste período, é bem-vindo para acrescentar possibilidades de expressão e comunicação. Entender que esse é um momento de experimentar é muito mais importante do que tentar classificar o que estamos fazendo. Precisamos investigar as possibilidades, porém sem a ânsia de alcançar aquilo que estamos perdendo distantes de nossos palcos naturais e costumeiros.

Proponho que suspendamos, por um tempo, o instinto que nos leva a nomear tudo. A urgência nos empurra para a ação, para a tradicional e essencial prática baseada nas tentativas com erros e acertos. As únicas certezas que se cristalizam é que essas produções se alimentam do Teatro e que as experimentações que estão acontecendo agora vão, através desse novo olhar, influenciar de alguma forma o Teatro que conhecemos. Ainda não sabemos como, mas essa reverberação vai causar outras transformações.

O Teatro Digital se mostra inovador, entre outros tantos motivos, porque não se atreve, ou limita, a tentar transpor para um ambiente completamente novo uma encenação que foi concebida para o palco.

Essas experimentações abrem novos caminhos para o teatro de nosso tempo. Transformam toda essa precariedade e privação provocada pelo distanciamento social em alguma forma de impulso criativo para explorar uma possível nova linguagem artística. Uma linguagem diferente, disposta e à vontade para ocupar e apropriar-se das janelinhas do Zoom ou qualquer outra plataforma.

O Teatro é, sem sombra de dúvidas, uma arte que diz sim.

Trabalhar duro para absorver as novas práticas e tecnologia para continuar ativamente evoluindo e se reinventando não é um processo que acontece exclusivamente em um contexto pandêmico. Esse modo de operação é inerente ao Teatro e anterior a pandemia.

Se voltarmos no tempo, lá atras antes da Era Digital, podemos lembrar do Teleteatro. Uma linguagem de formato híbrido com destacada importância na história do nosso Teatro Nacional e ocidental. As ditas peças radiofônicas fazem parte da cultura do teatro. E isso continua acontecendo na contemporaneidade. O fluxo natural do Teatro é esse: sempre que uma nova tecnologia aparece, ela deve ser acolhida, assimilada e, caso seja necessário, adaptada às especificidades das práticas correntes.

Outra similaridade é o uso de cenas pré-gravadas inseridas desde sempre em espetáculos teatrais. Em 1943, Nelson Rodrigues em sua obra Vestido de Noiva já indicava por meio das rubricas de seu texto o uso de projeção e microfone. Como dito anteriormente, essa absorção para experimentação e aproveitamento é um processo absolutamente natural dentro da História do Teatro. Originalidade é um artigo cada vez mais raro.

Em mais de 2 mil anos de Teatro Ocidental, não foram poucos os processos que geraram transformações e adaptações nas práticas. O entendimento sobre o que é Teatro leva à diversas conclusões em diferentes lugares do planeta. Em um recorte mais amplo, ainda não encontramos um denominador comum conclusivo nem mesmo quando falamos especificamente sobre as experimentações presenciais.

Se a presença ao vivo é um denominador comum consolidado, precisamos considerar as novas experiências incorporadas com a tecnologia.

Estamos, desde que a internet entrou em nossa rotina, convivendo com outros regimes de presença. As novas experiências, muito antes da pandemia, já estavam operando constantemente nas escolhas de nosso cotidiano e isso, inevitavelmente, interfere no teatro. Algumas experimentações promovem esse hibridismo quando, por exemplo um ator sai do palco lavando consigo uma câmera que transmitirá para dentro da apresentação imagens de uma ação em outro espaço, outras produções já investiam na junção digital para a formação de espetáculos com elencos espalhados por outros países. A partir dessa nova leva de experimentações, estamos avançando nessa relação com o meio digital.

Infelizmente, a desigualdade também na inclusão digital ainda causa outras limitações de acesso, fruição e apreciação. Porém precisamos levar em conta que o Teatro produzido para o modo presencial também não é totalmente inclusivo.

Continuamos precisando lidar com velhos problemas. Contudo, devemos aproveitar essa oportunidade de criar pontes que conectem diferentes artistas de diversas regiões. Essas experimentações devem, até mesmo depois da pandemia, nutrir os processos compartilhados entre artistas que, além de possuírem acesso à internet, conseguem se adaptar e trabalhar com ela.

Estamos criando um espaço muito interessante nesse novo ambiente. Uma nova instancia que existirá, sem dúvidas, para sempre e independentemente do fim desta terrível pandemia. A necessidade nos empurrou para uma expedição de exploração dessa forma de interação com o mundo. Um meio que também pode ser muito interessante para nossa expressão artística.

Podemos afirmar que, em alguma medida bem relevante, vivemos uma vida ciborgue

Como assim uma vida ciborgue?

Simples. Vivemos uma vida que, sem cerimônias, mescla o orgânico, nós e nossas demandas naturais, com o que há de cibernético ao nosso alcance, como os aparatos tecnológicos.

Se pararmos para analisar, hoje em dia, grande parte do nosso trabalho acontece por “extensões ciborgues” que facilitam nossas rotinas. Podemos concluir que um dos efeitos da pandemia foi o de colocar a vida social nessa condição ciborgue. A arte resultante dessas experimentações não seria consumada sem o uso de energia elétrica, equipamentos específicos, internet, e plataformas como o Zoom, por exemplo. O Teatro Digital só existe porque nossa expressão (corpo) se manifesta por meio dessas ferramentas tecnológicas.

Além das intervenções artísticas ao vivo, que configuram o tal Teatro Digital, podemos encontrar diversos festivais, oficinas e seminários que visam a aproximação de pesquisas e pessoas. Alguns grupos disponibilizaram na internet seus acervos de espetáculos gravados no palco. O Teatro Filmado é uma outra forma de levar os espetáculos para o ambiente virtual e, principalmente, para o espectador que está em qualquer parte do planeta. 

Podemos encontrar uma vasta programação de experimentações com o Teatro Digital em plataformas como a Sympla ou o Youtube. Um cardápio que pode agradar os mais variados gostos, em diversos idiomas, com uma infinidade de temáticas.

Já estamos acostumados a assistir filmes, novelas e shows por meio de uma tela.

Quem sabe você não acaba descobrindo uma nova possibilidade de consumir e fazer Arte?

Eu, que estava muito relutante no início dos processos, acabei me rendendo. Nesse longo ano pandêmico, tive o prazer de rever meus conceitos e assistir experimentos geniais.

Se estiver ao teu alcance, como artista ou espectador, aproveite o momento.

Numa dessas a gente se encontra em alguma plateia ao redor desse mundo digital.

Comentários:
Isaque Conceição

Publicado por:

Isaque Conceição

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